Qual seria o presente de Natal perfeito para um leitor? A resposta óbvia é um livro. A catarinense Marina Hadlich, no entanto, decidiu trocar a chance de ganhar uma obra nova por algo muito melhor: incentivar pessoas do seu bairro a ler.
Em 2020, no auge da pandemia, a escritora teve a ideia de construir uma biblioteca colaborativa, em formato de ‘casinha’, em frente à casa onde mora, no bairro Ribeirão da Ilha, em Florianópolis.
Marina coloca livros novos na casinha toda semana, com títulos de vários gêneros e para todas as idades – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação/ND“Eu sempre fui entusiasta da leitura e queria incentivar esse hábito na comunidade, mas vi que no bairro não tínhamos muitas opções de acesso a livros, os moradores, inclusive eu, precisavam ir até o centro ou Campeche para emprestar títulos”, conta.
SeguirEla iniciou uma campanha de arrecadação nas redes sociais e se surpreendeu com o resultado: recebeu mais de 150 exemplares já nos primeiros meses. Ganhou várias caixas de livros, de pessoas de toda a cidade.
Com os livros em mãos, o próximo passo foi construir a casinha. A escritora contratou um marceneiro e imprimiu frases de incentivo à leitura para decorar o local. Com a estrutura pronta, a ‘casinha de livros’ foi inaugurada no dia 24 de dezembro de 2020.
“A casinha funcionou super bem, está sempre cheia de livros. As pessoas pegam emprestado, devolvem alguns, colocam outros no lugar. Adoro abrir a portinha e encontrar livros que eu não conhecia”, relata Marina.
Não há burocracias para retirar um livro: basta escolher o título e levar, sem prazo para devolução – FOTO: Leo Munhoz/ND Marina coloca pelo menos três livros novos por semana na casinha. Há títulos indicados para todas as idades e de todos os gêneros, com exceção dos didáticos, já que, segundo Marina, a ideia é que “os moradores possam se encantar com as histórias e viajar na imaginação”.
Como funciona
Não há burocracias para retirar um livro: se você passar pela casinha, basta escolher o título de sua preferência e levar, sem prazo para devolução.
“As obras infantis, por exemplo, não duram nada, sempre tem alguma criança atrás de novas aventuras literárias”, lembra Marina.
O local charmoso se transformou até em atrativo turístico. Marina conta que há uma família que vem de bicicleta até a casinha, transformando a visita em um passeio.
Os moradores do Ribeirão da Ilha aprovaram a casinha e inclusive ajudam Marina a manter o acervo sempre cheio – Foto: Leo Munhoz/NDOutra pessoa, que mora relativamente longe da casa da escritora, passou caminhando, levou um livro sobre maternidade e depois repassou a obra para outros membros da família. Marina até recebe mensagens de leitores perguntando se a casinha possui determinadas obras.
“Assim, os livros vão ganhando novos leitores pelo Ribeirão da Ilha. A casinha é muito procurada e se tornou referência para literatura. Gosto de passar por ali e encontrar pessoas espiando as novidades, batemos papo e trocamos indicações”, complementa Marina.
Uma biblioteca abraçada pelo bairro
Os moradores do Ribeirão da Ilha aprovaram a casinha e inclusive ajudam Marina a manter o acervo sempre cheio.
A massoterapeuta Perlla Cenzi Sulzbacher, que vive no bairro desde 2007, adora passar pelo local com a filha Ana, de nove anos. A casinha despertou o amor pela leitura na menina. Elas leem juntas todas as noites antes de dormir.
A ‘casinha de livros’ foi inaugurada no dia 24 de dezembro de 2020 – Foto: Leo Munhoz/ND“Sempre paramos o carro e vemos se tem algum livro do nosso interesse. Já doamos e somos leitoras assíduas! Esse incentivo à leitura abre portas na consciência de quem ama ler”, elogia Perlla.
A personal trainer Ana Aguiar começou a retirar livros há pouco tempo. Ela ressalta que iniciativas como a de Marina são ainda mais importantes na era das redes sociais, em que as pessoas dificilmente tiram os olhos do celular.
“É uma ação linda, importante e grandiosa. Não tem nada mais prazeroso do que se envolver com uma boa história”, diz Ana.
Depois de levar dois títulos para casa, Ana também quer deixar a sua contribuição na biblioteca comunitária. “Estou separando alguns livros para a casinha e assim outras pessoas podem desfrutar da leitura”, completa.
A casinha de Marina acabou inspirando outras leitoras a organizarem a própria biblioteca comunitária em seus bairros. É o caso de Ju Barcellos, que construiu uma casinha na Praia da Pinheira, em Palhoça.
Amor pela literatura
Além de ser uma leitora assídua, Marina realiza campanhas de arrecadação de livros desde 2012. Os títulos recebidos de doações estão espalhados por instituições que atendem crianças e adolescentes ou até em seu próprio acervo.
Uma das bibliotecas colaborativas idealizadas por ela está na Biblioteca Pública de Santa Catarina. É uma geladeira literária. Marina resgatou o eletrodoméstico velho da avó e transformou em uma estante.
“Lá também o acesso é sem burocracia para empréstimo. Uma adega de vinhos estragada também já virou biblioteca e doei para uma lanchonete em Forquilhinhas, que continua mantendo o acervo disponível”, conta.
Outro motivo que leva Marina a ter essa grande vontade de disseminar a leitura é a sua profissão. Ela é escritora e já publicou dois livros, além de participar de antologias organizadas por editoras.
Livro escrito por Marina também está disponível na casinha – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação/NDMarina começou a escrever em 2014, incentivada por amigas, que elogiavam sua habilidade de contar histórias. Na época, ela trabalhava na área jurídica, porém decidiu trocar de carreira em 2017.
A aposta deu certo e Marina lançou o primeiro livro em 2019, uma coletânea de contos sobre mulheres e um infantil. Ela divulga as obras durante palestras em escolas e faz contação de histórias.
“Como escritora, penso que nunca vou conseguir parar de inventar novas bibliotecas. Quero que as pessoas tenham acesso a livros, leiam, tenham pensamento crítico, descubram mundos. Estou aqui só pensando no próximo formato de biblioteca”, finaliza.
Alguém sugere uma ideia?
Serviço
O que: casinha de livros Ribeirão
Onde: Rodovia Baldicero Filomeno, nas proximidades do nº 11.700, Ribeirão da Ilha, Florianópolis
Mais informações: perfil no Instagram @marinahadlich