“Meu primeiro contato com a leitura, aos três anos, foi com a Turma da Mônica“. O depoimento de Lucas Ortiz, de 20 anos, natural de Tupã, em São Paulo, não é um caso isolado. A turminha mais famosa do fictício bairro do Limoeiro também marcou o crescimento de Pedro Augusto Borges Correa, de 22 anos, nascido em Poços de Caldas, em Minas Gerais.
“Eu não lembro ao certo quando foi meu primeiro contato com a Turma da Mônica. Eu sei que meu aniversário de 2 anos foi com essa temática, então provavelmente foi muito antes disso. Tenho memórias da minha mãe lendo pra mim, e entre os 3 e 4 anos passei a ler sozinho, quando aprendi”, conta o mineiro.
Desde cedo Pedro já demonstrava interesse pela Turma da Mônica – Foto: Pedro Correa/Arquivo pessoal/NDJá o paulista conta, entre risadas, das lembranças de quando frequentava o ensino infantil. “Lá, as professoras usavam a Turma da Mônica como uma estratégia para nos manter entretidos ao finalizar uma atividade, para não atrapalhar os colegas que ainda estavam terminando a lição”.
Seguir“E outra, eu fui criado com meus avós quando criança, e por conta disso eu frequentava muitos consultórios médicos. Nesses locais sempre tinha gibis na sala de espera, e pra ficar quieto, eu sentava e lia. Foi assim que minha história começou com eles. A Turma da Mônica ajudou com que eu desenvolvesse a minha leitura”, conta Ortiz.
Com seus trejeitos e costumes, Cascão, Mônica, Cebolinha e Magali encantam e fazem parte de lares em todos os cantos do Brasil desde suas criações em 1970 – Arte: Maurício de Souza/ReproduçãoAtualmente, tanto Pedro quanto Lucas são acadêmicos de jornalismo na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), mas mesmo depois de alguns anos, ambos ainda guardam com carinho as memórias de quando liam, diariamente, as histórias criadas por Maurício de Souza.
Personagens como a Dona Morte e o Zé Caveirinha sempre apareciam nas histórias do Penadinho, abordando de forma leve e até mesmo engraçada temáticas relacionadas ao “pós-vida” – Arte: Maurício de Souza/Reprodução“Eu devorava os gibis e lia e relia com muita frequência”, conta Pedro. “Minha relação hoje é de carinho. Eu lembro de aprender muito com as histórias do Penadinho, que apresentavam conceitos como purgatório e vida após a morte. Isso despertava meu lado curioso”, lembra.
Enquanto isso, Lucas confessa que “o sentimento que eu guardo hoje é de muita gratidão. Tem um lado de nostalgia, porque os personagens da Turma da Mônica me acompanharam no meu desenvolvimento como pessoa, não só na leitura, mas também no aprendizado e conhecimento de mundo”.
Quando criança, Lucas também teve um aniversário temático da Turma Da Mônica – Foto: Lucas Ortiz/Arquivo pessoal/NDDa infância à adolescência
Em 2008, um anúncio revolucionou o mundo da Maurício de Souza Produções. Nascia, naquele ano, a TMJ (Turma da Mônica Jovem). Mensalmente, edições especiais de aventuras da turminha já crescida e lidando com as dificuldades impostas pela adolescência, eram publicadas no Brasil.
Nas edições especiais, a turminha do Limoeiro cresceu e passou a enfrentar outros desafios da vida adulta. Entre as publicações, uma das mais marcantes foi a do casamento entre a Mônica e o Cebola – Foto: Internet/Reprodução/NDA inovação foi um marco para os fãs que abandonaram, aos poucos, seu consumo enquanto cresciam. “Na pré-adolescência eu tive aquela fase de que gibi era coisa de criança e passei a ler Turma da Mônica Jovem. Acompanhei o projeto por uns dois ou três anos”, conta Pedro.
“Em 2019 voltei a comprar algumas edições não lidas, como o casamento da Mônica com o Cebola. Hoje eu compro os gibis clássicos com menos frequência, mas sempre que tenho um troquinho no bolso eu passo numa livraria ou numa banca de jornal”, comenta o mineiro.
Com um mundinho à parte, Louco configura como personagem secundário em diversas HQs da turminha – Foto: Internet/Reprodução/NDEle explica que faz isso “tanto pra me divertir um pouco como pra fortalecer o comércio local. As histórias que eu mais gosto de rir hoje, depois de adulto, são as do Louco e as do Do Contra. Mas as do Horácio, numa pegada mais filosófica, também são muito boas”.
Figurando em diversas charges, Horácio sempre apresenta questões relacionadas ao sentido da vida – Foto: Internet/Reprodução/NDJá para Lucas, que mesmo tendo mudado seus gostos pessoais, continuou lendo os quadrinhos, pois para ele, a Turma da Mônica Jovem chegou para tratar de temas mais relevantes que antes não eram abordados nas histórias infantis.
Acompanhando o período da puberdade de seus personagens, a TMJ trouxe consigo temáticas amorosas, culturais e de auto-identificação consigo mesmo. Assuntos estes que abraçam a realidade de muitos adolescentes ao redor do Brasil.
“Eu estava mudando de fase na minha vida. Aqueles novos quadrinhos, em estilo mangá, me ajudaram com essa transição para a fase adulta, afinal os personagens, assim como eu também estavam amadurecendo”, comenta Ortiz.
Parte da coleção particular de Lucas fica guardada em um baú na casa de seus pais, em Quatá, no interior de São Paulo – Foto: Lucas Ortiz/Arquivo Pessoal/NDApesar da diferença nas histórias, uma coisa permanece certa: a nostalgia e os momentos memoráveis da Turma da Mônica, como a protagonista correndo atrás de Cebolinha com o Sansão, seu coelho de pelúcia de estimação, ainda são lembrados nas produções.
Ensinamentos
“Nos anos 2000, a Turma da Mônica era uma da únicas peças brasileiras adaptadas ao público leitor iniciante, mas as histórias conversam com crianças e adultos de todas as classes sociais. Isso é muito característico nesses gibis. Hoje, se eu for pegar uma edição, eu ainda me identifico com tudo o que está ali”, comenta Lucas.
Esse é um dos principais pilares da Turma da Mônica. Com gibis temáticos, as produções feitas em São Paulo se preocupam em trazer à tona discussões sérias e importantes, como é o caso da preservação ambiental e do combate às drogas, a fim de influenciar seus fiéis leitores na tomada de decisões corretas, e até mesmo para aguçar a imaginação deles.
“As historinhas da Turma da Mônica sempre foram muito boas em apresentar de formas simples conceitos mais complexos“, relembra Pedro. “Um conto, que tinha o enigma da esfinge, me ajudou a entender melhor mitologia e atiçar minha curiosidade nesse tipo de coisa. como sempre fui curioso, sempre queria entender as referências apresentadas”.
De forma nada complexa, as histórias e os caráteres da turminha – indo além dos nomes mais conhecidos do Limoeiro, dando enfoque também a personagens como a desenhista Marina, o cientista Franjinha e a exibida Denise – todos fazem parte até hoje de uma grande referência para o público leitor.
Além disso, “cada personagem da Turma da Mônica tem defeitos e qualidades. Com isso, eles ensinam a criar consciência da esfera social, de acolher a diversidade. Eles ensinam o valor que as amizades têm, e também abrem espaço para debater assuntos cotidianos de maneira acessível”, pontua Lucas.
Saudosa nostalgia
Que atire a primeira pedra quem nunca parou para ler ao menos um dos quadrinhos criados pelo gigante cartunista Maurício de Souza. Ou então quem nunca tenha dado uma gargalhada gostosa com as inúmeras tentativas infalíveis do Cebolinha em se tornar “O Dono da ‘Lua’“.
A Turma da Mônica foi responsável por marcar o imaginário de toda uma geração que cresceu durante os anos 2000, quando as histórias da turminha ganharam mais força e popularidade entre as famílias brasileiras com seu tom ameno de diversão.
É com essa saudosa nostalgia de quem ficava na expectativa de qual seria a desculpa para o Cascão não tomar banho que a turminha para sempre será lembrada, com muito afeto e um espaço reservado no coração de todos aqueles que aprenderam e cresceram com as páginas coloridas da Maurício de Souza Produções.