Pensar Guido Wilmar Sassi no ano de seu centenário conduz de imediato à pergunta: por que Santa Catarina relega muitas de suas excelências culturais para a invisibilidade? Afirmado como o “Graciliano Ramos” do Estado, poucos conhecem a grandeza desta produção literária que obteve reconhecimento nacional. Curta, porém potente, um conjunto de obras – contos, novelas e romances – que se situam no afiado da navalha, que obriga o leitor a refletir sobre a condição humana e as injustiças sociais.
A SeCArte (Secretaria de Cultura e Arte) e o DAC (Departamento Artístico Cultural) da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), em parceria com a Humana Sebo e Livraria, de Chapecó, promovem hoje uma mesa-redonda sobre a vida e a obra do escritor lageano que nasceu em 15 de setembro de 1922 e morreu em 5 de maio de 2002. Gratuito e aberto, o encontro será às 19h, no auditório Henrique Fontes, no CCE-UFSC (Centro de Comunicação e Expressão), com a participação das professoras doutoras Ana Brancher e Tania Regina Oliveira Ramos, além dos historiadores mestres Fabiano Garcia e Fernando Boppré.
Guido Wilmar Sassi em São Paulo, na editora Boa Leitura, quando lança o livro “São Miguel”, em 1962 – Foto: Reprodução/ND“São Miguel”, o primeiro romance que relata a história dos balseiros e a extração de madeira no Oeste do Estado, está completando 60 anos. Trágico e profundo, Sassi também é autor de “Geração do Deserto”, um clássico que o crítico Antônio Hohlfeldt diz que “se insere no pequeno conjunto de obras que pretendem ser a visão dos vencidos, a versão dos marginalizados”. A obra amplia o conhecimento sobre a Guerra do Contestado (1912-1916), um marco de resistência popular no Estado. A abordagem sobre companhias colonizadoras estrangeiras, fanatismo religioso, o conflito em torno da madeira e erva-mate entre o oeste do Paraná e Santa Catarina foi adaptada para o cinema pelo diretor Sylvio Back no filme “Guerra dos Pelados”.
SeguirO mais velho de quatro irmãos, se transforma em 1941 em arrimo de família. Herda o gosto pelas histórias e leitura da avó e da mãe, “ambas escritoras não realizadas”, segundo Sassi. Trabalhou como balconista, padeiro, comerciante, funcionário público e bancário. Amava o cinema. Teve quatro filhos. Morou em Campos Novos, Lages, Rio do Sul, São Paulo e no Rio de Janeiro. Ativista cultural, engajado politicamente, na ditadura sofreu ameaças de prisão e interrogatórios. Neste período ficou 16 anos sem escrever. “Abandono a literatura. Tédio. Náusea. Desilusão. Revolta. Cansaço. Não quero mais saber de livros nem de escritores”, justifica ele.
Acolhido por Salim Miguel (1924-2016) e Eglê Malheiros, publica os primeiros contos na emblemática revista “Sul”, de Florianópolis. Conquista prêmios literários já com os primeiros livros. Com “Piá” fica como finalista do Prêmio Fábio Prado e “Amigo Velho” lhe garante o Prêmio do Instituto Nacional do Livro.
O reconhecimento dos atributos como ficcionista estão comprovados numa fortuna crítica que inclui textos de Paulo Rónai (1907-1992), Celestino Sachet, Lauro Junkes (1942-2010), Giovanni Ricciardi, Eglê Malheiros, Tânia Regina Oliveira Ramos, entre outros. O estilo enxuto e uma capacidade extraordinária de contenção resulta numa literatura que toca fundo no drama da solidão e do desamparo. Além do humano, seu compromisso é com a memória histórica.
Livros de Sassi, um dos nomes mais expressivos da literatura de Santa Catarina – Foto: Divulgação/NDEmbora com um recorte temático que se dá no Oeste catarinense, é redutor mantê-lo na linha regionalista do modernismo brasileiro. Conhecido nacionalmente, pela qualidade de sua escrita, deve estar ao lado dos grandes nomes da literatura brasileira, como Erico Veríssimo (1905-1975) e Graciliano Ramos (1892-1953).
Nesta quinta-feira (17), a mesa-redonda na UFSC certamente alargará a compreensão e o reconhecimento deste autor cuja vastidão ultrapassa o âmbito do regionalismo, assentando-se naquilo que é universal.
*Jornalista, integrante da ABCA (Associação Brasileira de Críticos de Artes)
Obras do autor
“Piá”. Florianópolis: Edições Sul, 1953
“Amigo Velho”. Florianópolis: Edições Sul, 1957
“São Miguel”. São Paulo: Editora Boa Leitura, 1962
“Testemunha do Tempo”. Rio de Janeiro: G.R.D. 1963
“Geração do Deserto”. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1964
“O Calendário da Eternidade”. Florianópolis: Ed. da UFSC, 1983
“A Bomba Atômica de Deus”. Florianópolis: FCC,1986
“Os Sete Mistérios da Casa Queimada”. Florianópolis: Ed. da UFSC, 1989
Serviço
O quê: mesa-redonda em homenagem ao centenário de Guido Wilmar Sassi, com Ana Brancher, Fabiano Garcia, Fernando Boppré e Tania Ramos
Onde: Centro de Comunicação e Expressão, auditório Henrique Fontes, campus/UFSC
Quando: 17/11/2022, 19h
Quanto: gratuito
Saiba Mais
humanasebolivraria.com.br/eventos/centenariogws2022/
Frases
“O processo criativo é uma tarefa árdua, penosa e solitária, angustiosamente solitária.”
“Sou um cineasta que não se realizou, um cineasta sem filme e sem câmera. Quando escrevo, parece-me que estou fazendo cinema.”
Sassi em entrevista para Giovanni Ricciardi