Com a presença das plataformas digitais cada vez mais em alta, e a venda de livros por meio da internet em ascensão, surge o questionamento: como estão se mantendo as livrarias físicas de Santa Catarina?
Venda de livros de forma online impõem percalços às livrarias físicas – Foto: Agência Senado/Divulgação/Fundação de Arte e Cultura de Ubatuba/NDEm 2020, foram vendidos R$ 103 milhões em e-books e em áudio livros no Brasil, segundo pesquisa feita pelo SNEL (Sindicato Nacional dos Editores de Livros). O valor representa a venda de 8,7 milhões de livros digitais no país.
A “Pesquisa Conteúdo Digital do Setor Editorial Brasileiro”, apurada pela Nielsen Book, ainda constatou que outros R$ 44 milhões em livros foram vendidos através de plataformas online, como bibliotecas virtuais e serviços por assinatura.
SeguirEm Florianópolis, capital catarinense, são poucas as livrarias restantes após um turbulento ano de pandemia. “Na crise, o setor cultural é um dos que mais perde, pois ninguém vai deixar de comprar comida ou pagar suas contas fixas para comprar um livro”, pondera o gerente comercial da Livros & Livros, Lauro Cesar de Almeida.
Além da livraria localizada dentro da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), mantêm-se de pé as livrarias Catarinense – em dois endereços diferentes -, Letraria – no bairro Campeche -, Nobel e Saraiva. As duas últimas possuem apenas uma unidade fixa cada em shoppings da Ilha.
“O cenário do mercado literário em Santa Catarina está em recuperação”, aponta o diretor comercial da Livraria Catarinense, Marcos Pedri. Aliado às vendas online, a Covid-19 é um dos principais motivos para a existência de tão poucas unidades livreiras físicas no Estado, especialmente em Florianópolis.
No ramo, dentro da Capital, “muitas perderam a identidade de livraria e se tornaram uma ‘loja que vende livros também’, mas que o foco não é mais o livro e sim produtos eletrônicos e material de escritório. O livro se torna secundário. Você vai encontrar os mais vendidos, os que estão em evidência na mídia, ou seja, não existe bibliodiversidade”, pondera Lauro.
Diferentes artigos de papelaria, como lápis e cadernos, vêm tomando espaços que antes eram ocupados apenas por livros – Foto: José Cruz/Agência BrasilEle ainda reforça que os leitores percebem essas transformações. Para o sócio da Livros & Livros, se as livrarias quiserem sobreviver, elas precisam se tornar focos culturais dedicados aos leitores.
“Infelizmente como o acesso à cultura está cada vez mais prejudicado pela situação atual do país, os livros estão aumentando muito de preço, o que consequentemente afasta potenciais leitores e deixa esse acesso cada vez mais elitizado”, comenta a leitora assídua, Ana Paula Wandresen.
“Uma livraria se sustentar em uma cidade cujo custo de vida é um dos maiores do Brasil, sem falar num investimento pífio em programas de incentivo à cultura e leitura, não é dos cenários mais convidativos para se abrir um comércio onde a margem de lucro é muito menor comparada com outros setores”, pensa Almeida.
Vendas de livros em plataformas digitais
O setor ainda tem uma vantagem: apesar do crescimento de vendas pela internet, a majoritária de livros vendidos ainda é física. Isso porque, cada vez que vende-se um e-book, outros 42 livros tradicionais são comprados. A conta é, de certa forma, favorável, conforme divulgação da CBL (Câmara Brasileira do Livro).
Entretanto, em 2019, outra pesquisa da CBL apontou que, na venda de um livro online, 95 livros de papéis eram vendidos em consonância. A diminuição da estatística mostra como, em pouco tempo, a internet vem dominando o público leitor.
Muito além de um auxílio nas tarefas diárias, a internet e os dispositivos virtuais já se tornaram parte do cotidiano dos brasileiros – Foto: Freepik/Reprodução/NDA relevância de plataformas virtuais, diante da crise do mercado livreiro, ganha destaque ao apostar em uma competição acirrada pelos melhores preços do mercado. Sem os impostos cobrados nas lojas físicas, pois não há a necessidade de alugar ou comprar um espaço e inseri-lo nas cidades, os guichês de compra online geram valores mais acessíveis aos leitores.
“Eu não tinha condições de comprar todos os livros que eu queria e a internet ofereceu essa vantagem pra mim. Talvez por isso eu tenha preferência por livros digitais”, revela Ana Paula.
O Kindle, um dispositivo de leitura virtual, possibilita que os leitores tenham todas as histórias na palma de suas mãos, de maneira prática, tornando-se outro percalço para os livros físicos. Em plataformas como a Amazon, os leitores ainda têm acesso à fretes grátis e descontos na compra das obras.
Livros virtuais ganham espaço na mesa de cabeceira dos leitores – Foto: Reprodução/RICTV Record TV“Os livros que a própria Amazon comercializa, em boa parte contam com um tipo de desconto impraticável por pequenos e médios livreiros, o que acaba desestabilizando toda a cadeia do livro”, reitera Lauro.
Ele ainda comenta que esses conglomerados pagam à vista as editoras, que acabam se tornando “concorrentes” das livrarias físicas por conta das feiras e promoções que as mesmas promovem em seus respectivos sites.
A importância da presença de livrarias físicas
Para começar a ganhar novamente espaço no mercado, as livrarias tiveram que se reinventar. Através do aperfeiçoamento da utilização das redes sociais, espaços como a Livros & Livros enfrentam o momento fazendo campanhas e promoções na internet.
A intenção, é claro, é atrair mais público à livraria. “As livrarias fazem parte da memória local das suas cidades e bairros. Você pode se apaixonar em uma livraria. Você pode fazer amizade em uma livraria. As livrarias são locais com vida, troca e mediação de conhecimento”, ressalva Lauro.
Todo o acervo da Livros Livros é promovido nas redes sociais da livraria, a fim de atrair mais público até ela – Foto: Internet/Reprodução/NDO pensamento é compartilhado pela estudante de jornalismo, Marina Soares. “Pessoalmente eu gosto de comprar livros em livrarias físicas, gosto de folhear, olhar eles, sentir o cheiro e estar no local. Gosto de ouvir pessoas falando bem ou mal das histórias, acho um bom ambiente pra isso”. “E o mercado livreiro se beneficia disso”, complementa Lauro.
De fevereiro de 2020 até fevereiro de 2021, o setor físico de livrarias teve uma alta de 18,69% no crescimento de suas vendas, segundo a SNEL. A expectativa, como reforça Marcos Pedri, é de que “o último trimestre seja ainda melhor, com o retorno de eventos presenciais nas nossas lojas e do público no período das festas de final de ano“.