Professora das redes pública e particular, militante nas questões de gênero e cor, Jeruse Romão, 61 anos, é fonte de inspiração para mulheres de todas as idades e classes sociais.
Jeruse Romão é membro da Associação de Educadores Negros do Estado de Santa Catarina – Foto: Leo Munhoz/NDFundou o NEN (Núcleo de Estudos Negros), ainda na década de 1980, foi assessora parlamentar na Câmara de Vereadores de Florianópolis, ajudou a criar a Medalha Antonieta de Barros (em homenagem à professora, jornalista e deputada sobre quem publicou um livro, em 2021) e atuou como assessora da Unesco para o Ministério da Educação.
É membro da Associação de Educadores Negros do Estado de Santa Catarina. Nunca alisou o cabelo e compartilhou com o marido sindicalista a educação dos filhos. Ainda trabalha na formação de professores, com a energia de quem sabe que resistência é a palavra que melhor a define.
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Quando e onde nasceu e passou a infância?
Nasci em 1960, filha de mãe professora e pai policial, integrante da banda de música da PM. Minha mãe vivia no Mont Serrat, meu pai era de Alto Biguaçu (atual município de Antônio Carlos), e ambos fizeram parte de uma geração que se estabeleceu no maciço do morro da Cruz, em Florianópolis.
Minha mãe já era filha de professora e foi diretora de escola no morro. Quando lecionava no Mobral, levava os filhos para as aulas noturnas que dava aos adultos. Vi quando pegava na mão dos alunos para ensinar as primeiras letras. Todos na família tiveram acesso à educação – a meta dos pais era que fizessem carreira, se possível como funcionários públicos.
Quando começou seu engajamento com as causas sociais?
Sou militante desde os nove anos de idade, aquando vi o filme “Ao Mestre com Carinho”, com Sidney Poitier. A militância abriu outros mundos e me permitiu encontrar pessoas que se parecem comigo.
Mas a resistência consciente não é confortável, porque existe muita violência e o movimento negro – que é plural e multifacetado – sabe que sempre haverá enfrentamentos, porque o racismo é estrutural.
Participei dos movimentos da cultura (popular e afro-popular) e da política, na comunidade e fora dela. O Mont Serrat era multifacetado, com igreja, escola, terreiros, escola de samba, o orocongo do mestre Gentil, o futebol que fornecia jogadores para Avaí e Figueirense.
Aos 18 anos eu já trabalhava, o que era uma exceção para pessoas do meu grupo. Na Faculdade de Educação, tive contato com professores e colegas de outros segmentos sociais.
Na pós-ditadura, participei de movimentos culturais, festivais de música, grupos de teatro, conheci alguns artistas plásticos, a pintora Valda Costa, a trajetória de Nega Tide. A educação abriu acessos num cenário em que os negros tinham poucas expectativas, por força das regras ditadas pelo nosso estatuto colonial.
A educação é a sua praia. Como viu a evolução do setor com o passar dos anos?
Nossa educação teve uma expansão quantitativa, mas seu grande desafio é reeducar a sociedade. Ela escolariza, mas não educa, não descoloniza. Dá poucas habilidades para as relações sociais e o convívio com o diferente. Há barreiras estabelecidas pela linha da cor, com repercussões no acesso ao mercado de trabalho.
Os estudantes enfrentam o racismo, a homofobia, a gordofobia, a xenofobia. Por outro lado, há as políticas afirmativas, mais anos de escolaridade, e mulheres, negros, idosos, índios e pessoas LGTB discutindo questões sociais que precisam de atenção pública. Essas pessoas passaram de objetos a sujeitos das pesquisas.
Na pandemia, vimos que as questões estruturantes não foram resolvidas. Há muita exclusão digital e a exclusão por meio de raça e classe social. Escolas fechadas equivalem a fome, porque há crianças que não podem prescindir da merenda escolar.
Entendo que o poder público deveria pensar a sociedade a partir da escola, pela sua pluralidade. A estrutura das escolas melhorou, mas os benefícios não alcançam todas as raças e a área rural.
O racismo é outro problema que persiste e se fortalece no Brasil. Por que é tão difícil combatê-lo?
No Sul do Brasil a questão do racismo é muito séria e extrapola o campo das ideias. Provocadas sobre o tema, as pessoas armam-se de violência – simbólica ou explícita.
Nosso currículo é 100% eurocêntrico. Deveria haver o equilíbrio entre a história oficial e a africana, porque aqui a presença negra é estruturante. O negro não está no centro do poder por causa do pensamento colonial em questões de raça e gênero. Os avanços conquistados foram na base de muita luta e perdas físicas, materiais e patrimoniais.
O racismo voltou com força total na última década no mundo. Os Estados enfraqueceram seu papel disciplinador para coibir a violência, que foi sendo naturalizada.
Hoje, o racismo é muito próximo do que vigorava nas décadas 1930 a 1950. É o racismo do linchamento, da desconstrução da humanidade. O racismo se espalha nas áreas da saúde, da segurança pública e da educação, e o Estado autoriza a violência policial. Sou filha de um PM, e nunca vi uma arma na minha casa.
No Sul do Brasil, esse dilema é ainda mais relevante…
No interior, especialmente, a educação das famílias é racista e os professores são ameaçados. Há casos de pessoas que foram banidas de seu círculo familiar para não deixar descendentes negros.
Temos mais 500 células neonazistas no Brasil, muitos deles em Santa Catarina. Acho que aqui é mais violento dos que nos Estados Unidos: os negros e indígenas são as maiores vítimas da cultura do ódio.
Em Florianópolis há muito preconceito contra os haitianos, senegaleses e africanos em geral. Os racistas não aceitam a ascensão de pessoas com pele mais escura. A primeira mulher negra eleita vereadora em Joinville enfrentou manifestações de grupos de ódio, que não admitem o contraditório.
No ano passado, você publicou um livro sobre Antonieta de Barros. Ela também a inspirou no seu trabalho?
Mergulhei na história de Antonieta para entender os debates no seu tempo, incluindo a conquista do voto pelas mulheres. Ela é minha grande paixão.
Jeruse Romão lançou um livro sobre Antonieta de Barros em 2021- Foto: Leo Munhoz/NDAnalisei a sua presença na política de bastidores e suas relações com as alas conservadoras, que sempre batiam na tecla da meritocracia, no esforço próprio para conquistar espaços.
Até Anita Garibaldi foi moralmente julgada e a escritora Maura de Senna Pereira teve que sair de Florianópolis porque se divorciou.
Assim como Antonieta, Cruz e Sousa teria outro lugar se fosse branco.
Ambos são reconhecidos fora do Estado, mas muitos ainda atribuem seus feitos à “ajuda” de famílias da oligarquia branca. O movimento negro foi muito silenciado na história de Santa Catarina.
Conhecer história é um ato revolucionário. Mas me considero uma contadora de histórias e tenho outros projetos em andamento. Tenho uma grande paixão por livros, rodas de conversa e o encontro com as fontes. Possuo muito mais material sobre Antonieta, entrevistas, poesias e outros textos que podem resultar em mais um livro.
O prédio da escola Antonieta de Barros está abandonado no centro de Florianópolis. O que pode acontecer com ele?
O prédio é de difícil manutenção, mas é um patrimônio de Santa Catarina. Está sob a coordenação da Udesc, porém corre riscos por conta de um projeto privatista do lado centro-leste da cidade. Construído em meados do século passado, ele não é tombado, mas a área onde está situado é.
Pensou-se em instalar ali o Arquivo Público do Estado, mas a estrutura não comportaria o peso. Falou-se também num espaço cultural e num museu sobre Antonieta e a cultura negra, reunindo os poucos objetos que restaram dela e também documentos e obras que deixou. A família dela está interessada no destino do prédio e acompanha à distância, de São Paulo, o andamento dos fatos.
Como a pandemia afetou as questões que são objetos de seu trabalho?
A pandemia provocou mais estupros, violência, pedofilia, suicídios, depressão, crises de ansiedade. Os crimes virtuais cresceram, assim como os ataques a pessoas velhas, deficientes, baixas e gordas.
Por outro lado, a nova geração de mulheres e negros circula em outros espaços. Hoje, a juventude negra já está usufruindo da nossa luta. Tem uma emancipação e exercita alguma autonomia que eu não exercitava.
Falando de Florianópolis, vivemos numa cidade silenciadora por excelência. Onde estão os negros? Na política, eles são raros. No mercado de trabalho, as mulheres negras estão no subemprego. Menos mal que vem surgindo uma geração de empreendedoras, que atuam como autônomas e investem em seu talento e em seus próprios negócios.