Florianópolis sempre foi terra de bons escritores e abrigou movimentos literários importantes. Como, por exemplo, o que envolveu Cruz e Sousa e seus amigos abolicionistas, no final do século 19, o grupo que fundou a Academia Catarinense de Letras, na década de 1920, e o Grupo Sul, que trouxe o modernismo para o Estado com um atraso de quase 30 anos.
Autores que vêm afrontando as dificuldades e fazendo sua poesia e sua ficção circularem.- Foto: Agência Senado/Divulgação/Fundação de Arte e Cultura de Ubatuba/NDAutores do porte de Othon Gama d’Eça, Maura de Senna Pereira, Salim Miguel, Flávio José Cardozo, Silveira de Souza, Adolfo Boos Jr. e Almiro Caldeira, para citar apenas alguns, mostram que o talento se expressa também em lugares onde fazer literatura é um exercício de teimosia e obstinação. Mas o que esperar das novas gerações que chegam para abrir caminho num ambiente de desafios e mudanças de paradigmas?
O fato é que, mesmo atuando na surdina, sem uma política cultural que estimule a edição e circulação do livro (e diante de um cenário de pouca leitura em vista das novas ferramentas de comunicação), há muita gente jovem escrevendo na cidade.
SeguirDennis Radünz, já um veterano na flor de seus 52 anos, circula como um guru nesse meio e cita quase duas dezenas de autores que vêm afrontando as dificuldades e fazendo sua poesia e sua ficção circularem.
“A Ilha de Santa Catarina é um caso raro de lugar em que um número enorme de escritores não tem políticas públicas à altura desses talentos”, afirma ele.
“As pessoas estão publicando em espaços próprios nas mídias sociais”, diz o escritor Marco Vasques, que acompanha de perto a produção literária e teatral em Florianópolis.
Dennis Radünz, já um veterano na flor de seus 52 anos, circula como um guru nesse meio – Foto: Instagram/Reprodução/NDEle chama a atenção para as pequenas editoras, que “cumprem um papel muito importante, pois acabam atraindo autores que as grandes editoras, por questões de mercado, jamais olhariam”. Não é de hoje que a publicação em livro já não é mais o principal meio para difundir a literatura.
Outros recursos são os coletivos, as revistas e jornais literários e a publicação em sites dos próprios escritores. Vasques cita o Mulherio das Letras, que está lançando livro e jornal de poesia, o Slam Cruz e Sousa, que reúne jovens poetas, o projeto Página Sonora, do Sesc-SC, que faz leituras de autores catarinenses de todas as gerações e gêneros, as revistas “Gulliver” e “Texturas” e o “Caixa de Pont[o] – Jornal Brasileiro de Teatro”, que vem publicando a dramaturgia de novos nomes do gênero em Santa Catarina.
No teatro, que é a sua praia, Vasques acompanha de perto a produção de Paulo Ramon, Luan Renato Telles, Leandro Batz e Jucca Rodrigues.
Os caminhos dos jovens para levar as obras ao público
Dennis Radünz lista uma série de mulheres escritoras que vêm publicando e criando mecanismos para divulgar o trabalho próprio e o alheio.
Entre as novas vozes de peso aparecem Clarice Fortunato, Luciana Tiscoski, Telma Scherer e Patrícia Galleli, que se juntam a nomes como Marcelo Labes, Valdemir Klamt e Demétrio Panarotto, muito ativos — e ativas — não só como autores, mas como mentores de eventos e projetos, incluindo festivais e prêmios literários.
O fato é que, mesmo atuando na surdina, há muitos jovens escrevendo na cidade – Foto: iStock/Divulgação/NDMas há outros fatores que contribuem para difundir a produção dos novos, como diz Radünz, que comanda a editora Nave e tem nove livros publicados:
“Aqui há editoras com curadoria, como ‘Cultura e Barbárie’, de Marina Moros, a plataforma Parêntesis, de Regina Melin, novas livrarias como a Latinas, de Santo Antônio de Lisboa, e a Letraria, do Rio Tavares, e o trabalho de literatura e educação nas periferias, que é o Experimentextos, orientado pela professora Eleonora Frenkel, além das pesquisas de literatura para infância do grupo Literalise/UFSC e do Prêmio Sesc Criança para novos autores de literatura infantil”.
Radünz também destaca novas revistas, jornais, festivais, os “slams” que são feitos principalmente nas ruas do centro histórico de Florianópolis e a presença em cena da poeta Josely Vianna Baptista, “uma das maiores tradutoras de literatura do Brasil”.
Além disso, há o trabalho editorial realizado por Cleber Teixeira (1938-2013) e da mítica editora Noa Noa, que continua vivo em novas pesquisas e publicações. Tudo isso, aliado às pesquisas da pós-graduação em literatura da UFSC, que são referência nacional, deixa o ambiente literário local “à altura de João da Cruz e Sousa”, segundo Radünz.
Pessoas que fazem são as mesmas que consomem literatura
Nascido no interior de São Paulo e radicado em Florianópolis, onde trabalha e escreve, Paulino Júnior, 45 anos, fala de um fenômeno que não é exclusivo da cidade — as pessoas que fazem são, quase sempre, as mesmas que consomem literatura.
Ele costuma dizer que há mais escritores do que leitores e mais editoras do que escritores. E, embora seja mais fácil hoje editar um livro do que no passado, muitos jovens publicam de maneira independente. Quando optam pelo caminho tradicional, os autores usam as redes sociais, fazem lançamentos em cidades diferentes e procuram deixar a obra em livrarias que respeitem o livro e o autor.
Outra alternativa é o autofinanciamento. Todas as editoras, mesmo as independentes, oferecem seus serviços de editoração e divulgação a partir de diferentes formas de parceria, sempre envolvendo algum custo para o autor.
“O lado positivo é o de que há bons profissionais no meio que podem auxiliar o autor a pensar sobre seu texto, fazendo um trabalho cuidadoso de produção e pensando no objeto livro enquanto representativo ao teor da obra”, diz Paulino Júnior.
Ele também fala nas revistas digitais e nos sites de arte e cultura, quando são espaços democráticos para divulgar produções e resenhas de autores novos ou fora do circuito comercial.
Há editoras de alto nível na cidade, algumas oscilando entre o comercial e o independente. – Foto: Pexels/Ilustrativa/Reprodução/NDPara ele, comprovam a efervescência da cena literária local iniciativas como o sarau físico e eletrônico Quinta Maldita, capitaneado pelo ativista cultural e artista Demétrio Panarotto, que também está à frente do festival Pipa (Pela Ilha Palavra Amplificada), junto com a poeta Juliana Bem. Além disso, há o tradicional Concurso Literário do Sinergia, que tem como um de seus idealizadores o poeta Dinovaldo Gilioli, e mais recentemente a revista “Texturas”, de Cynthia Silva.
Há editoras de alto nível na cidade, algumas oscilando entre o comercial e o independente. A Insular e a Bernúncia são tradicionais, mas a Nave, a Redoma e a Cruz e Sousa abrem bons espaços para a nova geração. Dennis Radünz destaca ainda o “Jornal de Poesia”, editado por Pétula Rodrigues, que também responde pela livraria Latinas e trabalha na Livros & Livros.
Jovem que estreou em 2021, Luciana Tiskoski mantém o coletivo de escritoras Abrasabarca. E Eliane Debus, professora da UFSC, é uma destacada pesquisadora do grupo Literalise. Já Clarice Fortunato é referência na pesquisa da literatura negra, e Eleonora Frenkel, também professora universitária, coordena estudos de educação e literatura nas periferias.
A esperança está nas escolas
Um lugar que todos elogiam é o sebo Desterrados, no criado em 2018 no Centro da Capital, que dá muita atenção aos autores locais, promove lançamentos de livros e realiza exposições de artistas da cidade.
A Caiaponte é uma editora independente que abre espaço para autores que não conseguem bancar a impressão de suas obras e ostenta o Prêmio são Paulo de Literatura na categoria romance conferido em 2020 ao livro “Paraízo-Paraguay”, de Marcelo Labes, que também faturou, em ano antes, o segundo lugar do Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional.
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As revistas emergem como uma alternativa para a publicação de textos inéditos, mas enfrentam os limites impostos pelas afinidades estéticas, políticas e éticas de determinados grupos, na visão de Marco Vasques, que atua como crítico de teatro e é membro da International Association of Theatre Critics.
Sem investimentos “numa educação que olhe para a arte e para a cultura como algo inerente à vida”, os avanços serão muito lentos, se existirem.
Em Santa Catarina, muitas livrarias e várias editoras fecharam as portas nos últimos anos, forçando os autores a buscarem os coletivos e editais de cultura para sair do limbo.
O termômetro usado por Paulino Júnior são as escolas onde ele faz leituras e palestras, sempre com grande participação e interesse dos alunos.
O termômetro usado por Paulino Júnior são as escolas onde ele faz leituras e palestras – Foto: Matheus Nunes/Divulgação/its Teens“Muitos estudantes já se expressam pela escrita e estão ávidos para desenvolverem mais essa expressão”, relata. Autor de “Todo maldito santo dia” e “Ópera do Tripalium”, ele ressalta alguns colegas de pena como Jhonatan Carraro, Zé Amorim, Cláudio Dutra, Cátia Cernov, Giovanni Baffô, Fábio Lisboa, André Berté, Elisa Tonon, Rafael Reginatto, Luciana Tiskoski e Marina Coelho.
Na ausência de um programa ou política pública que encurte o caminho entre o leitor em potencial e os escritores, Paulino afirma que “o professor é uma ponte inestimável para chegarmos ao público de jovens”.