Produção literária dos jovens é muito promissora, diz escritora de Florianópolis

Luciana Tiscoski, escritora e jornalista, fala da produção de jovens autores da Capital de Santa Catarina

Foto de Paulo Clóvis Schmitz

Paulo Clóvis Schmitz Florianópolis

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Uma das muitas vozes da nova literatura produzida em Florianópolis é a escritora e jornalista Luciana Tiscoski. Ela tem mestrado e doutorado em Literatura pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), com estágio em doutorado na Université Paris X — Nanterre, na França, e pós-doutorado em Artes Visuais na linha História, Teoria e Crítica pela Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina).

É colaboradora assídua do jornal “Rascunho”, de Curitiba. Publicou contos, poemas, ensaios, resenhas e artigos em revistas eletrônicas e impressas e em livros e periódicos acadêmicos.

Luciana Tiscoski é jornalista e escritora – Foto: Luciana Tiscoski/Arquivo Pessoal/Cedido/NDLuciana Tiscoski é jornalista e escritora – Foto: Luciana Tiscoski/Arquivo Pessoal/Cedido/ND

Com o coletivo de poetas mulheres Abrasabarca, participa dos livros “Abrasabarca”, lançado em 2018 pela editora Medusa, e “Revoluta”, de 2019, pela Caiaponte Edições. Lançou o conto “Uma menina gorda”, pela editora Butecanis, e “Área de broca”, pela editora Nave, livro de contos semifinalista do Prêmio Oceanos 2022.

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Nesta entrevista, Luciana fala da produção da nova geração de autores de Florianópolis, das dificuldades para fazer esse trabalho circular e das alternativas encontradas pelos jovens para conquistar leitores num cenário de pouco apoio à difusão da arte e da literatura em Santa Catarina.

Luciana Tiscoski, escritora e jornalista, fala da produção de jovens autores da Capital de Santa Catarina – Foto: Pexels/Ilustrativa/Reprodução/NDLuciana Tiscoski, escritora e jornalista, fala da produção de jovens autores da Capital de Santa Catarina – Foto: Pexels/Ilustrativa/Reprodução/ND

Como vê a produção dos jovens escritores de Florianópolis e de que forma eles/elas fazem o seu trabalho circular?

Luciana Tiskoski — A produção literária hoje na ilha do Desterro é muito promissora e estimulante. Temos pessoas produzindo literatura de qualidade em diferentes gêneros e estilos, e há trocas e circulação em vários níveis, de saraus e slams a festivais e feiras que vêm tomando tamanho e relevância nos últimos anos. Isso sem falar das editoras independentes, com excelentes catálogos, e de contarmos com um curso de graduação e pós-graduação de Letras e Literatura na UFSC que é, sem dúvidas, um dos melhores do país.

Mas, mesmo com toda essa efervescência, a circulação ainda é insuficiente, principalmente se pensarmos na projeção ao nível nacional.

A cena tem propiciado que os autores e autoras tenham conhecimento do que é produzido no Estado, graças a eventos como o Festival Literário de Itajaí, a Feira do Livro de Jaraguá do Sul, a Festa Literária Júlia Nascimento, de Laguna, o Festival Internacional de Literatura de Pomerode e o Pipa (Pela Ilha Palavra Amplificada), festival comandado por Demétrio Panarotto.

No entanto, o público é tímido, ainda não comparece em volume considerável, não lê os escritores e escritoras que formam a atual cena literária.

Qual é perfil do público atingido por esses autores da nova geração?

Luciana — É difícil pensar num perfil de público porque não temos conhecimento de um público leitor com volume significativo e carecemos de jornalismo crítico e literário que dê conta de medir a qualidade e quantidade dessa leitura.

É muito importante que aconteçam iniciativas como esta entrevista, para termos um espaço para falar sobre leitura. A impressão que tenho é de que lemos uns aos outros, umas às outras, numa retroalimentação.

jovensEscritora comenta sobre o perfil dos leitores em Florianópolis – Foto: Freepik/ND

Ou seja, parece que nossos leitores e leitoras são os mesmos já envolvidos na cena, como editoras, escritores, curadores e demais agentes da cultura que lutam, em sua maioria, sem recursos públicos, para manter viva a produção artística em Santa Catarina.

Como se dá a mudança do sistema convencional das editoras comerciais para as editoras pequenas, caseiras e artesanais?

Luciana — Eu não sei se, localmente, houve essa mudança. Desde que cheguei de volta à Ilha como pesquisadora de literatura e escritora, vejo as pequenas editoras empregando esforços gigantescos para fazerem circular uma produção de peso, que faria bonito em todo o Brasil, caso conseguissem competir com o poder de divulgação, distribuição e circulação das grandes editoras do país, que talvez representem o que você chama de sistema convencional de editoras comerciais.

O que vem acontecendo nos últimos tempos é que muitas publicações de pequenas editoras aparecem como finalistas ou premiadas nos grandes prêmios literários do país, e isso talvez mude um pouco o cenário, ao menos em termos de visibilidade.

Os coletivos, os jornais de poesia, o livro eletrônico, o autofinanciamento e os editais de cultura auxiliam os jovens autores?

Em meio a tantas opções, leitores ainda são adeptos do formato impresso, mas o e-book e o audiobook já fazem parte do dia a dia. Foto: Leo Munhoz/NDEm meio a tantas opções, leitores ainda são adeptos do formato impresso, mas o e-book e o audiobook já fazem parte do dia a dia. Foto: Leo Munhoz/ND

Luciana — Os editais de cultura ainda são bem poucos em Santa Catarina e, infelizmente, a literatura não recebe recursos suficientes quando contemplada nos editais de fomento. Publicar um livro é caro, fazê-lo circular demanda tempo, trabalho, logística e dinheiro.

E, sim, o autofinanciamento é uma saída para quem pode arcar com esse custo. O e-book também pode representar um caminho, mas, da mesma maneira, necessita de circulação e visibilidade, precisa ser lido, o livro não se faz sozinho, há que se promover formação de público leitor.

Os jornais de poesia ou outros periódicos literários, normalmente, circulam por pouco tempo, não conseguem se manter sem poder remunerar o trabalho das pessoas de forma a garantir uma produção frequente e de qualidade. Algo que não apareceu aqui como representatividade são as bibliotecas, mas é importante pontuar que há pessoas muito boas trabalhando com a literatura a partir desses locais de difusão da literatura e de formação de leitores.

Temos também, na Ilha, as pequenas livrarias e sebos que estão surgindo com curadoria e com abertura de seus espaços para eventos literários, como saraus e lançamentos de livros. Cito de passagem a livraria Latinas, a livraria da Plataforma Parêntesis e o Sebo Elemental.

Outro fato é o número cada vez maior das mulheres publicando em diferentes plataformas…

Luciana acredita que há mulheres escrevendo e atuando em muitas frentes – Foto: Luciana Tiscoski/Arquivo Pessoal/Cedido/NDLuciana acredita que há mulheres escrevendo e atuando em muitas frentes – Foto: Luciana Tiscoski/Arquivo Pessoal/Cedido/ND

Luciana — Há mulheres escrevendo e atuando em muitas frentes na arte, na cultura e na literatura em Santa Catarina. Temos editoras, produtoras, escritoras, bibliotecárias, jornalistas, professoras e demais trabalhadoras da cultura que se dedicam à construção da cena cultural e artística.

Sei que deixarei importantes nomes de fora, mas irei citar aqui algumas escritoras que me ocorrem de imediato e que são bastante representativas da nossa produção literária atual, como Telma Scherer, Patrícia Galelli e Isadora Krieger.

Como o coletivo Abrasabarca tem se saído na difusão de jovens poetas catarinenses?

Luciana — Aqui aproveito para fazer referência a outros nomes de mulheres escritoras que têm publicado e realizado muito pela difusão da literatura: Elisa Tonon, Juliana Pereira, Juliana Ben, Ibriela Bianca Sevilla e Ana Araújo. No coletivo Abrasabarca, somos escritoras, professoras, revisoras e pesquisadoras que há dez anos nos reunimos, inicialmente com o intuito apenas de ler poesia, até criamos o coletivo.

Da leitura compartilhada surgiu a ideia de expandirmos a experiência e começamos nossas leituras/performances, coletivas e polifônicas, em bares, espaços de cultura, eventos acadêmicos e literários, em que convidamos as pessoas a também compartilharem seus escritos.

Lançamos poemas/perguntas que funcionam como convite e provocação para a escrita de poemas e outros experimentos. Essa proposta de cultivar a troca, o atrito, as faíscas todas, manifesta-se na escrita atravessada das seis integrantes.

E o convite, muitas vezes, proporciona a possibilidade de expressão e partilha de pessoas que nunca antes haviam lido seus textos publicamente. É isso, tentamos promover momentos de partilha.

E nessa difusão e partilha, cito também o escritor Demétrio Panarotto, que com o programa audiovisual Quinta Maldita sempre divulgou nosso trabalho e promoveu encontros e trocas de muita diversidade de vozes literárias, com escritores e escritoras de dentro e de fora do país.