99% de cobertura de esgoto: o que Santa Catarina pode aprender com o Paraná?

Após décadas de investimento, companhia paranaense de saneamento ultrapassa 99% de cobertura de esgoto nas principais cidades enquanto Santa Catarina sofre com falta de coberturas

Jullia Gouveia Florianópolis

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Enquanto Santa Catarina sofre com deficiências históricas no saneamento básico, o estado acima apresenta indicadores impressionantes de cobertura e tratamento de esgoto.

Com 76,2% de cobertura na rede de esgoto, Paraná se torna exemplo a ser seguido por SCCom 76,2% de cobertura na rede de esgoto, Paraná se torna exemplo a ser seguido por SC – Foto: Trata Brasil/Reprodução

Dentre as 25 cidades mais bem colocadas no Ranking do Saneamento elaborado pelo Instituto Trata Brasil, que considera os 100 municípios brasileiros mais populosos, sete são paranaenses.

Maringá (PR), a primeira colocada, tem um índice de 100% de coleta, tratamento e atendimento da população. Na classificação, também estão as cidades paranaenses de Cascavel (9º), Ponta Grossa (10º), Foz do Iguaçu (13º), Londrina (14º), São José dos Pinhais (21º) e a capital, Curitiba (22º).

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A cidade catarinense mais bem colocada é Florianópolis, que está na 55ª posição entre os 100 municípios considerados. De acordo com informações do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento), 76,2% dos moradores do Paraná são atendidos pela coleta de esgoto, em contraste com Santa Catarina, onde apenas 29% da população tem acesso ao serviço.

O Instituto Trata Brasil calcula que, entre 2005 e 2021, o Paraná teve cerca de R$ 45 milhões de gastos com o saneamento, sendo R$ 28,6 milhões de investimento público e R$ 16,8 milhões das tarifas pagas pelo serviço.

Esse montante resultou em mais de R$ 82 milhões em benefícios para o estado, reduzindo custos hospitalares, aumentando a produtividade no trabalho, a valorização imobiliária e o turismo, além de geração de empregos.

No total, em 16 anos, o estado teve um lucro de pelo menos R$ 37 milhões com o avanço do esgotamento sanitário, sem contar os benefícios para a qualidade de vida da população.

A companhia responsável pelos serviços de água e esgoto em 344 dos 399 municípios paranaenses é a Sanepar (Companhia de Saneamento do Paraná), criada em 1963 pelo então governador Ney Braga.

Sanepar atende 345 de 399 cidades do ParanáSanepar atende 345 de 399 cidades do Paraná – Foto: DIVULGAÇÃO/SANEPAR/ND

À época, apenas 8% da população do estado vizinho tinha acesso à rede de água potável e 4,1% era atendida pela rede de esgoto.

Anos depois, em 1980, as estatísticas da Região Metropolitana de Curitiba eram de 64,4% dos moradores com abastecimento de água e 38,98% com ligação à rede de esgoto.

Hoje, com dados do SNIS, 99,98% dos 1,77 milhão de habitantes de Curitiba são atendidos pela rede de água e esgoto.

Para Luana Pretto, presidente executiva do Trata Brasil, o bom desempenho do estado se deve à busca de soluções que funcionem a longo prazo:

“O resultado do Paraná vem da priorização e de investimentos no saneamento básico ao longo dos últimos 30 anos, e agora o estado está colhendo esses frutos.”

Um dos principais indicadores da melhora no saneamento básico é o investimento por habitante. A recomendação do PLANSAB (Plano Nacional de Saneamento Básico) é que, para atingir a universalização do acesso ao saneamento, os municípios dediquem, pelo menos, R$ 231,90 ao saneamento por habitante.

Entre os municípios com melhor saneamento do Brasil, Maringá é o que menos gasta atualmente, com apenas R$ 57,21 por morador – já que os investimentos feitos há décadas garantem, hoje, um acesso universal ao saneamento com baixo custo.

No período de 2018 a 2022, a média de investimentos em saneamento por habitantes em Florianópolis foi de R$ 192,82, abaixo da meta para a universalização.

Ainda assim, houve um crescimento expressivo: o valor total do investimento do município era de R$ 68,94 milhões em 2018 e foi para R$ 197,37 milhões em 2022. Com o valor corrigido pela inflação, o investimento teve um aumento real de 64%.

Esgoto gera renda e estimula inovação no Paraná

Segundo Luana Pretto, o Paraná é um exemplo a ser seguido por outros estados quando o assunto é saneamento.

“Mesmo tendo indicadores extremamente bons, eles continuam investindo. A Sanepar já fez uma parceria público-privada e tem mais três editais publicados para buscar acelerar ainda mais a universalização,” explica.

A companhia destaca o esforço para controlar as perdas no sistema de abastecimento de água: “Temos usado novas tecnologias, com inteligência artificial e machine learning, para identificar vazamentos invisíveis na rede de distribuição de água.”

Além disso, existem iniciativas para reaproveitar os subprodutos do esgoto, como lodo e biogás, em biofertilizantes, adubo, hidrogênio renovável e geração de energia renovável.

Em 2016, a ONU (Organização das Nações Unidas) recomendou o projeto de reutilização do lodo no meio agrícola desenvolvido pela companhia paranaense como exemplo mundial de sustentabilidade.

Meta do governo é 75% de cobertura em Florianópolis até fim do ano

Em julho de 2024, o governador de Santa Catarina Jorginho Mello (PL) investiu R$ 526 milhões na Casan (Companhia Catarinense de Águas e Saneamento) para melhorar a coleta e tratamento de esgoto na região da Grande Florianópolis.

A meta é que a região metropolitana avance de 58% para 75% de cobertura sanitária até o final de 2024.

No final de fevereiro deste ano, foi entregue uma das principais obras do pacote, a ampliação da Estação de Tratamento de Esgoto de Ingleses, no Norte da Ilha.

A CASAN também está implementando novos sistemas de esgotamento sanitário em quatro municípios: Águas Mornas (41% de cobertura), Antônio Carlos (50% de cobertura), Biguaçu (29% de cobertura) e Garopaba (5% de cobertura).