Acif busca soluções para salvar a Lagoa da Conceição

Estudo encomendado pela associação aponta sugestões práticas e exequíveis para salvar a região, além de prever a adoção de um modelo de crescimento sustentável envolvendo empreendimentos e a população

Patrícia Peron, ESPECIAL PARA O ND Florianópolis

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Cartão postal, refúgio ambiental e uma das regiões com maior potencial turístico e econômico de Florianópolis, a Lagoa da Conceição sofre há décadas com problemas acarretados pelo aumento populacional do bairro, que acompanha o crescimento da Capital, com a ocupação desordenada e ilegal. Nos últimos dez anos, a população da cidade aumentou 20% e já ultrapassa meio milhão de pessoas.

Outro fator que acelerou a degradação ambiental na lagoa, principalmente nos últimos anos, são as ligações irregulares de esgoto despejados na água ou na rede de drenagem pluvial, apesar do sistema de saneamento implantado pela Casan, que atende parte do bairro.

Lagoa da Conceição sofre há décadas com o aumento populacional do bairro – Foto: Leo Munhoz/NDLagoa da Conceição sofre há décadas com o aumento populacional do bairro – Foto: Leo Munhoz/ND

“Mesmo assim, vários proprietários de imóveis insistem em não fazer a ligação correta. Hoje todo mundo é ambientalista, defende a natureza, mas poucas pessoas são capazes de fazer uma checagem do seu sistema de tratamento de efluentes, chamar a Vigilância Sanitária, fazer um teste em casa. Neste nível de ambientalismo, quase ninguém chega. Essa é a crítica e o questionamento que faço hoje“, aponta o biólogo Emerilson Emerim.

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Em meio a esse cenário, de assoreamento e descaso ambiental, a lagoa ainda sofreu, em janeiro deste ano, o maior desastre ambiental já registrado na cidade, quando o rompimento de reservatório de esgoto tratado da Casan lançou na água grande quantidade de matéria orgânica. O acidente provocou drástica redução dos níveis de oxigênio na água.

Plano para a recuperação em quatro eixos

O rompimento foi o fator decisivo para que a Acif (Associação Empresarial de Florianópolis) encomendasse à Acqualis Engenharia estudo técnico com um plano de recuperação ambiental da Lagoa da Conceição.

O projeto prevê a recuperação em quatro eixos:

  • Gestão ambiental: envolve a fiscalização e ações educativas para evitar ligações irregulares de esgoto.
  • Melhoria da infraestrutura do sistema de esgotamento sanitário.
  • Intervenções diretas no corpo hídrico: obras que incluem a manutenção do canal da Barra e o aumento do vão da avenida das Rendeiras.
  • Investimento em pesquisa e tecnologia.

As alternativas foram distribuídas em quatro grandes grupos de ação, onde a gestão ambiental começa por fiscalização de ligações irregulares e do próprio sistema de esgotamento sanitário. Prevê ainda monitoramento contínuo da água, com coleta de amostras em diferentes pontos.

O levantamento alerta e aponta que é preciso fazer algo, com urgência, para conter a degradação dos parâmetros de qualidade da água e evitar um dos riscos que ameaçam qualquer corpo hídrico, que é seu desaparecimento – especialmente no caso de uma laguna costeira estrangulada e submetida a pressões antrópicas.

Fiscalização de ligações irregulares e do próprio sistema de esgotamento sanitário é uma das medidas necessárias – Foto: Leo Munhoz/NDFiscalização de ligações irregulares e do próprio sistema de esgotamento sanitário é uma das medidas necessárias – Foto: Leo Munhoz/ND

Frase:

“O desastre acelerou nossa intenção de realizar este estudo, pois já tínhamos consciência da situação e da necessidade de fazer a manutenção da lagoa, que tem a tendência natural de se deteriorar e assorear.”

Rodrigo Rossoni, presidente da Acif

Critérios técnicos para o desenvolvimento

De acordo com a Acif, o documento traz informações técnicas, dados e fatos dos problemas enfrentados pela Lagoa da Conceição, assim como possíveis soluções para cada um deles. “O desastre acelerou nossa intenção de realizar este estudo, pois já tínhamos consciência da situação e da necessidade de fazer a manutenção da lagoa, que tem a tendência natural de se deteriorar e assorear. E como fazer isso? Não adiantava ficarmos em opiniões vazias, apenas ter conhecimento. Assim, avaliamos que o melhor a fazer era um levantamento com critérios técnicos sobre as necessidades da lagoa, junto aos moradores, associações locais e poder público, trazendo luz ao debate”, afirma o presidente da Acif, Rodrigo Rossoni.

Ele destaca que, a curto prazo, uma solução efetiva seria a manutenção do Canal da Barra. Retirar detritos, areia e outros materiais que assoream o local e a ampliação da lagoa pequena já trariam bons resultados. Outra questão importante a ser resolvida é o fim das construções irregulares e as ligações de esgoto despejadas na rede pluvial.

“Entregamos esse levantamento para que a Prefeitura de Florianópolis possa avançar. Temos constantemente conversado em busca de soluções. Também temos um plano de desenvolvimento regional importante para estimular as empresas e a sociedade. A Lagoa é um dos nossos maiores ativos ambientais, econômicos, turísticos e sociais. Uma região com a possibilidade de produzir bons frutos, com inclusão social. É a identidade da nossa gente. A cidade toda tem grande carinho pelo local e queremos que a região tenha vida e desenvolvimento sustentável”, acrescenta Rossoni.

Prefeitura analisa estudo

A Prefeitura está analisando as soluções apontadas pelo estudo da Acif, para verificar que ações serão concretizadas. “Recebemos este estudo como um verdadeiro presente. O levantamento foi realizado desde março deste ano e apresentado em junho. Todos os pontos citados serão avaliados e vamos verificar, sempre em conjunto com a população, quais serão realizados”, explica Beatriz Campos Kowalski, superintendente da Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente) de Florianópolis.

Segundo Beatriz, o estudo é grande ponto de partida. “Tudo o que fizermos será estruturado por meio de estudos específicos e aprofundados sobre cada área, debatido com a comunidade e autorizado pelas autoridades”, explica.

A Floram, acrescenta ela, analisa que uma das prioridades no momento é conscientizar a população para que não haja mais lançamento irregular de esgoto na lagoa. Beatriz antecipa que a Casan está instalando um tratamento terciário de esgoto, que vai melhorar a qualidade dos efluentes direcionados à lagoa.

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