Aliança global pelo fim do carvão na produção de energia coloca SC no centro da COP26

Possibilidade de fechamento da termelétrica que compra quase toda produção estadual gerou alerta de crise social, econômica e prejuízo à recuperação ambiental; política pública quer transição do setor

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Há um assunto que coloca Santa Catarina em posição central nos debates na COP26, a Cúpula do Clima, em Glasgow, na Escócia: o pacto global pelo fim da exploração do carvão mineral para produção de energia elétrica.

Arte sobre foto da termelétrica Jorge Lacerda – Arte Altair Magagnin/NDArte sobre foto da termelétrica Jorge Lacerda – Arte Altair Magagnin/ND

No Estado, o setor movimenta R$ 6 bilhões por ano na economia e responde por pelo menos 20 mil empregos diretos e indiretos em municípios das regiões de Criciúma e Tubarão, no Sul.

Aquele que já foi o Ouro Negro catarinense, hoje é o vilão global. No âmbito local, há um cenário é complexo.

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No fim de 2020, com o anúncio da possibilidade de fechamento do complexo termelétrico Jorge Lacerda – que compra quase 100% do mineral extraído na Região Carbonífera – houve pânico e mobilização de lideranças. O alívio só veio no fim de agosto, com a confirmação da venda da usina e manutenção das atividades.

“Sempre defendemos que a matriz energética precisa ter um caminho de sustentabilidade, mas uma ruptura traria um ônus ainda maior, ambiental e social. Só vamos conseguir fazer essa transição de forma justa com a continuidade da operação da Jorge Lacerda”, afirmou o governador Carlos Moisés (sem partido), em ato quarta-feira passada (27).

A pauta que Santa Catarina levará à COP26 deve ser anunciada ainda nesta quinta-feira (4). Moisés viaja sábado para a Escócia.

Nova política estadual prepara a transição para fim do carvão

O governo do Estado e a Assembleia Legislativa estão procurando alternativas para o setor. A principal delas é o PL 270.0/2021 que cria a Política Estadual e o Polo de Transição Energética Justa do Sul do Estado.

Em mais de 120 páginas, o documento apresenta novos rumos para o desenvolvimento sustentável – social, econômico e ambiental – para os municípios da Região Carbonífera.

O objetivo do projeto de lei é iniciar o processo de mudança e impulsionamento da economia de emissão de baixo carbono, de forma isonômica, e que garanta a inclusão socioeconômica das regiões ligadas à cadeia produtiva do carvão.

O plano abrange um conjunto de ações e estratégias coordenadas e integradas de todos os segmentos da sociedade impactados pela mudança de um modelo de desenvolvimento econômico, com foco em resultados produtivos, sustentáveis, e a geração de empregos que assegurem qualidade de vida às pessoas.

Previsibilidade

Para o presidente da Associação Brasileira de Carvão Mineral, Fernando Zancan, este projeto vai criar as bases para uma transição que leve em consideração todos os aspectos econômicos, sociais e ambientais.

“É um projeto moderno, que vem dar segurança e continuidade para a economia do Sul de Santa Catarina. É um passo que precisamos efetivar para ter tranquilidade e previsibilidade para o futuro”, disse Zancan.

Em andamento

Na Assembleia, a proposta recebeu parecer favorável do relator na Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público, o deputado estadual Julio Garcia (PSD), liderança política mais influente do Sul catarinense no Legislativo.

O parecer foi proferido nessa quarta-feira (3) e, logo em seguida, a tramitação foi suspensa por duas semanas. O deputado Sargento Lima (PL) pediu vistas em gabinete para estudar o teor da matéria.

Venda de termelétrica por R$ 325 mi garante sobrevida ao setor

O alerta sobre a drástica crise que poderia se abater sobre a Região Carbonífera foi disparado no fim de 2020, com a notícia de que a Engie Brasil teria decidido encerrar as atividades no Complexo Termelétrico Jorge Lacerda, em Capivari de Baixo.

A diretriz veio da matriz da Engie, na França, para encerrar a produção global de energia a carvão.

“O processo gradual de descarbonização do portfólio da Engie no Brasil está alinhado à estratégia global de acelerar a transição para uma economia neutra em carbono, direcionando investimentos para geração renovável e infraestrutura”, afirmou o CEO da Engie no Brasil, Maurício Bähr, na época.

Diante da mobilização política, econômica e social – que articulou inclusive a política pública estadual que está em tramitação – foi encaminhada uma negociação.

A Diamante Geração de Energia comprou a termelétrica da Engie Brasil Energia por R$ 325 milhões. A aquisição faz parte de um pacote de R$ 3 bilhões em investimentos da Diamante em Santa Catarina.

Há planos, inclusive, para expandir a operação e agregar novas fontes para a geração de energia.

Em evento público realizado na quarta-feira passada (27), a empresa anunciou que o objetivo é gerar energia não apenas a partir do carvão mineral, mas também a partir do gás, com a instalação de duas novas turbinas e modernização das caldeiras.

“Com este ato, a gente afasta de vez o fantasma do descomissionamento e mantém uma cadeia produtiva que gera 20 mil empregos diretos e indiretos. Vamos fazer a modernização do parque e estamos terminando os estudos para fazer uma expansão dentro do complexo, para operar também a partir do gás natural, como parte de uma uma transição energética”, antecipou o presidente do Conselho da Diamante Geração de Energia, Jorge Nemr.

No mesmo evento, o diretor-presidente da Engie Brasil, Eduardo Sattamini, afirmou que o desfecho foi positivo para as partes.

“A venda do Complexo Termelétrico Jorge Lacerda possibilitará uma transição gradual para a economia da região Sul de Santa Catarina, reduzindo potenciais impactos socioeconômicos locais quando comparada a um processo de descontinuidade das operações”, afirmou.

Na COP26, aliança internacional decreta fim da energia a partir do mineral

Uma aliança internacional para eliminar progressivamente o carvão das políticas energéticas dos países foi firmada nesta quinta-feira (4) na COP26, a Cúpula do Clima em Glasgow, na Escócia. O carvão mineral gerou cerca de 37% da energia elétrica em todo o mundo no ano de 2019.

O secretário de Estado britânico para a Energia e Negócios, Kwasi Kwarteng, chegou a afirmar que o fim do carvão está à vista. “O mundo avança na direção certa, pronto para selar o destino do carvão e abraçar os benefícios ambientais e econômicos de construir um futuro alimentado a energia limpa”, destacou o secretário a veículos internacionais.

Os signatários da aliança internacional comprometeram-se a barrar todos os investimentos – internos ou externos – em políticas energéticas assentadas no carvão.

As lideranças também chegaram a acordo para recuar progressivamente na utilização desse recurso na década, com início em 2030 para as maiores economias mundiais, e a partir de 2040, para os países menos desenvolvidos.

Margem de manobra

O gesto dos países é importante, mas ainda mantém lacunas abertas. A China, os Estados Unidos e a Austrália ficaram de fora do compromisso anunciado.

Juan Pablo Osornio, à frente da delegação da organização ambientalista Greepeace na COP26, advertiu que o texto do compromisso “continua muito aquém da ambição que é necessária quanto aos combustíveis fósseis nesta década crítica”.

“As letras pequenas [do acordo de aliança] parecem dar aos países uma enorme margem de manobra para escolher o seu próprio calendário, apesar do cabeçalho luminoso”, acrescentou.