Após deixar praia de Florianópolis ‘suja’, barreira impede que rio do Brás despeje água no mar

Biólogo criticou ação do poder público municipal e diz que saída pode trazer problemas para além da vida marinha, causando alagamentos em caso de mais chuva

Daniel Hugen Florianópolis

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Depois da força da água das chuvas reabrir a foz do rio do Brás para o mar de Canasvieiras, uma nova barreira foi feita nesta segunda-feira (5) pela Prefeitura de Florianópolis. O objetivo, de acordo com o poder público, é manter a segurança dos moradores. Na quinta-feira (1º), o rio transbordou e deixou a praia do Norte da Ilha com aparência suja e cheia de plantas.

Sujeira ficou na beira da praia de Canasvieiras – Vídeo: Divulgação/ND

Inicialmente, no dia do incidente, a prefeitura informou que não iria intervir na foz do rio. “O município não mexe na foz do rio do Brás, esse é um processo que acontece de maneira natural, sem intervenção”, disse o comunicado do município.

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Mas, na manhã desta segunda-feira (5), moradores foram surpreendidos ao chegarem na praia e encontrarem maquinário preparado para colocar uma nova barreira no local.

“A intervenção foi realizada em estado de urgência pelo município em decorrência das orientações da Defesa Civil e da Secretaria de Segurança Pública. A ação foi realizada com o objetivo de diminuir os impactos no local por conta das fortes chuvas ocorridas nos últimos dias e para manter a segurança da população”, disse o informativo municipal.

Foz do rio do Brás foi fechada nesta segunda-feira (5) – Foto: Divulgação/NDFoz do rio do Brás foi fechada nesta segunda-feira (5) – Foto: Divulgação/ND

O biólogo e professor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) Paulo Horta acompanha a situação do rio há anos e critica a ação.

“Toda vez que fecha um rio artificialmente, temos que entender que tem dinâmicas naturais, você está deslocando essa água para outros lugares. Num cenário de chuva e risco, pode interferir no interior do bairro, com riscos de alagamentos. Toda vez que fecha, a gente perpetua uma crise ecológica e ambiental”, comentou Horta.

A falta de oxigenação no rio têm causado uma série de problemas para os animais. Macrófitas surgem e deixam o rio parecendo um tapete verde. Essas plantas surgiram na beira da praia após o rio transbordar e deixaram a praia com pontos de sujeira, que já foram removidos.

Proliferação de macrófitas transformaram o rio do Brás em um tapete verde – Foto: Leo Munhoz/NDProliferação de macrófitas transformaram o rio do Brás em um tapete verde – Foto: Leo Munhoz/ND

Água do rio é poluída, afirmam medições

De acordo com Paulo Horta, análises feitas antes das chuvas apresentaram resultados preocupantes quanto a presença de efluentes não tratados para o rio do Brás. As análises constataram que têm esgoto residencial sendo lançado diretamente na água. Horta acredita que o fechamento se dá em razão da temporada de verão que se aproxima, para garantir a balneabilidade do espaço.

“A gente entende que o fechamento está ligado com a balneabilidade da praia, o que ocasiona também perda de geração de renda. Mas precisamos entender efetivamente que o problema do rio do Brás não se resolve fechando, e sim fazendo saneamento básico. É uma decisão que a gente entende, mas como biólogo não posso aceitar”, finalizou horta.

Coloração da água do rio, flagrada na quinta-feira (1º), era escura, mas não impedia a passagem de pessoas – Foto: Leo Munhoz/NDColoração da água do rio, flagrada na quinta-feira (1º), era escura, mas não impedia a passagem de pessoas – Foto: Leo Munhoz/ND

No último relatório de balneabilidade divulgado pelo IMA-SC, a praia de Canasvieiras tinha dois pontos impróprios para o banho, mas distantes da foz do rio. O monitoramento neste local apontou o ponto como próprio para banho. A análise foi feita em 29 de novembro, portanto, antes das chuvas e do canal reabrir.

O fechamento causou polêmica também em 2016. Na época também foi a Prefeitura responsável pela obstrução, sendo alvo de ação do MPF(Ministério Público Federal). Na época, a medida foi considerada paliativa, e viria para resolver a poluição da praia de Canasvieiras, que estava com os oito pontos monitorados impróprios para o banho.

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