Pesquisadores da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) emitiram, nesta quinta-feira (25), uma nota técnica em que apontam a expansão da chamada “zona morta” no Norte da Lagoa da Conceição, em Florianópolis. Com a aparição de dezenas de peixes mortos nos últimos dias, a região do Saquinho registra baixíssimo nível de oxigênio na água.
Lagoa da Conceição tem expansão de “zona morta”, afirmam pesquisadores da UFSC – Foto: Leo Munhoz/NDA mortandade de organismos e o cheiro de água podre são denunciados exatamente após um mês do rompimento da estrutura de tratamento de esgoto da Casan. Os pesquisadores relacionam o fenômeno ao desastre do dia 25 de janeiro.
A companhia afirma que a nota técnica emitida pela UFSC imputa sobre a CASAN “a responsabilidade pela mortandade de peixes ocorrida na região da Costa da Lagoa no dia 22/02/2021 “e “omite de forma intencional o fato que é de conhecimento público — inclusive do Grupo ND — que foi a drenagem das águas acumuladas no Parque do Rio Vermelho em direção à região afetada, e que não foi realizada pela Casan”. A nota na íntegra está no final desta reportagem.
SeguirOs signatários do texto, entre eles o Projeto Ecoando Sustentabilidade e laboratórios da universidade, afirmam que “[a morte de peixes] está relacionada com um cenário complexo que envolve, inclusive, o deságue de efluentes da lagoa de evapoinfiltração”.
Conforme os pesquisadores, “até o momento existem duas hipóteses complementares: aceleração do processo de eutrofização do sistema com floração de algas; e a expansão da zona morta, área com baixíssimas concentrações de oxigênio”.
Relatos, fotos e vídeos da região da Costa da Lagoa que mostram águas e escumas de coloração marrom são recebidos pelos pesquisadores desde o dia 16 de fevereiro. Ao analisar essas imagens, os cientistas apontam que a tese de “ocorrência de uma floração da alga potencialmente produtora de toxinas, a fibrocapsa japonica” é reforçada.
Essa alga teria a capacidade de causar danos aos organismos aquáticos, entre eles, “a liberação de muco irritante, que causa inflamação e perda da funcionalidade de trocas gasosas nas brânquias dos animais, a produção de componentes neurotóxicos e a grande quantidade de biomassa decomposta na água, consumindo oxigênio”.
No entanto, os cientistas reforçam que é possível agir para evitar que mais organismo morram. “Apesar de ter sido observado um avanço do comprometimento da saúde da Lagoa da Conceição, o cenário geral reforça a tese de que ainda há tempo para a remediação dos danos e para uma integral restauração dos produtos e serviços desta laguna de inestimável valor para Florianópolis, para Santa Catarina e para o Brasil”, afirma o texto.
Nesta quarta-feira (24) o IMA (Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina) e a Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente) emitiram uma nota conjunta recomendando que a população evite contato com a água da Lagoa da Conceição. O alerta se estende também ao consumo de pescados na região.
Recomendações dos pesquisadores
O documento aponta algumas recomendações com o objetivo de amenizar os danos ambientais e proteger a saúde de moradores e frequentadores. Entre eles, estão:
- Não-realização de obras de dragagem ou alargamento do Canal da Barra, uma vez que estes podem intensificar a influência marinha sobre a laguna;
- Monitoramento do ecossistema da Lagoa da Conceição;
- Mitigação de danos e restauração ambiental e ecológica. Além disso, há a necessidade de remoção imediata dos animais mortos e da matéria orgânica acumulada nas áreas rasas e superficiais, para evitar o agravamento da crise e problemas de saúde pública;
- Interdição imediata do uso da Lagoa da Conceição para atividades de contato primário, como banho; produção de material de divulgação e de advertência em relação às áreas de risco de algas tóxicas;
- Diagnosticar e tratar os indivíduos afetados por toxinas de algas.
Além do projeto de extensão Ecoando Sustentabilidade, assinam a nota pesquisadoras e pesquisadores do Lafic (Laboratório de Ficologia), Loqui (Laboratório de Oceanografia Química e Biogeoquímica Marinha), LBCM (Laboratório de Biodiversidade e Conservação Marinha), Nemar (Núcleo de Estudos do Mar) e Veleiro Eco.
Posicionamento da Casan
A reportagem entrou em contato com a Casan no início da tarde desta quinta-feira (25). A assessoria da companhia retornou com seu posicionamento no início da noite. Veja a nota na íntegra:
A Companhia Catarinense de Águas e Saneamento vem por meio desta nota manifestar seu repúdio à “Nota Técnica Nº 03” divulgada no dia 25/02/2021 pelo “Projeto Ecoando Sustentabilidade”.
O referido documento apresenta de forma totalmente irresponsável alegações, insinuações e imputação de responsabilidades à CASAN sobre a mortandade de peixes ocorrida na região da Costa da Lagoa no dia 22/02/2021.
A referida Nota, que se intitula técnica, omite de forma intencional o fato que é de conhecimento público – inclusive do Grupo ND – que foi a drenagem das águas acumuladas no Parque do Rio Vermelho em direção à região afetada, e que não foi realizada pela CASAN.
Mesmo reconhecendo “um cenário complexo”, e sem divulgar dados como a biópsia dos organismos para identificação da real causa morte, a Nota insiste em relacionar a mortandade dos peixes com o evento de deslizamento da Lagoa de Evapoinfiltração ocorrido há quase 30 dias.
Tal alegação contrapõe, inclusive, os relatórios de Balneabilidade do Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina-IMA, que tem divulgado já o restabelecimento da condição de balneabilidade na Lagoa da Conceição.
Por fim, reconhecemos a necessidade e a importância da atuação das instituições na busca pela identificação das causas e impactos do evento ocorrido, no entanto, não aceitaremos qualquer insinuação que atente contra a CASAN sem a adequada e devida fundamentação e instrução técnica.