Biogás, privatização e esgoto: Super 17 promove debate crucial para Florianópolis

O Saneamento básico de Florianópolis foi tema do segundo encontro do Super 17, evento promovido pelo Grupo ND que comemora os 17 anos do jornal impresso ND

Foto de Ana Schoeller e Gabriela Ferrarez

Ana Schoeller e Gabriela Ferrarez Florianópolis

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O Super 17, evento do Grupo ND que comemora os 17 anos do Jornal ND de forma colaborativa com a população, realizou o seu segundo encontro nesta quarta-feira (30). No auditório do Square SC, no Norte da Ilha, engenheiros, políticos, autoridades, assinantes e leitores do jornal discutiram um dos temas mais sensíveis de Florianópolis, o saneamento básico.

Evento discute problemas importantes de FlorianópolisEvento discute saneamento de Florianópolis – Foto: Léo Munhoz/ND

Logo na abertura do evento, o prefeito Topázio Neto (PSD), admitiu que Florianópolis tem sim um problema de saneamento básico, mas que soluções são pensadas pelo poder público.

“Florianópolis tem pressa para que a gente encaminhe a solução, os problemas a gente já sabe. Imaginar que em um curto espaço de tempo vamos em comunidades, como a Vila Aparecida, e imaginar que vamos passar uma rede de esgoto em cada uma das casas, vamos levar anos fazendo isso”, fala.

Para o prefeito, em algum momento, será preciso tratar o riacho onde jogam os efluentes até que a haja tempo para melhorar aquele esgoto.

“Se não, ficamos sempre no ciclo vicioso de que não dá tempo. Não podemos deixar que essa situação permaneça”, fala.

Segundo o prefeito Topázio Neto, um programa será feito para regularizar esgotos de casas em Florianópolis. Hoje, apenas 58% da cidade possui um sistema córrego de esgoto, segundo o político, a ideia é aumentar essa taxa. Para isso, o poder público quer ajudar os cidadãos a regularizarem suas ligações e fazer sistemas de forma gratuita para quem mais precisa.

Pedro Joel Horstamnn, Diretor de Operação e Expansão da CASAN, diz que já há prazos para cumprir a meta da regularização do sistema de esgoto na cidade.

“A meta da Casan é que até o final de 2025 a gente consiga cumprir essa meta. Hoje estamos com três obras grandes em Florianópolis para adequação do esgoto”, diz.

“Teremos uma reunião na Casan e definimos estratégias para as obras no Campeche. A ocupação do bairro se deu de maneira ampla. Na minha opinião, o Campeche é hoje o atraso da cidade no quesito saneamento. Temos que juntos construir o que for melhor para a cidade”, complementa Edson Moritz Martins da Silva, Presidente da CASAN.

Para debater a situação, a organização Floripa Amanhã fez um levantamento, entregue ao prefeito e à Casan, sobre os esgotos na cidade.

“Estamos todos buscando soluções para o problema de saneamento básico. Ao ver as contas da Casan, podemos ver como realmente é muito difícil fazer as adequações. Acredito que com as informações que coletamos no Floripa Amanhã e ofícios que enviamos para Casan e IMA, será possível cada vez mais podermos fornecer informações corretas para a população. Talvez a população não saiba nem para onde recorrer. Verificamos tudo isso e continuamos procurando soluções”, José Luís Netto Menezes – do Floripa Amanhã.

Privatizar ou não?

Para o engenheiro Paulo Cordeiro, a solução é privatizar. Segundo ele, a Casan nunca vai dar certo nem em Florianópolis, nem em Santa Catarina.

“Tem que contratar uma consultoria e trazer um novo modelo para Santa Catarina, porque o que temos está fadado ao fracasso. Eu faria o processo em duas etapas, procuraria acelerar o processo na Casan para melhor atendimento, contrataria uma consultoria renomada que conheça isso e possa criar uma modelagem que permita às privatizações”, diz o engenheiro.

Já Claudio Stabile Presidente da SANEPAR (Companhia de Saneamento do Paraná), diz que a companhia, que é pública, sempre foi bem gerida.

“No meio da pandemia nunca vimos nada parecido, escassez de água, tudo de uma vez só. Conseguimos trabalhar isso virando a chave, acreditando que as pessoas têm capacidade para encarar, valorizando o trabalho de quem está ali. Claro que contratamos consultorias, mas, sem falsa modéstia, quem pode resolver muitos dos problemas está dentro das companhias”, diz o presidente.

Biogás

O presidente explicou ainda que o biogás gerado a partir de esgoto, também é uma solução.

“A Sanepar já tem veículos movidos à gás. Nosso desafio foi sair do mundo acadêmico e colocar os estudos em prática. Temos cabeças brilhantes na companhia”, explica.

O catálogo HUBER, que publica soluções de engenharia, explica que as principais vantagens desse método são a redução do consumo de energia elétrica, minimizando o custo operacional associado; e a obtenção de um produto com alto teor de sólidos, possibilitando a aplicação para outros fins.

O combustível gerado no Paraná é feito a partir do projeto de cooperação internacional coordenado pela Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades e pela Cooperação Alemã, por meio da Deutsche Gesellschaft fürInternationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH.

Resíduos sólidos e drenagem urbana

Durante o debate, também foi discutida a gestão dos resíduos sólidos em Florianópolis e a drenagem urbana. Este tipo de drenagem, é constituído por um sistema de Microdrenagem – estruturas que, inicialmente, coletam as águas de chuva nas áreas urbanas, formadas por bueiros e tubulações secundárias de menor diâmetro – e por um sistema de Macrodrenagem – conjunto de galerias de águas pluviais, canais artificiais e canais naturais modificados, localizados em fundos de vale, que se constituem nos grandes troncos coletores das águas de chuva em áreas urbanizadas ou em processo de urbanização.

Evento Super 17 discutiu assuntos relevantes para a sociedade Emerilson Gil Emerim Coordenador de Meio Ambiente do Movimento Floripa Sustentável – Foto: Léo Munhoz/ND

À medida que a cidade cresce e se desenvolve, nascem áreas onde há maior aglomeração populacional e, por consequência, a impermeabilização do local, que impede a infiltração das chuvas no solo.

A drenagem urbana é responsável por drenar as águas das chuvas e evitar inundações, comuns em Santa Catarina devido ao volume de chuvas.

“Estabelecemos no plano diretor de 2014 um plano de drenagem urbana. Precisamos estar preparados para as mudanças climáticas. As áreas irregulares hoje são o maior problema para a questão, pois não conseguimos instalar drenagem urbana nesses locais”, explica Emerilson Gil Emerim, Coordenador de Meio Ambiente do Movimento Floripa Sustentável.

Além da água das chuvas, outro problema que pode ser gerado por conta das mudanças climáticas, são os resíduos sólidos. Acumulados, o lixo pode entupir bueiros, poluir rios e fontes de água limpa além de causar uma série de problemas de saúde para a população.

Sobre a temática, Bruno Vieira, Superintende do Saneamento Básico da Prefeitura de Florianópolis, diz que a cidade é referência na gestão de resíduos.

“Hoje somos referência nacional na temática resíduos sólidos, temos índices que nenhuma outra cidade do Brasil tem. Os serviços oferecidos à população como ecopontos e coleta de orgânicos, nos colocam na ponta quanto ao índice de desvio do aterro sanitário. Hoje nós recuperamos mais de 12% de todos os resíduos produzidos no município”, fala.

Drenagem de água

“Se não fazemos bem uma coisa, não fazemos bem as outras. O ideal é que a gente sempre prevaleça com a solução. Precisamos entender que vivemos em um país continental, cada gerador vai ter a melhor solução para aquele caso”, diz Bruno Muehlbauer, Diretor executivo de Desenvolvimento da Veolia.

Para ele, tudo dentro do saneamento básico está interligado e precisa ser feito de forma singular.

Emerilson Gil Emerim, Coordenador de Meio Ambiente do Movimento Floripa Sustentável, falou sobre o colapso que a cidade pode passar por falta de planejamento.

“Quando falamos de água de qualidade, devemos lembrar que a água é um recurso finito. Todos os recursos hídricos de Florianópolis estão poluídos. Eu tiro por mim quanto cidadão, quando criança a gente tomava banho no Rio Capivari, hoje ele é praticamente um esgoto à céu aberto”, explica.

De acordo com o coordenador, é preciso planejar, ou as mudanças climáticas podem trazer consequências ainda mais graves para Florianópolis.

“Precisamos discutir o problema antes que ele aconteça. Isso não é bom para o meio ambiente, nem para as pessoas, nem para o poder público”, fala.

O professor Neri dos Santos, curador do projeto Super 17, encerrou o evento dizendo que agradecia a presença do público no local e enfatizou a importância do encontro.

“Nesses 17 anos do jornal ND, a ideia era trazer temas de interesse público. Esse é o interesse mais relevante para a democracia. Ele está acima do interesse dos servidores públicos, do governo, do executivo. Florianópolis está organizada e não interessa quem seja, quem é contra o progresso da sociedade vai em cima. O grupo ND está trazendo interesse público para o debate para tratar dos problemas da cidade”, fala.

Para Neri, que é Professor Sênior do Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento da Universidade Federal de Santa Catarina, as mentes pensantes mais importantes das cidades estão nos debates do Super 17.

“Com os debates, são propostas soluções para a cidade com metodologia e base científica”, finaliza.