Milhares de peixes apareceram mortos em praias no Ribeirão da Ilha, no Sul de Florianópolis, neste sábado (18), em uma região gastronômica da Capital.
Uma das causas possíveis pode ser a poluição crônica aliada à elevação da temperatura, diz o pesquisador e professor dos cursos de pós-graduação em Ecologia e Oceanografia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Paulo Horta.
Mortandade de peixes em praias do Ribeirão da Ilha em Florianópolis – Foto: Paulo Horta/Divulgação/ND“Isso causaria redução nas concentrações de O2 na água a níveis letais, ou deixando os animais fisiologicamente estressados e mais vulneráveis a outros contaminantes”, avalia.
SeguirOutra possibilidade pode ser “um gigantesco descarte ilegal da pesca industrial”, diz Horta. Segundo moradores, a mortandade de peixes foi vista na manhã de sábado, o que faz sentido já que a hipóxia (falta de oxigênio) se intensifica durante a noite.
Entretanto, em nota enviada ao ND+, o Sindipi (Sindicato dos Armadores e das Indústrias da Pesca de Itajaí e Região) considera as alegações do descarte ilegal sem fundamentos, já que a pesca industrial sequer é permitida na localidade em que o fato ocorreu ou em suas proximidades.
O Sindicato também apontou que a poluição das águas em Florianópolis, especialmente nesta última temporada, é de amplo conhecimento público. Leia a nota na íntegra ao final deste texto.
A Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente) informou que vai apurar as causas da mortandade dos peixes, que serão divulgadas assim que forem confirmadas. Não esclareceu, porém, se os peixes já foram retirados.
Ainda conforme Horta, a falta de um monitoramento permanente limita a capacidade de diagnóstico das possíveis causas.
“Este evento reforça a necessidade de priorizarmos o saneamento básico e um discussão com toda a sociedade sobre a importância e urgência de estabelecermos relações harmônicas com a natureza”, diz o professor da UFSC.
Milhares de peixes aparecem mortos no fim de semana em Florianópolis – Foto: Paulo Horta/Divulgação/NDO mais recente episódio de mortandade de peixes em Florianópolis aconteceu m uma área de mangue na avenida da Saudade, no bairro Itacorubi. À época, o biólogo Emerilson Emerim também apontou a poluição e temperatura da água como possíveis causas.
A Floram esclareceu que o possível causador foi a baixa oxigenação das águas no manguezal, situação comum ao ecossistema, mas agravada pelas altas temperaturas da época do ano.
A valorização de instituições de fiscalização ambiental, como Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente), deve ser reforçada, garante Horta.
“Esse verão que termina hoje deixou muitas tragédias ambientais. Esperamos que tenhamos aprendido alguma coisa com todas estas perdas inestimáveis.”
Ações imediatas
Paulo Horta garante que é fundamental a remoção dos animais mortos para evitar o agravamento da crise ambiental e sanitária. Além disso, a criação de planos de contingência para garantir a segurança sanitária também é importante.
“Ao mesmo tempo seria importante o diagnóstico do sistema Baía Sul, caracterizando a qualidade da água do ponto de vista biogeoquímico e ecológico, assim como os efluentes que drenam para a região”, aponta.
Outros pontos fundamentais, de acordo com o pesquisador, é acelerar a universalização do saneamento básico na região metropolitana, oara realizar o o tratamento terciário.
Poluição crônica pode ter causado mortandade de peixes – Foto: Paulo Horta/Divulgação/NDHorta afirma que “nossos ecossistemas chegaram em sua capacidade suporte, estão no seu limite, com o colapso iminente”.
A longo prazo, portanto, é necessária a instalação de unidades de biorremediação nas baías que removam poluentes e possam produzir oxigênio.
Já a curto prazo, o pesquisador defende a formação de um grupo de ação emergencial, multidisciplinar e interinstitucional, para discutir e colocar essas ações em prática. “Não podemos, como sociedade, admitir outro verão como esse.”
Nota de esclarecimento do Sindicato da Pesca Industrial
“O SINDIPI repudia as alegações sem fundamentos sobre a pesca industrial na reportagem publicada hoje (20) no site ND Mais, sobre o caso de mortandade de peixes nas praias do Ribeirão da Ilha, na baía de Florianópolis.
Esclarecemos que a pesca industrial sequer é permitida na localidade em que o fato ocorreu ou em suas proximidades. Portanto, afirmar que o episódio poderia ser resultado de um “gigantesco descarte ilegal da pesca industrial” é uma alegação, no mínimo, irresponsável.
Somos um dos principais setores econômicos do Estado de Santa Catarina, que abriga atualmente o maior polo pesqueiro industrial do Brasil. Empregamos dezenas de milhares de trabalhadores de forma direta e indireta, que atuam continuamente para levar à mesa da população brasileira a mais saudável proteína animal que existe.
Infelizmente a pesca, seja ela industrial ou artesanal, é mais uma das vítimas da poluição e da degradação que assola nossos ambientes costeiros, regiões tidas como berçários de vários estoques pesqueiros. E a poluição das águas em Florianópolis, especialmente nesta última temporada, é de amplo conhecimento público.
O SINDIPI reafirma seu compromisso com o desenvolvimento sustentável da atividade pesqueira industrial e espera que as autoridades possam não apenas investigar o que causou a mortandade de peixes no Ribeirão da Ilha, como também assegurar a preservação de ambientes costeiros em todo o nosso litoral”.