Serra do Tabuleiro: área ambiental devastada por incêndio vive possível conflito por terras

Causa do incêndio ainda é investigada pela polícia, mas possível disputa por terras levanta indícios de ação criminosa, diz biólogo do IMA

Foto de Richard Vieira

Richard Vieira Florianópolis

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Atingida por um incêndio de grandes proporções neste mês, a Baixada do Maciambu, em Palhoça, tem sofrido com possíveis conflitos por terras nos últimos anos. Um dos principais fatores seria a disputa pela permanência do pinus no local — a espécie exótica invasora tem prejudicado o equilíbrio da flora e fauna nativas da região.

Incêndio de grandes proporções atingiu Serra do Tabuleiro Parque Estadual da Serra do Tabuleiro tem feito a retirada de pinus; medida visa a preservação – Foto: Anderson Coelho/ND

A área faz parte do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, considerado a maior unidade de conservação do Estado e onde foram registrados, ao menos, três incêndios neste ano. O último ocorreu na segunda-feira (25) e destruiu o equivalente a 185 campos de futebol.

Segundo o coordenador do parque e biólogo do IMA (Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina), Marcos Maes, há “fortes indícios” de que o incêndio tenha sido criminoso e com conexão com o trabalho de preservação realizado pelo parque.

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Em nota, a Polícia Civil de Santa Catarina, por meio da Delegacia de Palhoça e da Diretoria Estadual de Investigações Criminais, comunicou que está atuando para apurar a causa do incêndio e quem foram os possíveis autores.

Possível conflito na área da Baixada do Maciambu

Ao ND Mais, o biólogo explicou que, historicamente, a Baixada do Maciambu era usada para a criação de gado, desde a época dos tropeiros. Tanto que o local chegou a ser uma área de pastagem comunitária.

“Mas com o passar do tempo, com a implantação do parque, a atividade foi sendo restringida, porque o pastoreio pelo gado impede que essa área vire uma restinga mais arbustiva”, defendeu.

Segundo Maes, alguns criadores, porém, ainda reivindicam essa área, atualmente pública, com exceção de partes que foram compradas pelo Estado e pertencem ao IMA.

Chegada de resineiros

Nesse período, uma nova atividade também surgiu nessas áreas: a de retirada de resina.

“Começou a ter um interesse econômico por isso, e esses criadores de gado, que, de certa forma, se sentiam donos da terra, passaram a fazer uma espécie de arrendamento para resineiros”, observou Maes.

Proibida na área do parque, a extração é feita a partir de um corte no tronco do pinus, e a seiva, depositada em um saco plástico preso na árvore. O material é utilizado pela indústria para a fabricação de tintas, borrachas, cosméticos e outros produtos.

Além disso, o pinus é considerado um agente de degradação porque impede a restinga de crescer. “O pinus sombreia a vegetação, e as folhas dele também caem no solo, edificando e tampando as outras plantas, assim a vegetação nativa não consegue crescer”, explicou o biólogo.

Conforme Maes, a espécie foi trazida para a Baixada do Maciambu entre os anos 1970 e 1980 por empresas que tinham o interesse de usar a madeira e se espalhou facilmente pelo local, especialmente em áreas onde era feito o manuseio de gado.

Diante do cenário, o IMA passou a fazer a retirada do pinus na região, porém observou, ainda em 2020, a forte presença de resineiros em alguns pontos. “A gestão na época decidiu segurar a retirada e buscar o diálogo, mas não conseguimos”, revelou o biólogo.

Incêndios recorrentes

Desde então, o parque prosseguiu com a retirada dos pinus e registrou, ao menos, três incêndios apenas neste ano. O biólogo acredita que os episódios têm relação.

“Temos observado um padrão entre esses incêndios. Há fortes indícios de que seria uma represália em relação às ações que o parque vem realizando de recuperação ambiental dessas áreas”.

No início deste mês, um foco consumiu cerca de 150 hectares de área. Em abril, um outro incêndio causou a destruição do equivalente a 90 campos de futebol.

O mais recente ocorreu na tarde de segunda-feira (25). A ação se estendeu por diversas horas e mobilizou o Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina, Policia Militar Ambiental e IMA. As causas ainda são apuradas.

Incêndio atingiu o equivalente a 185 campos de futebol – Vídeo: Divulgação/CBMSC

“Percebemos também que, durante os incêndios, o pinus é altamente combustível e essa resina também. Então, pega fogo facilmente e acaba mantendo o incêndio por mais tempo”, comentou Marcos Maes.

Invasão de terra

Outra hipótese é de que os recorrentes incêndios possam ter relação com o processo de invasão de terra.

“A nossa suspeita é de que o incêndio de abril, por exemplo, tenha sido causado por invasão. É um processo que ocorre frequentemente aqui. Grupos vendem áreas de dentro do parque, que não poderiam ser vendidas, e descaracterizam a vegetação ou põem fogo para facilitar a invasão. Muitas vezes, as pessoas compram de boa-fé e nem sabem que são uma área de invasão”, detalhou.

Ações de enfrentamento

De acordo com o biólogo, a Polícia Militar Ambiental, em conjunto com o IMA, está realizando rondas na região para evitar novos episódios.

“Estamos reforçando as ações agora para o fim do ano, porque a gente acredita que eles aproveitaram um momento de vulnerabilidade para executar as ações”, disse.

O instituto também estuda a instalação de hidrantes no parque, assim como torres de observação e câmeras de monitoramento. “Além disso, a gente têm as ações de retirada do pinus, que vão permanecer. Temos diversos projetos de restauração, de retirada do pinus e plantio de mudas nativas para mais de 200 hectares”, informou.

Sobre o Parque Estadual da Serra do Tabuleiro

O Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, maior unidade de conservação de proteção integral de Santa Catarina, foi criado em 1975, com o objetivo de proteger a biodiversidade da região e os mananciais hídricos que abastecem as cidades da Grande Florianópolis e do Sul do Estado. Ele faz parte da Baixada do Maciambu.

A unidade é administrada pelo IMA, com o apoio do governo do Estado. O parque ocupa cerca de 1% do território catarinense e abrange áreas dos municípios de Florianópolis, Palhoça, Santo Amaro da Imperatriz, Águas Mornas, São Bonifácio, São Martinho, Imaruí e Paulo Lopes.

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