A tilápia-do-nilo é um peixe contraditório: ele é tão destrutivo para a biodiversidade como é importante para a economia brasileira e de Santa Catarina. Consumida pelo ser humano, a espécie vive em águas doces e salobras do Estado.
O peixe integra a lista de 13 peixes invasores que vivem nas águas de Santa Catarina elaborada pelo IMA/SC (Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina). Por outro lado, 77% da psicultura catarinense em 2021 foi constituída pela tilápia-do-nilo, segundo estudo conduzido pela Epagri.
Espécie nativa da África foi introduzida para controle de vegetação aquática e aquicultura – Foto: Germano Roberto Schüür/Wikimedia Commons/Divulgação/NDAs cartilhas do IMA referentes às espécies exóticas invasoras em Santa Catarina mapeiam a presença deste peixe no Estado. Por serem invasoras, estas espécies provocam a “homogeneização da fauna aquática”: se propagam descontroladamente e “tomam” o espaço das nativas.
Seguir“Introduzida em mais de cinquenta países tropicais em todos os continentes para aquicultura e pesca desportiva, tornou-se a espécie de peixe com a maior compilação de impactos ambientais em nível global”, pontua o IMA.
As espécies invasoras conseguem adentrar ambientes exóticos pelo interesse econômico. “Como consequência, mais da metade das bacias hidrográficas do mundo contêm pelo menos uma espécie exótica de peixe, o que gera consequências negativas em larga escala às comunidades naturais”, detalha o órgão ambiental.
Dez espécies estão na lista vermelha entre as invasoras e representam 69% das introduções de peixes exóticos. Quatro delas constam da Lista Oficial de Santa Catarina: carpa, black bass, truta-arco-íris e tilápia-do-nilo. “É necessário estabelecer critérios de produção para evitar sua disseminação e ajudar o controle”, alerta o IMA.
Peixe resistente e com dieta ampla
A tilápia-do-nilo é nativa da África. Ela tolera extremos de temperatura a (de 8°C a 41°C) e à salinidade, vive preferencialmente em corpos d’água com vegetação aquática, de águas lentas ou pantanosas. A invasora consome todo tipo de alimento de origem animal ou vegetal, ressalta o Instituto do Meio Ambiente.
“Os jovens se alimentam de plâncton, os adultos de plantas, algas, insetos e crustáceos. Constrói ninhos para os filhotes, que são guardados pelos pais, assegurando altas taxas de sobrevivência”, destaca a Lista Comentada de Espécies Exótica no Estado de Santa Catarina.
Além disso, a espécie aguenta condições ambientais de ambientes degradados, baixa oxigenação e relativa salinidade, adaptando-se facilmente em detrimento de espécies nativas, ainda segundo o órgão ambiental.
Importância econômica e necessidade de cuidado em SC
“A criação dessa espécie no Brasil tem grande importância econômica, porém carece dos cuidados necessários para prevenir seu escape e os impactos ambientais decorrentes, com impactos irreversíveis. É comum a criação em reservatórios, o que confere à espécie oportunidades importantes de invasão em cursos d’água associados”, alerta a cartilha.
“Dada a relevância econômica, está enquadrada na Categoria 2, requerendo boas práticas de manejo para reduzir impactos ambientais”, encerra o órgão. Um estudo conduzido por pesquisadores da Epagri mostra que a tilapicultura cresceu acima dos 28% entre 2015 e 2020 em Santa Catarina.
O que dizem os produtores
Em nota, a ACAq (Associação Catarinense de Aquicultura) destaca que a tilápia é uma espécie de peixe originária do continente africano e amplamente criada em cativeiro para o consumo humano em todo o mundo, incluindo o Brasil.
“Embora seja verdade que a tilápia tenha sido introduzida no país há mais de 50 anos, rotulá-la indiscriminadamente como uma espécie invasora é um equívoco científico e uma generalização injusta”, diz a nota.
Ainda segundo a associação, não há consenso científico de que a tilápia se enquadre na categoria de espécie invasora. “Estudos científicos apontam que o impacto da tilápia em ecossistemas variam amplamente de acordo com as características locais, como a presença de predadores naturais, disponibilidade de recursos e fatores climáticos”.
Conforme a nota, a pesca extrativista está há muitos anos, segundo dados da FAO, estável em questões de volumes de produção. E o aumento da oferta de pescado para a população se dá através da aquicultura, que é realizada em sua maioria de forma sustentável.
“Sendo assim, a piscicultura é uma das atividades que contribui significativamente no mundo para a segurança alimentar. Sendo a tilápia uma das espécies de peixe mais produzidas no mundo, esta espécie possui contribuição relevante nesse sentido”.
“Segundo dados da Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina), o Estado possui um total de 30.749 piscicultores, sendo 28.490 produtores amadores, ou seja, a piscicultura não é uma fonte de renda relevante para a família, e sim uma fonte de consumo de subsistência. Dentre esses piscicultores amadores, as espécies exóticas (tilápia, carpas, catfish, truta) representam 94,3% da produção total, ou seja, no estado de Santa Catarina as espécies exóticas garantem boa parte da alimentação de peixes para subsistência, auxiliando assim na segurança alimentar”, finaliza a nota.