Conheça praias de Florianópolis próprias para banho, mas que moradores desconfiam

Moradores relatam desconfiança e autoridades ambientais explicam como a balneabilidade da praia é definida

Erika Artmann Florianópolis

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Embora muitas praias de Florianópolis apresentem condição própria para receber banhistas, moradores desconfiam da balneabilidade de alguns pontos. Coqueiros, Tapera, Lagoa da Conceição e Lagoa do Peri são alguns locais citados por moradores como tendo qualidade da água questionável.

Toda a Avenida Das Rendeiras, na Lagoa da Conceição, está com pontos próprios para banho, segundo o IMA – Foto: Leo Munhoz/NDToda a Avenida Das Rendeiras, na Lagoa da Conceição, está com pontos próprios para banho, segundo o IMA – Foto: Leo Munhoz/ND

O ND+ conversou com algumas pessoas para entender a razão do receio em entrar nessas águas e com o órgão ambiental para saber quais as variáveis que mostram se um lugar está ou não próprio para banho.

“Existe desconfiança por parte de algumas pessoas em relação à balneabilidade, que está relacionada com o aspecto visual e o cheiro que a água apresenta”, explica o presidente da Associação de Moradores da Lagoa da Conceição, Bruno Negri, sobre o balneário de seu bairro.

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As desconfianças também vêm dos locais onde os esgotos estão presentes e visíveis, mesmo com as placas indicando que a região está própria para banho. “Acredito que essas informações acabam gerando desconfiança também”, comenta a presidente da Associação de Moradores de Coqueiros, Sibyla Loureiro.

Mesmo com a desconfiança sobre as praias serem ou não próprias, banhistas continuam frequentando os locais. Segundo Loureiro, “com esse calor, nos fins de semana, muitas pessoas que não têm condições de frequentar as praias mais distantes se banham em Itaguaçu e na Praia da Saudade, as preferidas”.

Tubulação de esgoto na Praia do Meio, em Coqueiros, recebendo limpeza em janeiro  – Foto: PMF/Divulgação/NDTubulação de esgoto na Praia do Meio, em Coqueiros, recebendo limpeza em janeiro  – Foto: PMF/Divulgação/ND

As praias citadas por ela recebem a indicação de própria para banho no mapa de Balneabilidade em 16 de fevereiro. “Pelo relatório de balneabilidade do IMA (Instituto do Meio Ambiente) da última semana, a Praia do Meio estava própria para banho, mas, na realidade, está com vazamento de esgoto à beira do mar“, explicou a presidente no início de fevereiro.

Sybila Loureiro diz ainda que essas informações também acabam gerando desconfiança. “Os moradores presenciam o esgoto correndo a céu aberto de forma corriqueira”, aponta.

Na Lagoa do Peri o descarte de esgoto não está visível no local destinado para banho, mas acontece no interior da lagoa, como explica um morador do bairro Morro das Pedras, que preferiu não se identificar: “Só quem procura as partes mais isoladas da Lagoa descobre as irregularidades”.

Preocupado com as condições da Lagoa do Peri, o morador deixou de frequentar o lugar para passeio e banho. Segundo ele, entre aqueles que conhecem as condições gerais do lugar, alguns deixam de frequentar e outros cobram as autoridades responsáveis por providências.

Outro ponto que gera dúvidas sobre a balneabilidade é a Tapera, no Sul da Ilha de Florianópolis. Córdova é dono do Bar Marolas, próximo ao final da praia, onde também há uma grande fenda que despeja esgoto. O lugar é considerado próprio para banho pelo IMA mas, segundo o morador: “A qualidade está péssima e a água piora quando chove, fede”.

A previsão para que a Tapera tenha sistema de esgoto instalado é de dois anos e meio – Foto: Leo Munhoz/NDA previsão para que a Tapera tenha sistema de esgoto instalado é de dois anos e meio – Foto: Leo Munhoz/ND

Segundo o IMA, as ligações de esgoto irregular, solo saturado com esgoto e outros vazamentos chegam ao mar por galerias de drenagens urbanas, rios ou córregos. Os pontos monitorados que ficam próximos a esses trechos são mais suscetíveis à mudança de condições para banho, mas não necessariamente estão impróprios, como explica o órgão.

Pesca e turismo

As percepções sobre o esgoto na Lagoa da Conceição também afetou o mercado de pesca. No Bar do Betinho do Deca da Lima, por exemplo, antes do rompimento da barragem com esgoto no bairro os produtos artesanais eram pescados por Betinho, dono do lugar, com a ajuda de João, funcionário restaurante.

Quem conta a história é o gerente do restaurante, Mário César: “A maior parte dos produtos, como Siri e Camarão, eram pescados na Lagoa”. Eles passaram a comprar produtos de criadouros após verem nas notícias sobre a qualidade da água, além de serem alertados por outras pessoas.

Ao fundo de Mário César está uma foto das pescarias que Betinho fazia na Lagoa da Conceição – Foto: Leo Munhoz/NDAo fundo de Mário César está uma foto das pescarias que Betinho fazia na Lagoa da Conceição – Foto: Leo Munhoz/ND

Os camarões criados em rios artificiais não são bonitos como aqueles “grandes e bem vermelhos” que eram pescados na lagoa. Ainda assim, a substituição foi inevitável para o restaurante, como explicou o gerente. “Antes [do rompimento] chegavam a procurar pelo camarão da lagoa”.

Um dos principais pontos turísticos de Florianópolis, a Lagoa têm atrações como os brinquedos náuticos, operacionalizados por pessoas como Otoney Xavier. Ele prepara os barcos e bicicletas serão usados pelos banhistas. “As pessoas não perguntam sobre a água mas, quando acontece, a gente explica que a lagoa se renovou após o acidente”.

Na borda da Lagoa da Conceição, Xavier nos mostra os animais que habitam ali: siris, peixes e caranguejos. Ainda, o vento Sul que soprava na tarde da nossa conversa mantinha as águas límpidas no ponto final das Rendeiras. Quando o vento Norte aparece, ele explica que a coloração do lugar fica mais escura, aparentando sujeira.

Lagoa da Conceição é o local de trabalho e casa de Xavier – Foto: Leo Munhoz/NDLagoa da Conceição é o local de trabalho e casa de Xavier – Foto: Leo Munhoz/ND

O ponto no qual encontramos Otoney é no final da Avenida das Rendeiras, onde há também pescadores. Uma placa do IMA indica que o lugar está próprio para banho. Caso percebam alterações na cor ou no cheiro da água, os frequentadores contatam as redes municipais de cuidados ambientais por telefone.

Otoney é casado e conta que sua esposa não tem a mesma segurança em usar a água da Lagoa para lazer. De vez em quando, ele prepara o jet-ski para que os dois entrem mas, duvidando da qualidade da água, ela costuma responder: “vai com Deus e volta com ele”.

Análises de Balneabilidade

Para informar as condições de balneabilidade o IMA usa como base a quantidade de bactéria Eschericchia coli nas águas em determinados pontos do balneário. Originadas no trato intestinal de animais de sangue quente, como os humanos, se presentes em grande quantidade elas indicam a contaminação recentes de pontos da praia.

As medidas utilizadas para análise são através do Número Mais Provável (NMP) de bactérias encontradas em cada um dos pontos analisados. O Instituto explica que um ponto considerado próprio deve apresentar 80% das últimas cinco análises com o valor inferior a 800 NMP da bactéria em cada 100ml. Se um resultado extrapolar 2000 NMP/100ml, o local é classificado automaticamente como impróprio.

As análises do IMA são semanais durante o verão. Assim que finalizadas, são divulgadas de forma interativa no site Balneabilidade. Também são colocadas placas nas praias dentro do prazo de 48 horas. O Instituto lembra que a metodologia é aplicada em todo o Brasil e no exterior.

Variações entre os pontos das praias

As medições do IMA são feitas em vários pontos diferentes de uma mesma praia e, por isso, podem haver locais próprios e impróprios em uma mesma região. Segundo o Instituto: “isso ocorre devido às características locais de hidrodinâmica, maré, quantidade de material contaminado que aporta ao balneário, entre outros”.

Com indicação de própria para banho, pessoas se divertem nas águas da Lagoa – Foto: Leo Munhoz/NDCom indicação de própria para banho, pessoas se divertem nas águas da Lagoa – Foto: Leo Munhoz/ND

Os banhistas não precisam se preocupar ao entrar em um pronto próprio de uma praia que apresente locais impróprios.

Lagoa da Conceição, por exemplo, passou por análise em nove pontos de sua praia no primeiro relatório de fevereiro, dos quais sete podem receber banhistas e dois não. Todos os locais analisados na Avenida das Rendeiras podem receber banhistas.

De qualquer modo, o mapa digital de balneabilidade e as placas que indicam as condições no local são ferramentas para ficar atentos e garantir a segurança sanitária ao entrar no água.

Balneabilidade e saúde em Florianópolis

Atualmente são analisados 87 pontos de balneários em Florianópolis. Na última coleta de fevereiro 69 estavam em condição de receber banhistas. O número varia entre um relatório e outro, mas 79,3% das análises apresentavam águas com condições de receber banhistas.

O bairro Coqueiros tem locais que causam desconfiança: a Praia do Meio e a da Saudade. Apesar do receio popular, o mapa indicava os dois como próprios para banho em 16 de fevereiro. Ainda, o ponto analisado no meio da praia da Tapera e na sede da Lagoa do Peri estão próprios para banho.

Um técnico de enfermagem do SUS (Sistema Único de Saúde) em Florianópolis, que preferiu não se identificar, disse que os números de pacientes com contaminações por vírus e bactérias aumentam durante o verão. Geralmente, elas acontecem em turistas, o que dificulta o mapeamento.

“Eles viajam e vão em várias praias, dentro e fora de Florianópolis, não dá para dizer de onde veio”, explica. Além disso, os sintomas se assemelham muito à contaminações com alimentos, apresentando diarreia, vômito, febre e dores abdominais. Sendo assim, os registros não são específicos quanto à balneabilidade.

Regularização de esgotos

A Prefeitura de Florianópolis, através da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, é responsável por promover políticas públicas de saneamento básico no município, em contrato com a Casan. No caso dos esgotos despejados em balneários, há dois projetos principais de melhoria.

inspeção na praia de coqueirosFloripa Se Liga na Rede realiza inspeções domiciliares e em ambientes públicos – Foto: Tito Pereira/Floripa Se Liga Na Rede/Divulgação/ND

A rede de esgoto da Tapera está assentada, mas ficará inativa até que seja concluída a Estação de Tratamento de Esgoto do Campeche, para onde os resíduos serão destinados. Até lá, os moradores não podem usar a rede pública de tratamento ou destinar os dejetos para a rede de drenagem porque assim serão levados diretos ao mar.

A previsão para a finalização total da obra da rede de tratamento na Tapera é de dois anos e meio. Ou seja, até 2025 os moradores devem cuidar do sistema individual de tratamento, fazendo limpezas regulares das fossas sépticas para evitar o extravasamento dos dejetos.

Redes de esgoto já existem em Coqueiros e na Lagoa da Conceição. Para melhorar o atendimento estão previstas instalações de unidades complementares de recuperação ambiental. Os projetos devem auxiliar para melhorar a qualidade do efluente que chega aos Balneários.

As poluições em praias, que põem em risco a balneabilidade dos balneários, estão diretamente ligados à esgotos irregulares, segundo a Prefeitura. Operações como o Floripa Se Liga Na Rede em Coqueiros e pelo Trato da Lagoa foram criadas para fiscalizar essas ligações.

A poluição ocorre por conta de ligações clandestinas, que são fiscalizadas pelo Floripa Se Liga Na Rede em Coqueiros e pelo Trato da Lagoa, mas também pode ocorrer por extravasamentos na rede de de esgoto para rede drenagem pluvial.

Foram regularizadas ligações em 6,5 mil domicílios com os projetos. Entretanto, 46% dos imóveis ainda têm alguma irregularidade, como ausência de sifão na caixa de gordura, segundo informou  o superintendente de Saneamento, Laudelinos de Bastos e Silva.

O secretário municipal do Meio Ambiente, Fábio Braga, afirma: “Florianópolis tem de correr para universalizar, até 2032, o serviço de abastecimento de água e esgotamento sanitário. Também temos pressa de erradicar as ligações clandestinas e recuperar a salubridade das lagoas e baías de Floripa”.

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