“Foi a primeira praia de Florianópolis. Em 60, não se ouvia falar em Canasvieiras, Jurerê.” “Todo dia de manhã, tempo bom ou não, estávamos na praia brincando. Praia cheia. Era o fervo”. “No final da década de 70, começo da de 80, ficou impraticável tomar banho aqui”. “É sempre isso: ‘Vamos resolver, vamos fazer’ e nunca vi fazerem nada!”
A Praia da saudade, em Coqueiros, quando o banho de mar não era sinônimo de risco à saúde – Foto: Divulgação/NDAs reclamações e memórias são de moradores de Coqueiros, no Continente. Uma das mais badaladas da Ilha nas décadas passadas, a orla deixou de ser procurada pelos banhistas por causa da poluição.
Lá estão seis pequenas praias: Riso, Saudade, Meio, Salga, Itaguaçu e Palmeirinha. Após décadas de descaso, um problema sistêmico precisa ser corrigido para que recuperem a balneabilidade e diversos atores sociais têm que se envolver.
SeguirA prefeitura é peça chave e, como a gestão de Topázio Neto (PSD) tem agora o programa Pacto pelo Saneamento, acredita que pode devolver a balneabilidade da região.
A estatal que trata o esgoto na cidade promete terminar, em 2024, a expansão da estação de tratamento de esgoto utilizada por Coqueiros. A população, cerca de 15% das casas no bairro, precisa regularizar a forma como se conecta à rede. Assim, a orla de Coqueiros pode voltar a ser palco de registros como nas décadas de 60 e 70.
A empresária Jéssica Caroline, 22 anos, mora num dos residenciais mais antigos de Coqueiros. Está há seis anos no bairro: “É horrível. Tem dias que chega a ter cheiro. Dizem que é água pluvial, mas passa dias e dias com sol e sempre tá jorrando água o dia inteiro”, reclama a moradora, apontando para uma galeria pluvial com mais do que água da chuva na composição.
Galeria pluvial desembocando na Praia da Saudade – Foto: Kelly Borges/ND“Eu ia na praia da saudade, onde tinha trampolim e mergulhava. Depois, com a poluição, comecei a evitar”, declara o pescador João Sena, 65 anos. Manezinho, ele adquiriu um rancho de pesca em frente à praia da Saudade, mas banho, nem pensar.
“Não tomo, devido a esse crime ambiental”, critica o pescador referindo-se a um córrego que desemboca na Praia da Saudade com esgoto. A Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis) promete apurar as denúncias, pois as galerias pluviais que chegam ao mar são destinadas apenas à água da chuva.
Vice-presidente da associação Pró-Coqueiros, Rodrigo Ferreira, o Kiko, nasceu em 1968, e era pequeno quando a balneabilidade começou a desaparecer de Coqueiros.
Enquanto a balneabilidade não retorna, o cenário é de praia vazia – Foto: Kelly Borges/ND“Ficou uma situação triste. As pessoas morando a 10, 20, 50 metros da praia e não podendo usar”, lamenta. Do Paraná, Dalton Malucelli Júnior veio com seis anos com a família para o Abraão, vizinho de Coqueiros, onde ficam as praias do Bom Abrigo e do Abraão. “O parque de diversões era a praia. Morando a 50 metros do mar tivemos o mar como recreio”, destaca.
Desafios e soluções
Para o engenheiro sanitarista e ambiental Igor Puff Floriano, Coqueiros perdeu a balneabilidade porque as redes de esgoto começaram a operar no final dos anos 80 e um programa explicando como os proprietários de residências se conectam a ela surgiu apenas em 2018. Ele se refere ao programa Se Liga na Rede. “Foi um divisor de águas, que não só inspeciona as residências, como comunica as irregularidades”, aponta.
Floriano acredita que é possível devolver a orla aos banhistas. “Fazendo a inspeção das residências e a verificação constante das redes da Casan, pode ficar própria para banho. É possível, com bastante aporte, suor e vontade”.
Para evitar que o problema de Coqueiros se repita nas demais praias, ele defende manutenções preventivas dos sistemas individuais nas residências e das redes existentes.
Secretário Municipal do Meio Ambiente em exercício, Lucas Arruda diz que o problema de Coqueiros é sistêmico. “A rede de esgoto da Casan atende aproximadamente mil casas e é preciso que as mil se conectem.” Ele lembra que um novo programa será lançado para financiar obras e regularizar as conexões.
“A prefeitura está auxiliando os munícipes da Praia do Riso, que terão condições de se conectar. Em comunidades de baixa renda, vamos investir com rede de esgoto e conexão das residências para garantir que essa praia aqui, em meses, retorne a balneabilidade”, promete Arruda.
Ele ressalta que a prefeitura está lançando uma nova tecnologia para tratamento e gestão de drenagens de praia. A intenção é começar por Jurerê e Canasvieiras, Norte da Ilha, para propor uma solução tecnológica e reduzir o impacto das chuvas na cidade.
Diretor de operação e expansão da Casan, Pedro Joel Horstmann afirma que o sistema de esgoto de Coqueiros foi dimensionado para a população atual e seu crescimento em 20 anos.
O esgoto da parte continental de Florianópolis é tratado na estação de Potecas, São José, que está em obras. “Hoje trata em torno de 300 litros por segundo e vai passar para 600 litros por segundo, dobrando a capacidade de tratamento. A obra está na fase de fundação e o prazo é maio de 2024”, enfatiza.
Ele revela que em torno 15% das edificações de Coqueiros apresentam alguma irregularidade. “Alguns estão ligados, mas falta uma caixa de gordura, ou tem uma edícula não ligada à rede coletora.” Para Horstmann , Coqueiros tem que resolver dois problemas: acabar com ligações irregulares na drenagem pluvial e eliminar ligações inadequadas na rede.
Cinco atualizações recentes da balneabilidade das praias avaliadas em Coqueiros:
Praia da Saudade
Canto esquerdo da praia (Ponto 4)
- 25/01 – Próprio
- 18/01 – Próprio
- 11/01 – Próprio
- 04/01 – Impróprio
- 26/12 – Impróprio
Praia do Meio
No meio da praia (Ponto 5)
- 25/01 – Impróprio
- 18/01 – Impróprio
- 11/01 – Impróprio
- 04/01 – Impróprio
- 26/12 – Impróprio
Praia do Itaguaçu
Entre o trevo e a rua Euclides da Cunha (Ponto 6)
- 25/01 – Próprio
- 18/01 – Impróprio
- 11/01 – Impróprio
- 04/01 – Impróprio
- 26/12 – Impróprio