‘Coquetel de drogas’ no mar: além de cocaína, quais outras substâncias assolam costa brasileira

Estudo recente da Fiocruz encontrou sinais de cocaína em tubarões no Rio de Janeiro; hormônios, antibióticos e até antidepressivos também foram encontrados

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Redação ND Florianópolis

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As drogas, tanto lícitas quanto ilícitas, entram nos oceanos de várias maneiras, principalmente através de sistemas de esgoto e atualmente o massivo descarte por traficantes. Medicamentos como antibióticos, hormônios e antidepressivos têm sido detectados em águas costeiras e estuarinas.

Microplásticos, medicamentos e drogas são encontradas no marMicroplásticos, medicamentos e drogas são encontradas no mar – Foto: Getty Images/iStockphoto/ND

No dia 15 de julho a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), no Rio de Janeiro, foi pioneira em um estudo que apresentou sinais de cocaína em diversos tubarões encontrados na costa brasileira. O estudo apontou  que os animais podem estar sendo impactados pelos entorpecentes despejados no oceano por traficantes.

Diariamente os oceanos de todo planeta estão sendo poluídos e isso afeta diretamente o ecossistema da vida marinha, além de aumentar problemas ambientais, econômicos e de saúde pública. Discutir esse tema é de extrema importância para preservação natural e diminuir danos no ecossistema. A preservação dos oceanos é essencial não apenas para a vida marinha, mas também para a saúde humana, a estabilidade econômica e a resiliência ambiental.

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“Tubarões com cocaína”

Tubarão encontrado com cocaína na costa brasileira Pesquisadores encontraram cocaína em tubarões na costa brasileira – Foto: Reprodução/ND

Pode até parecer nome de filme, mas não, há tubarões contaminados por cocaína nadando pelas costeiras do Rio de Janeiro. Um estudo realizado em 13 animais da espécie  tubarão-bico-fino-brasileiro (Rhizoprionodon lalandii ), a equipe encontrou cocaína e benzoilecgonina – um metabólito produzido quando a cocaína é decomposta no corpo – nos tecidos musculares e hepáticos de todos os 13 peixes.

Ainda não se sabe como a cocaína pode afetar o tubarão brasileiro, uma espécie que a União Internacional para a Conservação da Natureza classifica como vulnerável à extinção, principalmente devido à pesca excessiva.

Substâncias químicas nos oceanos

A poluição marinha por substâncias já contamina as águas e causa danos à vida dos animais há muito tempo. Uma outra pesquisa realizada por cientistas da Universidade de Portsmouth e da Universidade Brunel de Londres, encontraram cocaína, ecstasy e substâncias farmacêuticas na vida marinha nas águas costeiras do Reino Unido.

Diversos estudos em todo mundo têm apresentado a quantidade de químicos e contaminantes que estão presentes na vida marinha, o que representa um risco significativo para esses ecossistemas e para a saúde humana.

Poluentes químicos mais presentes na vida marinha

Metais pesados

Os metais pesados, como mercúrio e chumbo, são os principais contaminantes dos oceanos.

O mercúrio, convertido em metilmercúrio, é neurotóxico e prejudica peixes, mamíferos marinhos e aves, ele entra nos oceanos principalmente através de emissões industriais e precipitação atmosférica.

O chumbo entra através do escoamento urbano e causa toxicidade aguda e crônica, afetando os sistemas nervoso e reprodutivo dos animais marinhos.

POPs e PCBs

Compostos orgânicos persistentes (POPs), como os Bifenilos Policlorados (PCBs) que é mais encontrado nos animais, são contaminantes preocupantes nos oceanos. Os PCBs, usados em aplicações industriais, se acumulam e causam danos ao fígado, sistema imunológico e reprodutivo dos animais marinhos, além de serem cancerígenos.

Microplásticos

Microplásticos encontrados nos oceanos sendo manipulados em laboratórioMicroplásticos são umas das substâncias tóxicas mais encontradas nos oceanos – Foto: Getty Images/ND

Um dos mais comuns na poluição dos oceanos são os microplásticos, que afetam a saúde dos animais marinhos ao serem ingeridos, causando bloqueios intestinais, inflamações e toxicidade.

Espécies como atuns e tartarugas marinhas sofrem com muita frequência esses impactos, e a bioacumulação de substâncias tóxicas afeta diretamente predadores de topo, como baleias e tubarões.

Produtos farmacêuticos

Mesmo sendo menos discutido ou apresentado, os produtos farmacêuticos, como antibióticos e hormônios, são uma fonte significativa de poluição marinha.

Antibióticos provenientes de esgoto e aquacultura levam à resistência bacteriana e afetam comunidades microbianas marinhas.

Hormônios sintéticos e naturais de anticoncepcionais e terapias hormonais atuam como desreguladores endócrinos, causando alterações no desenvolvimento sexual e reprodutivo dos peixes, fazendo que peixes machos desenvolvam características femininas e assim comprometendo a reprodução da espécie.

Especialista diz que essa situação não é recente e faz alerta

O biólogo e pesquisador de Contaminantes Emergentes em Ambientes Aquáticos da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Luan Oliveira afirma que a situação de contaminação em lagos, rios e oceanos não é um assunto recente e que essas substâncias como antibióticos, pesticidas, protetores solares e até fertilizantes contaminam o ecossistema e a vida marinha.

“Essas substâncias podem causar uma série de impactos adversos como por exemplo: redução da viabilidade celular, fragmentação de DNA, formação de micronúcleos, mudanças no comportamento, e na atividade alimentar” , salienta.

Oliveira também acrescenta que “Com esses diversos tipos de contaminantes em ambiente marinho estão sendo uma das principais causas de problemas ambientais no mundo”.

Principais impactos na vida marinha e na saúde pública

Tartaruga nadando no oceano no meio de um monte de plásticos As tartarugas estão entre os animais da fauna marinha que mais sofrem – Foto: Getty Images/iStockphoto/ND

A vida marinha e o ecossistema está diretamente ligado com a saúde pública e acaba afetando diretamente em toda esfera social do mundo.

Com a constante e frequente contaminação dos rios e oceanos em todo planeta, já que 70% da terra é composta por água, as substâncias e compostos prejudiciais à vida marinha interferem de modo direto nos organismos que vivem nesses ambientes.

Esses poluentes se acumulam nos tecidos dos animais ao longo da cadeia alimentar, começando com plânctons e pequenos peixes e aumenta sua concentração à medida que sobem na cadeia trófica.

Essa bioacumulação causa sérios danos neurológicos, reprodutivos e imunológicos nos animais marinhos.

Além disso, a presença dessas substâncias em produtos marinhos pode impactar a saúde humana, colocando as pessoas a riscos com doenças neurológicas e câncer. Com isso observamos que a poluição química não apenas compromete a saúde dos ecossistemas marinhos, mas também representa uma ameaça direta à saúde pública.

E de onde vem toda essa contaminação nos oceanos e na vida marinha?

Descarte inadequado de resíduos, como despejo de esgoto, no marDescarte inadequado de resíduos, como despejo de esgoto, contribui para poluição nos oceanos – Foto: Getty Images/iStockphoto/ND

De todo descarte errado realizado por pessoas que não tem consciência de tudo que acontece no mundo. A principal fonte da poluição marinha está relacionada a atividades humanas. É o descarte inadequado de resíduos, que inclui o despejo de esgoto doméstico, produtos farmacêuticos e plásticos nos oceanos.

Fora isso, a poluição industrial e agrícola tem uma contribuição significativa, com produtos químicos tóxicos, como metais pesados e fertilizantes, que são liberados em corpos d’água através de escoamento e despejo.

O derramamento de óleo também é uma fonte crucial de contaminação, que pode causar danos extensivos aos ecossistemas marinhos, afetando a saúde da fauna e flora marinha que gera impactos de longo prazo nos habitats e na cadeia alimentar.

Essas fontes de poluição têm um impacto cumulativo, prejudicando a qualidade da água, a saúde dos animais marinhos e, por extensão, a saúde humana.

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