O pescador Jean Manoel Assunção foi quem filmou centenas de peixes, siris e camarões agonizando, sem oxigênio, na Lagoa da Conceição, Leste da Ilha, na noite de quarta-feira (5). Nativo da Ilha e morador do Porto da Lagoa, ele espalhou o material nas redes sociais a fim de chamar a atenção para o cenário desolador. Assunção pesca quase diariamente na Lagoa.
Pescadores encontraram centenas de animais agonizando e alguns não sobreviveram – Foto: Leo Munhoz/ND“Tenho 43 anos, desde pequeno criado aqui na Lagoa, comendo siri, camarão. Ver aquilo foi de cortar o coração. Acho que o problema é poluição e por isso falta oxigênio na água”, relatou o pescador, que chegou por volta das 19h na Lagoa na noite de quarta.
O pescador Jean foi quem produziu as imagens dos peixes e siris agonizando na Lagoa da Conceição – Vídeo: Divulgação/ND
Seguir“A gente foi andando pela beira da Lagoa e tinha uns 500 siris na beirada. Nunca vi isso na minha vida. Linguado eu vi uns 20. Eles nadavam rápido para fora e, depois, vinham para terra de novo, encalhavam na beirada e ficavam agonizando. Fomos andando pela beira da Lagoa e estava tudo assim, ali na frente da rua Canto da Amizade”, contou o pescador.
Segundo o também pescador Eder Silvio Cordeiro, 37 anos, os peixes estavam ocupando uma extensão de aproximadamente 1 quilômetro à beira da morte. Há 15 anos, Eder pega camarão e siri na Lagoa e está indignado com a situação.
O pescador Eder estava junto no momento das filmagens e está indignado com a situação – Foto: Leo Munhoz/ND“A gente tá pescando aqui e não sabe se está comendo peixe, siri ou camarão contaminado. Fora a catinga”, reclamou o morador.
Cenas repetidas e busca por soluções
Não é a primeira vez que os animais encontram dificuldades para viver na Lagoa. Em novembro de 2021, siris morreram na região conhecida como Ponta do Pitoco e biólogos ligados à UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) coletaram água do local para análise.
Na época, o professor e biólogo Paulo Horta disse que a Lagoa estava com níveis baixos de oxigênio e que isso poderia implicar na morte dos animais. Segundo ele, a qualidade da água na Lagoa sofreu grande impacto depois do rompimento da lagoa artificial em janeiro de 2021.
Pescadores nativos da Ilha temem perder a Lagoa da Conceição definitivamente – Foto: Leo Munhoz/NDTambém pescador, Luciano Adão da Costa costuma pescar na Lagoa e na Joaquina. “Infelizmente não dá mais. Não tem mais condição. A situação aqui está precária”, lamentou Adão em relação à Lagoa. “Para a gente que nasceu aqui dentro ver isso é crítico”, comentou o pescador, que lembra de bons mergulhos na Lagoa na época da juventude. Hoje, nem pensar.
“Na minha opinião, tem que abrir o canal da Barra da Lagoa. Se não abrir o canal da Barra da Lagoa para entrar mais água limpa para dar mais oxigenação à Lagoa, vamos perdê-la”, ponderou Costa. De acordo com o presidente da Amola (Associação dos Moradores da Lagoa da Conceição), Bruno Negri, a abertura do canal da Barra será um pleito da associação para salvar a Lagoa.
Siris mortos na Lagoa da Conceição – Foto: Leo Munhoz/ND“Temos uma reunião da diretoria da Amola na quarta-feira (12) e isso vai ser pauta. Tenho recebido muita pressão dos moradores para isso, inclusive do pessoal que pesca, seja da nova geração, ou os mais antigos. Estávamos aguardando alguns estudos. Eles saíram e são bastante claros nessa indicação da necessidade de troca de água e me parece que não tem mais o que a gente esperar”, ressaltou Negri.
Polícia Ambiental
O comandante do 1º Batalhão de Polícia Militar Ambiental, tenente-coronel Marledo Egídio Costa, confirmou que uma viatura se deslocou até o local das denúncias por volta das 22h de quarta. Os policiais registraram que os peixes não estavam mais na beira da Lagoa.
Na manhã de quinta-feira (6), a Polícia Ambiental voltou à região e constatou o mesmo. “Foram encontrados alguns poucos peixes miúdos mortos. Vamos acompanhar e ver o que pode estar acontecendo, mas a princípio não houve algo mais grave”, disse o comandante.
A Floram (Fundação do Meio Ambiente de Florianópolis) informou, por meio de nota, que está ciente e apurando as causas. Conforme o órgão, os eventos podem estar associados a locais de menor circulação de água e potencial proliferação de algas e fitoplâncton com as altas temperaturas. Técnicos da Floram irão se pronunciar de forma conclusiva após as investigações.
Desastre ambiental está perto de completar um ano no final de janeiro – Foto: Leo Munhoz/NDEm nota, a Casan (Companhia Catarinense de Águas e Saneamento) ressaltou que a morte de animais marinhos pode ser consequência de um conjunto de fatores, desde o comprometimento do ambiente até descarte de redes de pesca.
Também informou que, na região do Porto da Lagoa, entre a rua Canto da Amizade e a avenida Osni Ortiga, não há sistema público de esgoto e que as residências devem manter o sistema individual de fossa, filtro e sumidouro em devido funcionamento, sem fazer ligações irregulares na rede de drenagem.