O que pede a sustentabilidade do futuro? O professor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), José Rubens Morato Leite, conversou com o ND sobre os novos hábitos e tendências para os próximos anos.
Professor da UFSC José Rubens Morato Leite fala sobre a sustentabilidade do futuro – Foto: Divulgação/NDVemos previsões catastróficas sobre o meio ambiente, mas ao mesmo tempo as pessoas estão se despertando para as pequenas ações. Em linhas gerais o mundo está se encaminhando para ser mais sustentável?
Fundado na ciência e nas evidências científicas claras provenientes do Painel de Mudança Climática do IPCC/ONU destaca que o planeta e o meio ambiente mostram sinais claros de previsões catastróficas sobre os limites ecológicos, mudanças climáticas, chuvas ácidas e muitos outros sinais de esgotamento e crise ecológica.
Portanto é necessário um novo pacto societário ecológico, que pense no planejamento, prevenção, precaução, mitigação, restauração, conservação, preservação e uma sustentabilidade ecológica.
A crise ecológica exige um novo relacionamento ser humano e natureza que traga uma ruptura do status quo, exigindo um retorno de uma relação harmônica da humanidade com o bem comum, sendo um dos elementos os direitos das gerações presente e futuras, bem como caminhos que nos levem à sustentabilidade ecológica e à natureza como um bem essencial.
Governos, empresas, população estão adotando novos hábitos?
Não há dúvida de que teremos de fazer uma rápida transformação de hábitos desde do ponto de vista individual, como de consumo, da produção, dos governos de todos níveis e das empresas, pautados pela prevenção, planejamento, sustentabilidade forte e cálculos que possam medir os impactos negativos causados ao planeta e às externalidades negativas provocadas, afetando direitos sociais e ecológicos sistêmicos.
Devemos sair de uma visão limitada de um capitalismo e consumismo predatório e extremado, buscando uma nova governança sistêmica dos bens comuns.
Um exemplo é o caso da Lagoa da Conceição, em Florianópolis, onde vige uma irresponsabilidade organizada onde a gestão ambiental pública deixa de proteger de forma efetiva este bem comum, agindo de forma omissiva, fragmentada e com inação na sua proteção dos seus valores intrínsecos da natureza, provocando seu iminente perecimento ou colapso deste bem imaterial e cultural da coletividade.
A gestão ambiental da Lagoa da Conceição se enquadra firmemente conceitos expressos acima de irresponsabilidade organizada e sociedade de risco, pois o poder público e utilizadores deixam de fazer um controle e fiscalização necessários, sabendo da complexidade ambiental, promovendo de forma constante inações, ocultações de informações, omissões, agindo sem a devida clareza e com irresponsabilidade face ao bem comum do povo. Importante notar que a Lagoa da Conceição presta serviços ecossistêmicos imensuráveis à sociedade e temos o dever de protegê-la.
Encontra-se no em trâmite no Judiciário, na 6ª Vara da Justiça Federal de Florianópolis, uma ação civil pública estrutural inovadora, com decisão liminar favorável, que instituiu uma Câmara Judicial de Proteção da Lagoa, visando uma governança sistêmica e não fragmentada deste bem ambiental, que poderá trazer uma mudança de hábito na proteção deste bem em longo prazo.
Talvez, esta litigância ecológica da Lagoa seja uma última instância de rever as nossas práticas sociais predatórias de irresponsabilidade organizada e restaurar uma necessária visão de sustentabilidade ecológica e governança para este bem imaterial.
Como as pessoas podem adotar hábitos mais sustentáveis no cotidiano, na vida prática e de que forma as atitudes individuais impactam no todo?
Hoje existem várias formas já bem desenvolvidas, como foi dito, de medir os impactos negativos desde o viés das empresas até a perspectiva individual como a pegada ecológica e de carbono, que fazem cálculos e estimativas mais eficientes de mensurar.
A Pegada de Carbono, por exemplo, calcula a emissão de carbono emitida na atmosfera por uma pessoa, por uma atividade, um evento, uma empresa, organização ou um governo.
Para que tenhamos uma ideia das quantidades emitidas, todos esses gases podem ser convertidos em medidas de carbono equivalente, o dióxido de carbono equivalente (CO2eq).
Assim, quando medimos a quantidade de carbono equivalente emitida na atmosfera temos a pegada de carbono. Hoje, tanto do ponto de vista individual como público e privado, temos que andar com uma calculadora na mão para praticar conceitos e hábitos mais sustentáveis, revisando nossa relação com os limites do planeta, face ao diagnóstico científico da época do antropoceno.
Quais são as tendências do mundo quando o assunto é sustentabilidade?
A tendência é que estes sistemas mais amplos de governança ecológica prosperem e estimulem a sociedade a reverter este quadro de irresponsabilidade organizada.
Não temos saída se mantivermos uma proposta de crescimento econômico ilimitada, baseada em uma sustentabilidade fraca, dentro de uma perspectiva única do PIB.
Desta forma, temos que fomentar uma ruptura transformadora fundada em uma visão da sustentabilidade forte, que seja ancorada na preservação e conservação dos recursos naturais e na proteção dos processos ecológicos, rogando por uma nova relação societária e econômica com a natureza.
Hoje existe um verdadeiro clamor pela mudança e muitos já conseguem visualizar esta transformação em curso, mas a mutação caminha a passos lentos, infelizmente, pois a transformação só pode ser alcançada passo a passo, considerando a complexidade do problema.