Florianópolis conta com três projetos de sucesso nacional como exemplos de iniciativas sustentáveis.
A revolução dos baldinhos promove o tratamento adequado de lixo orgânico, enquanto que o Casa Origem desvia dos aterros sanitários 90% dos resíduos do restaurante, e o Reóleo fez a Capital entrar para o guiness duas vezes como a cidade que mais recicla o material no mundo.
Exemplos de sustentabilidade em Florianópolis – Foto: Arte/NDRevolução dos baldinhos
Um surto de ratos, que levou duas pessoas à morte, no complexo do Monte Cristo, em Florianópolis, fez Eunice Brasil e Roselena Rodrigues criarem a “revolução dos baldinhos”.
O projeto surgiu em 2008 e ganhou esse nome pela intenção de revolucionar a comunidade. Presente nas comunidades Chico Mendes e Nossa Senhora da Glória, visa sensibilizar os moradores sobre a importância da separação de matéria orgânica.
Como consequência, também faz cada um entender seu papel na sociedade.
Antes, os revolucionários passavam de casa em casa, fazendo a coleta dos resíduos. Hoje, o trabalho é feito nos 22 PEVs (Ponto de Entrega Voluntária) espalhados nas comunidades.
“Estamos tirando, por semana, duas a três toneladas de resíduos. É uma quantidade expressiva para a quantidade operacional que temos”, ressalta a atual presidente do projeto, Cintia Cruz, para quem a maior preocupação, em relação ao planeta, é a escassez das nossas riquezas.
“Na minha visão, a natureza deveria ser o governo de fato”.
A revolução dos baldinhos é uma parceria da Frente Temporária de Trabalho, grupo de mulheres que atuava dentro da comunidade onde a Comcap não chegava, e da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).
Qualidade de vida, soberania alimentar e economia circular dentro do bairro também estão no escopo.
Movimento que nasceu nas comunidades Chico Mendes e Nossa Senhora da Glória sensibiliza os moradores para a importância da separação da matéria orgânica – Foto: Divulgação/NDConstrução coletiva
Cintia participa da revolução desde 2010 e defende a importância da construção coletiva. “Não adianta falar da questão do resíduo, sem trabalhar o ser que gera o resíduo. O ser humano precisa ter noção do que consumir e, quando consumir, o que esse consumo tem de impacto”, enfatiza.
Para além do trabalho voltado à sustentabilidade, a revolução consegue captar outras mazelas das comunidades. “Através do monitoramento dos pontos de entrega, entendemos que a fome ainda era muito presente.
Tinha gente que não estava separando, porque não estava sobrando”, conta a presidente.
Aos 34 anos, Cintia se autodenomina “replicadora do saber” e “educadora popular”. Para ela, todo mundo tem conhecimento para repassar. “Nossa maior riqueza é a natureza. Tudo que temos, desde a nossa roupa, alimentação, água para o banho, nossas coisas dentro de casa… Tudo está relacionado com a natureza e ninguém valoriza. Isso é burrice, é irracional na verdade”, afirma a ativista da sustentabilidade.
“Quero ver a comunidade compostando em grande escala”, diz presidente do projeto
Nascida e criada no Monte Cristo, Cintia preside a revolução dos baldinhos desde 2016 e se realiza por conseguir alterar a realidade onde vive.
“O melhor disso tudo é que estou fazendo para os meus, dentro do meu contexto. Isso é o que me dá força. Podemos fazer por nós e, às vezes, até melhor que o sistema. Isso que me deu gás de fazer o que faço hoje, de estar brigando pelo planeta”.
Falando sobre o que espera para o futuro, Cintia diz que quer ver mais gente entendendo a importância da revolução dos baldinhos.
“Que a gente consiga disseminar a gestão dos resíduos em outras realidades e comunidades. Quero ver a comunidade compostando em grande escala, e que a gente consiga, tirando da terra, o nosso alimento. Que a revolução esteja em várias comunidades, dentro dos equipamentos públicos. Que o município faça valer a agenda 2030, Floripa Lixo Zero, e que a gente consiga respeitar o nosso meio ambiente, acima de tudo”, sentencia.
Restaurante Lixo Zero
Em 2015, uma engenheira ambiental, uma geógrafa e um publicitário resolveram empreender, comercializando salada em potes de vidro no sistema delivery.
Desde o início, um projeto sustentável, mas sem pretensão de ser o que é hoje: o restaurante Casa Origem.
O estabelecimento abriu as portas em 2017 em Florianópolis e foi o primeiro do Brasil a ganhar a certificação Lixo Zero, conseguindo desviar dos aterros sanitários 90% dos resíduos totais gerados na casa.
“Apenas 10% dos nossos resíduos vão para os aterros. Dos 90% que desviamos, a maior parte é orgânico, que mandamos para a compostagem. O resto vai para reciclagem”, conta a engenheira ambiental Alexandra Lemos.
Natural de São Paulo, ela é amiga do casal manezinho Arthur Ferreira dos Santos – o publicitário – e Joana Wosgrau Câmara – a geógrafa.
A geógrafa Joana Wosgraus Câmara, a engenheira ambiental Alexandra Lemos e o publicitário Arthur Ferreira dos Santos se uniram em torno do projeto sustentável que ganhou a certificação de primeiro restaurante Lixo Zero do Brasil – Foto: Divulgação/NDEm pouco mais de seis anos, desde a fundação, a Casa Origem é pioneira em termos de sustentabilidade na área de alimentação. Um restaurante educativo e socialmente participativo.
“Estamos sempre envolvidos nas questões de sociedade e meio ambiente. Dificilmente um restaurante trabalha com a quantidade de produtos orgânicos locais como nós”, ressalta Ale.
E a vizinhança também é impactada. “Mostramos a importância da compostagem para eles, disponibilizando duas bombonas para deixarem os resíduos orgânicos”, registra a empresária.
“Para termos um planeta com a espécie humana, precisamos de uma mudança muito rápida e isso só é possível coletivamente: iniciativa pública, privada e civil trabalhando junto”, reforça.
Filhos de uma geração um pouco mais consciente – todos na casa dos 30 – o trio à frente da Casa Origem fez questão de trazer seus valores pessoais para a vida profissional. O resultado é um trabalho de sucesso, que ajuda a diminuir os danos no planeta.
Água e óleo não se misturam
“Óleo, reóleo, óleo, reóleo, se você quer ser consciente, não jogue o óleo na pia. Isto entope o cano, polui mares, rios e a vida. Coloque seu óleo usado numa garrafa pet, no posto reóleo recolhe e a natureza agradece. Óleo, reóleo, óleo, reóleo…” Essa foi a canção que o economista carioca Luiz Falcão criou para explicar o ReÓleo, programa que reduz o impacto do óleo de cozinha no meio ambiente, conscientizando a população sobre o descarte adequado.
Falcão tem 74 anos, 47 deles na Ilha e 30 desenvolvendo palestras sobre o uso racional de energia elétrica na Eletrosul. Em 2011, depois de muito serviço prestado na área, veio o convite da Acif (Associação Empresarial de Florianópolis) para dirigir o ReÓleo.
Criado em 1998, o programa ganhou novos ares com Falcão e colocou Florianópolis duas vezes no Guinness, em 2012 e 2015, como a cidade que mais recicla óleo de cozinha no mundo.
“A educação ambiental é fundamental para que as pessoas sejam mais conscientes não só sobre sustentabilidade, mas a importância na construção de um futuro mais limpo para as futuras gerações. Isso só é possível com a adoção de práticas corretas e o incentivo ao uso moderado dos recursos naturais”, enfatiza Falcão.
O ReÓleo promove educação ambiental nas escolas e comunidades, ajuda a preservar os recursos hídricos, os ecossistemas e reduz a quantidade de gordura no sistema de coleta e tratamento de esgoto.
Desde a criação, o programa arrecadou mais de 5 milhões de litros de óleo de cozinha, que seriam jogados na natureza, poupando mais de 5 trilhões de litros de água e impactando 59 mil pessoas.
Apaixonado pelo trabalho, Falcão fala do orgulho de fazer parte da história do ReÓleo. “Você se sente útil, atuante, participativo e isso, na vida do ser humano, é fundamental. Você tem que objetivar deixar alguma coisa”, afirma o ativista do meio ambiente.
Foto do projeto de antes da pandemia mostra doação de óleo – Foto: ReÓleo Festival/Divulgação/ND