Em meio a tensão na mata, Bruno Pereira emociona com canto indígena; entenda o significado

Durante expedição na mata, indigenista cantou ao povo Ticuna para tranquilizar em momento de tensão; Dom Phillips também estava neste momento

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Redação ND Itajaí

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O indigenista Bruno Pereira segue vivo na memória das comunidades indígenas do Amazonas, recentemente um vídeo no qual ele aparece sentado em meio a mata, acalmando índios do povo Ticuna com um canto indígena repercutiu na internet.

O canto se chama “Wahanararai”, no vídeo, Bruno está sentado com o semblante sereno cantando para o povo que o acompanha na canção. O jornalista britânico Dom Phillips também estava na expedição. Bruno e Dom foram mortos brutalmente durante uma emboscada no último dia 5 de junho.

Bruno Pereira canta ao povo Ticuna em meio a tensão na mata – Foto: Reprodução/InternetBruno Pereira canta ao povo Ticuna em meio a tensão na mata – Foto: Reprodução/Internet

Acompanhado pelos Tukuna (ou Kanamari), povo que habita toda porção ocidental da Amazônia brasileira, Bruno tinha uma ligação extremamente próxima a este grupo por conta de sua atuação na Funai (Fundação Nacional do índio), frente a terra do Vale do Javari.

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Durante o cântico, Bruno e o grupo passavam por um momento de dificuldade da mata, foi quando o ambientalista começou a entoar a canção. Após a repercussão do vídeo, a Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari) deseja fazer a tradução da música, o que é algo delicado.

“Esta tradução está sendo uma coisa muito delicada, porque tem palavras que possuem vários significados e é necessário levar esse canto para um ancião traduzir para o português. Os Kanamaris mais antigos estão traduzindo a música para o português e tão logo fique pronta vamos divulgar na íntegra”, explicou o assessor jurídico da Univaja, Yura Marubo, ao site do jornal A Crítica, de Manaus.

Nas análises primárias, Aldair Kanamary explica que a canção conta a história de uma mãe arara chamando seus filhotes na porta do ninho para lhes dar comida no bico. Contudo, uma tradução mais precisa e detalhada deve ser divulgada oficialmente pela Univaja.

O indigenista Ricardo Henrique Rao, que foi exilado após sofrer perseguição pela defesa dos povos indígenas no Maranhão, contou que Bruno era uma referência para os profissionais da Funai.

“Era um modelo para todos nós indigenistas idealistas. O Bruno é um exemplo disso que estou te falando. Era 24 horas dedicado ao indigenismo. O Bruno pediu essa licença para se preservar do assédio laboral que iam arrumar pra cima dele”, disse ao Sul21.

Investigação

A lancha na qual o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips viajavam quando foram emboscados e mortos, no dia 5 de junho, foi localizada a cerca de 20 metros de profundidade no Rio do Itacoaí, próximo à comunidade Cachoeira (AM), no último domingo (18).

Segundo a Polícia Civil do Amazonas, o peso de ao menos seis sacos de areia presos à lancha a impediam de vir à tona, para que não fosse encontrada.

Junto à embarcação foram encontrados um motor de 40 hp e quatro tambores que eram usados por Bruno, conforme explicou o delegado Alex Perez, da 50ª Delegacia Interativa de Polícia de Atalaia do Norte (AM).

O local exato onde a lancha foi encontrada foi indicado por Jeferson da Silva Lima. Conhecido por Pelado da Dinha, Lima foi detido no último sábado (18), pela suspeita de envolvimento com os assassinatos de Bruno e Dom, cujos restos mortais foram resgatados no dia 15.

Dom Philips estava com Bruno durante momento de tensão na mata. (Photo by Joao LAET / AFP) – Foto: João Laet/AFP/NDDom Philips estava com Bruno durante momento de tensão na mata. (Photo by Joao LAET / AFP) – Foto: João Laet/AFP/ND

O local onde estavam enterrados os “remanescentes humanos” – conforme designação das forças de segurança – foi revelado pelo pescador Amarildo da Costa Oliveira.

Conhecido como Pelado, Oliveira foi o primeiro suspeito detido por participação no crime e, segundo a Polícia Federal, confessou a participação no desaparecimento do indigenista e do jornalista britânico. Os restos mortais estavam enterrados em uma área de mata fechada, a cerca de três quilômetros da calha do Rio Itacoaí.

O segundo suspeito, detido em caráter temporário no último dia 14, é Oseney da Costa de Oliveira, conhecido como Dos Santos.

Além dos três suspeitos já detidos, a PF informou, ontem (19), que apura a participação de outras cinco pessoas na ocultação dos corpos. As investigações continuam para tentar esclarecer as causas dos assassinatos e se há outras pessoas envolvidas.

A PF já antecipou que, até o momento, não há indícios de que o crime tenha sido encomendado, e que os criminosos teriam agido por iniciativa própria.

Em nota, a Univaja discordou da conclusão da PF. A entidade – para a qual Bruno prestava serviços desde que se licenciou, sem vencimentos, do seu cargo na Funai (Fundação Nacional do Índio) – afirma ter repassado informações sobre organizações criminosas que atuariam na região e que poderiam ser as responsáveis pelas mortes do indigenista e do jornalista. No documento, a Unijava solicita que as investigações continuem e nenhuma hipótese seja descartada.

“Exigimos a continuidade e o aprofundamento das investigações. Exigimos que a PF considere as informações qualificadas que já repassamos a eles em nossos ofícios. Só assim teremos a oportunidade de viver em paz novamente em nosso território, o Vale do Javari”, diz a nota.

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