Entenda como são feitos os testes que determinam a balneabilidade das praias de Santa Catarina

18/01/2023 às 04h30

Em Florianópolis, uma dupla de guarda-vidas coleta amostras em 87 pontos das praias, de segunda a quarta-feira e, depois, entrega o material para análise do IMA-SC

Nícolas Horácio Florianópolis

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Acordar entre 4h e 5h, rodar 400 a 500 quilômetros por semana na Ilha e entrar em 87 locais das praias de Florianópolis para coletar amostras d’água. Essa é a rotina de dois guarda-vidas do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina que, em parceria com o IMA (Instituto do Meio Ambiente) de Santa Catarina participam das análises que atestam se as praias da Capital estão próprias ou impróprias para banho.

Os guarda-vidas Rodrigo Martins e Felipe Marques – Foto: Leo Munhoz/NDOs guarda-vidas Rodrigo Martins e Felipe Marques – Foto: Leo Munhoz/ND

As placas que indicam que determinada praia está imprópria para banho não são proibitivas, mas um alerta para o risco de uma possível contaminação pela água de qualidade duvidosa. A reportagem do ND acompanhou o trabalho de uma equipe nesta segunda-feira.

A tarefa dos guarda-vidas Felipe Marques e Rodrigo Martins é árdua. Às segundas-feiras eles fazem a rota Norte, passando em 38 pontos de coleta. Começam no Santinho, às 6h30, e percorrem as demais praias da região, como Canasvieiras, onde está o rio do Brás que, poluído, leva impurezas para a praia.

O trabalho termina por volta das 12h, quando as amostras coletadas são deixadas no laboratório do IMA. No dia seguinte, eles retomam a missão fazendo a rota Sul, que tem 27 pontos e, na quarta-feira, a rota do Continente, com 22 pontos.

Felipe retornando da água após coleta – Foto: Leo Munhoz/NDFelipe retornando da água após coleta – Foto: Leo Munhoz/ND

Dessa forma, o IMA tem todas as amostras para analisar, em laboratório, qual a condição de balneabilidade das praias de Florianópolis. O mesmo trabalho é feito por outros profissionais em mais 26 cidades catarinenses e, assim, toda sexta-feira, o IMA atualiza o relatório de balneabilidade de todo Estado.

No mais recente, atualizado em 12 de janeiro, dos 87 pontos da Capital, 41 estão adequados para os banhistas, ou seja, 47,13% do total. Houve uma pequena melhora em relação a duas semanas, quando 34 pontos estavam em condições de receber os banhistas, ou seja, 39,08% do total.

Na coleta realizada segunda-feira (16), um turista argentino, o mecânico Edgardo Orcesi, movido pela curiosidade, abordou os guarda-vidas.

O turista Edgardo Orcesi da Argentina – Foto: Leo Munhoz/NDO turista Edgardo Orcesi da Argentina – Foto: Leo Munhoz/ND

“Perguntei que contaminação tinha na água, como estava e ele explicou que o problema é quando chove”, conta. Receoso, o “hermano” que disse visitar Canasvieiras há sete temporadas disse que não teve coragem de mergulhar na praia, com medo de adquirir alguma doença.

Hostilidade contra as placas

Embora prestem um serviço da mais alta relevância para atestar a qualidade das praias da Ilha, Felipe e Rodrigo são hostilizados em alguns casos. Eles contam, ainda, que em alguns pontos os comerciantes, indignados com as praias poluídas, removem as placas para que a condição de impropriedade não afaste os turistas.

Guarda-vidas colocando adesivo de praia imprópria – Foto: Leo Munhoz/NDGuarda-vidas colocando adesivo de praia imprópria – Foto: Leo Munhoz/ND

“Normalmente, retiram os adesivos quando a praia está imprópria, então, se você observar uma placa sem adesivo, é bom suspeitar. Quando dá impróprio por várias semanas seguidas, eles arrancam a placa inteira, como em Jurerê, que arrancaram nos pontos 53 e 85. Nesses casos, registramos na planilha e o IMA verifica, posteriormente, e coloca a placa no local adequado”, afirma Rodrigo.

Quem faz o quê

Rodrigo e Felipe revezam as tarefas, mas, nesta semana Felipe foi o responsável por entrar na água até cerca de um metro, romper o lacre do frasco de coleta, mergulhá-lo a uma profundidade de 15 a 30 centímetros fazer a coleta e fechar o frasco.

Além disso, ele mede a temperatura da água e, ao retornar para a areia, armazena o material numa caixa térmica para mantê-lo numa temperatura de 2º C a 8º C até a entrega para o laboratório.

Amostra de água do Rio do Brás – Foto: Leo Munhoz/NDAmostra de água do Rio do Brás – Foto: Leo Munhoz/ND

Quem não está na função de coletar as amostras, além de dirigir o carro que transporta os dois para os diferentes pontos tem que fazer uma série de tarefas na areia. Nesta semana, a missão é do Rodrigo.

“Tenho que ver os pontos que vamos passar e pego as informações externas da coleta, como temperatura, vento, maré, se choveu nas últimas 24 horas e a intensidade da chuva. Também anoto a temperatura da água e registro tudo numa planilha para mandar o maior número de informações para o laboratório”, conta Rodrigo.

Ponto de praia imprópria perto do trapiche de Canasvieiras – Foto: Leo Munhoz/NDPonto de praia imprópria perto do trapiche de Canasvieiras – Foto: Leo Munhoz/ND

Os pontos estão todos pré-determinados, mas o roteiro pode ser alterado conforme o trânsito no dia. “A coleta é sempre em frente às placas que indicam se a praia é própria ou imprópria. Às vezes, o IMA solicita outros pontos, como agora, que fizemos a coleta no Rio do Brás. Além disso, sempre às sexta-feiras, fazemos as trocas de placa”, revela Rodrigo mencionando a troca de adesivos quando uma praia vai do próprio para o impróprio e vice-versa.

Equipe do IMA é responsável pela análise da balneabilidade em laboratório

Enquanto os guarda-vidas dos bombeiros fazem a coleta ponto a ponto nas praias de Florianópolis, o IMA vai recebendo as amostras e realiza o trabalho de análise do material coletado. Um local é considerado próprio quando em 80% ou mais de um conjunto de amostras obtidas em cada uma das cinco semanas anteriores, houver, no máximo 800 Escherichia coli por 100 mililitros.

Por outro lado, é considerado impróprio, quando o trecho avaliado não atende aos critérios estabelecidos para as águas próprias, ou quando o valor obtido na última amostragem for superior a 2.000 Escherichia coli por 100 mililitros.

A química Bianca Schveitzer no laboratório do IMA-SC – Foto: Leo Munhoz/NDA química Bianca Schveitzer no laboratório do IMA-SC – Foto: Leo Munhoz/ND

“A amostra chega no laboratório e diluímos 10 ml em 90 ml de água e inserimos um produto que serve para a bactéria se desenvolver. Depois, colocamos numa cartela e essa amostra se subdivide em celas, dificultando o desenvolvimento da bactéria. As cartelas ficam 18 horas incubadas e, após esse tempo, fazemos a leitura. Quando na câmara de leitura aparece a fluorescência, é uma evidência da presença da Escherichia coli”, ressaltou o gerente de laboratório e medições ambientais do IMA, Marlon Daniel da Silva.

Na visão dele, o que traz a Escherichia coli para as praias de Florianópolis, basicamente, são os problemas de saneamento.

“Essa chuvarada que tivemos do Natal para o Ano-Novo descortinou a situação frágil do saneamento básico. A chuva potencializa a impropriedade, mas é necessário que o município tome medidas para a melhoria do saneamento, melhoria das redes e da fiscalização dessas redes, também das estações e no município onde não existe rede, fiscalização de fossas, filtros e sumidouros, objetivando a melhora do saneamento básico”, ponderou Daniel.

Palhoça bonita no monitoramento

Se por um lado algumas cidades sofrem com a maioria das suas praias impróprias para o banho, como é o caso de Bombinhas, onde há coleta em nove pontos e sete estão impróprios, em Palhoça a situação serve de exemplo.

O município tem coleta em oito pontos e todos estão próprios. O balneário mais concorrido da cidade recebeu o selo de “próprio para banho” em todas as coletas realizadas desde o começo da temporada, no dia 13 de dezembro.

O mesmo ocorreu na praia do Sonho e na Pinheira. De acordo com o prefeito de Palhoça, Eduardo Freccia, a Fcam (Fundação Cambirela do Meio Ambiente) realiza fiscalização periódica, “ações de caráter pedagógico e informativo indicando a necessidade das residências em adotarem sistemas de tratamento de efluentes e, também, emitindo autos de infração ambiental nos casos constatados de forma específica”.

Contaminação por Escherichia coli pode ser fatal

Praia limpa e própria para banho é sinônimo de saúde. Conforme a infectologista Renata Zomer, embora a Escherichia coli seja uma bactéria presente no intestino humano, pode ocasionar uma série de doenças. A contaminação ocorre de diversas maneiras:

alimentos mal higienizados, mãos não lavadas, água contaminada. “Por exemplo, uma pessoa infectada não lavou bem as mãos e não higienizou bem os alimentos e uma outra pessoa que ingeriu esse alimento infectado ou contaminado pode adoecer”, explicou.

Em relação às doenças, Renata disse que a Escherichia coli pode causar gastroenterites, como diarreia e vômito, além de infecção urinária e meningite neonatal. Além disso, a bactéria pode causar infecção generalizada (septicemia).

Renata Zomer é médica infectologista – Foto: Leo Munhoz/NDRenata Zomer é médica infectologista – Foto: Leo Munhoz/ND

“O tratamento, se diagnosticada gastroenterite infecciosa, ou infecção urinária pela Escherichia coli, é antibiótico, repouso, muita hidratação com água filtrada ou fervida, boa alimentação, frutas, legumes e verduras bem lavados”, frisou.

A infectologista alerta que a contaminação pode ser fatal. “Quem não se tratar pode não se curar e até evoluir para uma forma mais grave, inclusive a morte. Não é tão comum, mas um paciente com infecção generalizada por Escherichia coli pode morrer, sim”.

Praia de Canasvieiras, Jurerê e Ingleses apresentam melhora

Dos 22 pontos analisados nas praias de Canasvieiras, Jurerê e Ingleses, pelo Instituto de Meio Ambiente, 21 apresentaram resultado abaixo do estabelecido pela legislação, ou seja, balneáveis. Essa é a segunda semana consecutiva com resultados positivos nas praias do Norte da Ilha.

No entanto, para se tornarem todos próprios oficialmente, é preciso mais dois resultados positivos, de acordo com a resolução do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente).

A Prefeitura de Florianópolis alerta para que os banhistas se atentem para as placas do IMA que apontam se a praia está própria ou imprópria.