Não é de hoje que a invasão de abelhas causa pânico em alguns moradores de Joinville, no Norte de Santa Catarina. O Grupo ND recebeu um relato sobre uma recente invasão e conversou com os moradores. Aconteceu nesta quarta-feira, dia 22, no bairro Costa e Silva, zona Industrial Norte da cidade.
No mês passado, segundo a Associação, foram cerca de cem chamados relacionados à retirada de abelhas/vespas ou marimbondos em Joinville. – Foto: Pixabay/Divulgação NDDe acordo com a moradora da rua das Domésticas, bairro Costa e Silva, que prefere não se identificar, nesta quarta-feira pela manhã ela percebeu algumas abelhas dentro de casa. Percebeu que havia uma colher com um restinho de mel. Daí lavou a lavou a colher e decidiu levar a colher até a garagem a fim de retirar as abelhas de dentro de casa.
A moradora, então, deixou a colher em cima de uma mesa na garagem. Nisso, percebeu que foi aumentando o número de abelhas na garagem.
Seguir“À tarde, havia milhares de abelhas em volta da colher. Imediatamente, fechamos janelas e portas e recolhemos os cachorros”, conta dizendo que ficou apavorada.
A família, então, ligou para o Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville, que não presta mais o serviço de extermínio de abelhas, uma vez que é crime ambiental previsto em lei.
“Anos atrás realizávamos esse serviço, contudo não no sentido de manejo e realocação de enxames de abelhas, mas limitando-nos ao mero extermínio dos enxames quando éramos acionados através da Central de Emergências (193). Nunca tivemos profissionais com capacitação adequada ou material e equipamentos apropriados para atividades de manejo e realocação dos enxames. Quando nos foi dada ciência, através da entidade de apicultura Apiville de que o extermínio de abelhas se tipificaria como crime ambiental, por estarem sendo incluídas entre as espécies correndo risco de extinção, deixamos de atender a essas solicitações e passamos a orientar nossos atendentes na Central de Emergências para encaminharem todas as solicitações para a Apiville, que detém o conhecimento e o ferramental necessário, a fim de que esta proceda com a remoção e manejo, da forma legalmente autorizada”, escreveu o comando dos Bombeiros à 21ª Promotoria de Justiça de Joinville em 22 de abril deste ano.
Com a negativa, a moradora ligou para Associação dos Apicultores de Joinville (Apiville), que acionou um grupo de técnicos capacitados para fazer o serviço. No entanto, esses técnicos cobram cerca de R$ 300 reais pelo trabalho, até porque precisam de ferramental especial, além de treinamento.
Enxame de abelhas – Foto: Gabriela Pereira Santana/Reprodução/NDA Apiville, de fato, centraliza todos esses chamados, e encaminha as solicitações para um grupo de whatsapp onde há vários técnicos que receberam treinamento. Assim com os apicultores, esses técnicos são associados e pagam anuidade normalmente.
No primeiro ano de registros, a Apiville recebeu 478 chamados de ocorrências de enxames de abelhas, vespas e marimbondos no município e repassou ao grupo de apicultores.
No segundo ano, este número saltou para 716 chamados. Somente no mês de abril de 2022, foram registrados 154 chamados (média acima de 5 ocorrências/dia), sendo 18 destas ocorrências em órgãos e locais públicos. Só no mês passado, foram cerca de cem chamados. Esses pedidos de socorro são desde invasão desses bichos, ataques, até colmeia que se forma no telhado, entre outros…
O fato, entretanto, é que a família do Costa e Silva não tinha dinheiro nem tem R$ 300 reais para poder pagar um técnico que faça a remoção.
“Ficamos realmente apavorados, um sentimento de pânico, sem saber o que fazer e sem ninguém para ajudar. Poderíamos ter morrido. Fechamos toda a casa. Mas antes, tive de me arriscar ir no meio das abelhas salvar os cachorros. Também decidi pegar um favo de mel que tinha na geladeira e levar lá no quintal nos fundos para tentar atrair as abelhas para lá e tirá-las da garagem”, continua a moradora, que já perdeu um avó por causa de ataque de abelhas.
Nesta quinta-feira, dia 23, já havia bem menos abelhas na propriedade, atestou a moradora.
“Hoje (quinta) tem bem menos, mas ainda tem e estamos com medo. Afinal, já perdi meu avó por picada de abelhas. Tenho filho em casa e nessas horas a gente precisa saber a quem podemos recorrer”, suplica a moradora, que chegou a procurar a Defesa Civil de Joinville.
Abelhas – Foto: Pixabay/Divulgação NDProjeto tramita na Câmara
Na Câmara de Vereadores de Joinville tramita, desde 2021, um projeto de lei do vereador Nado (PROS) que dispõe sobre a remoção de colmeias de abelhas e vespas.
Segundo a proposta, as colmeias de abelhas e de vespas instaladas em locais públicos ou privados em Joinville em situações em que haja risco à saúde e/ou à vida de pessoas ou animais deverão ser adequadamente removidas e recolocadas na natureza, em conformidade com as recomendações técnicas competentes. E quem ficará responsável por essa remoção é o órgão ambiental municipal competente, no caso a Sama.
“Para fins de remoção das colmeias de abelhas e de vespas, deverá ser comunicado o órgão ambiental municipal competente, que efetuará os procedimentos necessários”, diz o projeto, que ainda não foi à votação. Está na Comissão de Urbanismo, aguardando parecer do vereador Sidnei Sabel.
Acrescentou, inclusive, que o município poderá firmar convênio com o Corpo de Bombeiros ou entidades privadas, desde que não haja custos para o munícipe.
Como justificativa, o vereador aponta a segurança das pessoas e o fato de que, por medo, as pessoas acabam queimando as colmeias de abelhas, o que é proibido por lei. “Por isso, com este projeto, pretende-se salvaguardar a segurança da população em geral, por meio da captura adequada dessas colmeias.”
Sobre a migração das abelhas
A própria Associação dos Apicultores admitiu que muitas famílias passam por essa situação e precisam de um suporte, um socorro. Até escolas já ligaram procurando ajuda por causa da invasão de abelhas.
“Estamos no período de entressafra onde há grande escassez de florada e alimentos na natureza para as abelhas. Pela quantidade de ocorrências, percebe-se que há muitos enxames em meio urbano, nas matas, ocos de telhados e paredes, móveis e terrenos abandonados. As abelhas voam num raio de até 3 km em busca de alimento”, explica Vilson Witt, presidente da Apiville.
Ele ensina, também, que pelo comportamento usual das abelhas, o natural seria haver enxameações no final da primavera pelo instinto de multiplicação das colmeias onde há oferta de florada, crescimento dos enxames e falta de espaço nos ninhos.
“Uma parte permanece no local e outra parte migra em busca de nova morada e no outono/inverno onde, por falta de alimento, todo o enxame abandona o local antigo e migra em busca de melhores condições. Pode ser que isso continue ocorrendo na natureza. Mas em meio urbano a quantidade de chamados não segue essa regra”, complementa Witt, justificando que não há um padrão nas ocorrências entre um ano e outro.
Prevenção
Witt faz questão de alertar que os moradores podem e devem ajudar a evitar essas invasões de abelhas. Uma forma de prevenção é não deixar um pote de mel aberto, por exemplo. “Com um pote de mel aberto, as abelhas operárias invadem a casa para pilhar o alimento. Então, às vezes, por descuido ou falta de conhecimento, os próprios moradores causam esse tipo de problema”, avisou o presidente da Associação.
O que diz a Prefeitura de Joinville
“A Prefeitura de Joinville esclarece que não realiza a remoção das abelhas em caso de invasão em imóveis particulares. A orientação é que o morador contrate um especialista no manejo dos animais e que tenha a competência técnica para a realização deste serviço.”