Há uma década, 2022 era vislumbrado como o ano em que Florianópolis estaria livre das suas três principais espécies invasoras – eucalipto, pinus e casuarina. Substituídas pelas nativas, a Capital avançaria na recuperação da sua paisagem natural, suprimindo uma das principais ameaças à biodiversidade. Próximo do prazo estabelecido em lei, entretanto, o cenário é bem mais incipiente.
Florianópolis está longe de cumprir metas para eliminar espécies invasoras – Foto: Leo Munhoz/NDPelo menos sete regiões enfrentam proliferações críticas, detalha Cid Neto, chefe da Divisão de Implantação e Manejo das Unidades de Conservação, da Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis). Dentre elas, o Parque Estadual do Rio Vermelho, os morros do Saco Grande, João Paulo, Cacupé, Lagoa da Conceição, Costa da Lagoa e o Monumento Municipal da Galheta.
Hoje, os trabalhos da Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente) são feitos principalmente por meio das compensações ambientais, e não de forma sistemática.
SeguirEm abril de 2020, estava prevista a conclusão do mapeamento da proliferação na cidade, assim como o início da fiscalização para a retirada das espécies em terrenos privados e notificação às pessoas que ainda têm espécies invasoras em seu terreno.
As metas ainda não foram cumpridas. A pandemia é um dos fatores que atrasaram os trabalhos, segundo a Fundação.
Combate estratégico
Os prazos são previstos pela principal lei referente ao combate das espécies invasoras no município – lei nº 9097, publicada em 2012 e regulamentada seis anos depois, o que contribuiu com a aceleração das remoções. As novas normas refletem o avanço científico quanto a compreensão sobre as invasoras.
Inseridas em Florianópolis a partir da década de 60, como um experimento para conter o avanço das dunas, as espécies são hoje uma praga. Se proliferam drasticamente, afastam animais, desequilibram o meio ambiente, tomam o espaço e impedem que nativas cresçam.
A paisagem acaba sendo tomada apenas pela invasora, o que provoca desde prejuízos ambientais até turísticos, ao remover a beleza natural.
Devido à alta proliferação, a contenção depende de um trabalho estratégico. Florianópolis ainda não tem o Plano de Ação Integrada, outro instrumento previsto pela lei, que define as estratégias para a remoção em toda a cidade, a curto, médio e longo prazo. A conclusão ainda depende do mapeamento das áreas de concentração na Capital.
Contrastes
“Para alguns casos, como na Lagoinha do Leste, onde a manifestação é pontual, hierarquizamos os setores e atacamos de modo que diminuiu a abrangência das exóticas”, explica Neto. Ele estima que entre 5% a 10% da Unidade de Conservação é ocupada por invasoras.
O exemplo mais bem sucedido na cidade foi registrado nas dunas da Lagoa da Conceição. Em um projeto que começou em 2010, voluntários do Instituto Hórus e da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) conseguiram retirar mais de 300 mil pinus no local, revertendo o processo de invasão.
A situação é oposta, por exemplo, no Monumento Municipal da Galheta, onde cerca de metade do local é ocupado pelas espécies. Lá a retirada é feita em conjunto com o IMMA (Instituto Multidisciplinar de Meio Ambiente e Arqueoastronomia), também autorizada para a remoção.
Apesar dos esforços, a remoção não acompanha a proliferação das invasoras. “Atacamos de um lado, mas as invasoras ‘enchem de filhotes’ no outro. Precisaria de uma ação mais efetiva. Se olhar bem a fundo, elas estão ganhando espaço. Precisamos de uma estratégia técnica de aceleração, para atacar os focos corretos e melhor agir”.
Os trabalhos são feitos de forma gradativa. Atualmente a Floram realiza remoções no Monumento Natural Municipal da Galheta e no Parque Municipal da Lagoa do Peri.
Remoção no Rio Vermelho
Ainda em 2022, está previsto o início da remoção das espécies invasoras no Parque Estadual do Rio Vermelho – onde a proliferação teve início em Florianópolis, com os experimento do professor Henrique Berenhauser.
Fora as três espécies cuja remoção está prevista pela lei municipal, o Parque enfrenta a proliferação da brachylaena discolor, advinda da África do Sul e que se prolifera de forma violenta no local.
A remoção no Parque é planejada há alguns anos, mas esbarra no problema logístico. Dos seus 1542 hectares, cerca de 30% estão ocupados por espécies invasoras, conforme as estimativas do Plano de Manejo do Parque publicado em dezembro de 2020.
Os trabalhos são feitos de forma gradativa. Atualmente a Floram realiza remoções no Monumento Natural Municipal da Galheta e no Parque Municipal da Lagoa do Peri – Foto: Leo Munhoz/ND“O maior impacto é o transporte de madeira. O único acesso é pela Lagoa da Conceição ou pelos Ingleses, o que requer todo um cuidado com as estradas, a mobilidade e a segurança”, explica Adriana Nunes, Coordenadora do Parque. São cerca de 462 campos de futebol de invasoras que devem ser removidas e retiradas no local.
O IMA (Instituto do Meio Ambiente) atualmente conclui os estudos referentes ao número de indivíduos presentes no Parque. Em seguida, será formada a Comissão para coordenar a remoção e venda da madeira retirada.