Cidades inundadas ou em chamas, com novas favelas se formando da noite para o dia, têm impacto tão gritante que não dá mais pra dizer que sustentabilidade é só coisa da área da ecologia.
De acordo com a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o foco é em quatro dimensões: ambiental, social, econômica e, mais recentemente, cultural. Como Florianópolis está em cada uma delas?
Florianópolis do futuro poderá ter vários centros urbanos, no Sul, no Norte e no Continente – Foto: Cristiano Estrela/Secom“Estamos bem no início, temos que reconhecer isso. Um dos problemas nevrálgicos é o saneamento básico. Enquanto Floripa não tiver 100% do esgoto tratado, não dá para dizer que é uma cidade sustentável.”
A avaliação é do professor Neri dos Santos, engenheiro e docente aposentado da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).
Sobre as iniciativas sustentáveis já em andamento em Florianópolis, ele é enfático. “São iniciativas, mas as ‘acabativas’ ainda estão longe”.
O bom-humor não esmaece a crítica sobre ações pontuais que não alcançam a dimensão de política pública, necessária para conferir a Florianópolis o almejado status de cidade sustentável.
Na prática, o que se defende são políticas de incentivo, como por exemplo, o crédito de carbono. “Seria um bônus em forma de moeda virtual a ser conferido a quem trocar o carro por bicicleta, em paralelo à implantação de um sistema cicloviário mais seguro”, explica.
A avaliação se estende às práticas de coleta de lixo. “As iniciativas atuais são boas, mas enquanto não houver coleta eficaz e eficiente, não resolve”.
O mesmo se diz das chamadas Escolas do Futuro, as escolas em tempo integral com ensino digital oferecidas a partir de 2019 pela rede municipal de ensino. “São todas iniciativas modestas”, conclui.
Biosfera urbana e o caminho para a sustentabilidade
O que se quer para Floripa no futuro? Que em 2050 seja uma cidade policentrada, ou seja, com vários centros urbanos dentro do município: no Sul da Ilha, no Norte, no Continente, na região da Trindade, entre outras regiões. Para isso, a aposta é na verticalização, o que permitirá reduzir áreas ocupadas e delimitar áreas de proteção total.
É esse conceito, o de biosfera urbana, que está norteando a Agenda 2030-2040-50, em elaboração pelo FloripAmanhã.
A entidade da sociedade civil ligada ao Movimento Floripa Sustentável está fazendo um back casting, ou seja, desenhando a cidade almejada no futuro e trazendo para trás, até 2021, para orientar quais decisões precisam ser tomadas agora para se alcançar sustentabilidade até 2050.
Até o final deste ano deve ser entregue a agenda das próximas três décadas, definindo projetos estruturantes nas áreas de infraestrutura e mobilidade, social, ambiental, econômica e cultural para Florianópolis.
“Olhando para a terceira década do século 21, eu diria que o mais importante é aumentar a inclusão social, passando pela inclusão digital.
E a questão habitacional, pois em Florianópolis estamos vendo um aumento populacional de baixa renda sem políticas públicas de habitação. São grandes desafios”, enumera o professor Neri, que também é membro da entidade.
Movimentos sociais focados em integrar poder público e sociedade na Agenda 2030
Quando começou a dar palestras, o consultor em desenvolvimento sustentável Fernando Barbosa costumava encontrar um público achando que ele plantaria uma árvore.
Hoje, diz que as pessoas e as empresas já estão abertas ao tema, mas reclama do distanciamento do poder público.
“Nossos esforços têm sido para trazer os entes públicos para dentro da Agenda 2030, criando diálogo com governos e Poderes. Temos desafios grandes para vencer nos próximos nove anos. A principal tarefa é conseguir que todos integrem essa engrenagem, pois os objetivos estão cada vez mais a curto prazo”, conta.
Fernando faz parte do movimento nacional ODS SC, que tem se dedicado aqui no Estado a facilitar a incorporação no dia a dia dos 16 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
A lista compõe a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, aprovada pelos países membros da ONU em 2015.
Ele alerta para o equívoco de delegar a conscientização às futuras gerações.
“Se pensarmos só nas crianças, elas pegarão uma sociedade completamente devastada, precisamos agir hoje para garantir nossa continuidade como civilização que possa progredir e prosperar”.