A balneabilidade em praias é um problema em 31,04% das águas de Florianópolis. Nesta sexta-feira (19), 27 pontos possuíam concentração de bactérias acima do recomendado, 15 locais a mais que o relatório anterior. Os dados são do IMA (Instituto do Meio Ambiente do Estado de Santa Catarina) .
Última pesquisa de balneabilidade do IMA mostra que Florianópolis passou de 12 para 27 pontos com água imprópria para banho – Foto: Leo Munhoz/ND“A água imprópria para banho afeta Canasvieiras há pelo menos 30 anos”, relata o pescador Rivelino Bastos, de 51 anos, nascido e criado no bairro. Ele conta que o cheiro de esgoto, já perceptível na entrada da praia em frente à rua Acary Margarida, é constante no pequeno rio que desemboca no mar e esse cheiro aumenta com o verão.
Valdir Dias Maurício, 66 anos, mora no bairro há 30 anos e não toma mais banho de mar próximo a sua casa. Hoje ele prefere se deslocar para outras praias por causa dos riscos de se banhar onde a placa sugere local impróprio.
Seguir“Aqui nessa região tem muita saída de água pluvial e muitas residências não possuem tratamento de esgoto na rede e vai tudo para o mar. É recorrente, por isso acabo indo para a Lagoinha, Brava ou Jurerê”, diz.
Morador da ilha há dois meses, Ailton Bertão Júnior, 52 anos, relata que não sabia do problema no local enquanto tirava a areia da bicicleta que usa para passear na praia.
“Tomo banho por aqui quase todo dia e, quando conversei com alguns vizinhos, me passaram que era um problema em toda a extensão da praia, não nesse trecho”, conta Ailton.
Como é feita a análise?
A análise da existência de esgoto é feita por meio da contagem da bactéria Escherichia Coli presente nas fezes de animais. Para que um balneário seja considerado impróprio para banho é necessário que em mais de 20% das amostras coletadas nas cinco semanas anteriores, a quantidade dessa bactéria seja superior a 800 por 100 mililitros.
O pescador Rivelino olha para o mar no Bairro onde cresceu – Foto: Leo Munhoz/NDCaso o resultado for superior a 2000 Escherichia Coli por 100ml na última coleta, também é considerado impróprio.
Para que um ponto volte a ser considerado balneável, a quantidade de Escherichia Coli deve estar abaixo de 800 por 100ml em 80% ou mais das coletas nas cinco semanas seguintes.
Fiscalização precisa ser mais efetiva
O presidente da Acesa (Associação Catarinense de Engenheiros Sanitaristas e Ambientais), Vinicius Ragghianti, explica que as chuvas costumam causar esse impacto nos mares com grandes populações.
“Como as ligações clandestinas na rede pluvial vão se acumulando no tempo seco, a chuva vem e faz lavagem da tubulação com um grande volume de água. Os últimos feriados podem ter causado este efeito na cidade”.
Ele ainda conta que o próximo relatório é crucial para analisar se o recente aumento na poluição da água foi um fenômeno momentâneo pelas chuvas ou se de fato o sistema sanitário da cidade não está suportando a demanda.
Conforme o biólogo Emerilson Emerim a concentração de esgoto pode aumentar no verão à medida que os “turistas aparecerem na região”. Mas independente da maior concentração de pessoas na ilha é preciso investir no sistema de esgoto.
“Para resolver esse problema, temos que pensar no saneamento em primeiro lugar, além de uma rígida fiscalização de ligações clandestinas na rede pluvial”, diz o biólogo.
Para a presidente do Floripa Sustentável, Zena Becker, a fiscalização até existe, mas precisa ser mais efetiva e educativa.
“Falta orientação para que as pessoas entendam a gravidade de uma água não tratada e as ligações ilegais acabam permanecendo. Por isso precisamos cobrar, tanto a prefeitura quanto a Casan, para que realmente Florianópolis tenha uma verdadeira rede de esgoto funcionando”, afirma.
Ligações diretas no esgoto são problema
De acordo com o secretário municipal do Meio Ambiente, Laudelino de Bastos e Silva, os bairros Cacupé e Sambaqui, onde pontos passaram de próprio para impróprio, há rede de esgotamento sanitário já instalada, aguardando a estação de tratamento do Saco Grande.
Concentração de esgoto pode aumentar durante o verão, com um número maior de pessoas na Ilha – Foto: Leo Munhoz/NDNa Tapera não há previsão de inclusão no sistema. Está paralisada a construção da ETE (Estação de Tratamento de Esgoto). Estima-se que até fevereiro do ano que vem se terá a autorização para retomar a obra dessa estação.
Conforme a Casan, a balneabilidade é uma questão que depende de diferentes atores. Os dados de programas como o Floripa Se Liga na Rede, Trato pelo Capivari e Trato pela Lagoa mostram que a população ainda faz ligações diretas do esgoto.
A implantação de sistemas de esgotamento sanitário também ficou muitos anos sem a devida atenção. Com todos os investimentos que estão sendo realizados para implantação de sistemas públicos de esgotamento sanitário em Santa Catarina a tendência é de que esse quadro seja revertido.