Amareladas e com cheiro quente. Semelhantes à aparência de urina. Essas são as características das águas fétidas que jorram das tubulações em direção às praias.
Apesar do aspecto sujo todos sabem que não é urina. Mesmo que dinossauros habitassem a rede de encanamentos não seria possível que produzissem tanta quantidade do líquido.
É água da rede de drenagem da chuva, só que ninguém gosta de colocar a pele em contato por medo de se contaminar. Essa percepção de que ‘aquela água’ não é boa para a saúde impulsiona os saltos ao longo das orlas.
É uma cena corriqueira que faz parte do imaginário visual do brasileiro. Não é possível ir a uma praia e não ter a imagem dos pulos tatuada na memória. O problema é que o saneamento básico chegou a um ponto que não dá mais para pular.
Turistas atravessam Rio Capivari, na Praia dos Ingleses, uma das fontes da contaminação de coliformes fecais na água. Ponto está impróprio para banho neste verão – Foto: Flavio Tin/Arquivo NDOs parâmetros do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) indicam que até 800 coliformes fecais para uma amostra de 100 mililitros são aceitáveis para a saúde humana.
Mais do que isso é indicativo de que a água está poluída e causa risco de doenças. Apesar desses índices não serem amplamente divulgados, eles são publicados semanalmente nos relatórios de balneabilidade.
O NDI (Núcleo de Dados e Jornalismo Investigativo) do Grupo ND analisou esses índices e identificou casos em que as amostras apontaram mais de 24.196 coliformes fecais por 100 mililitros.
O valor é a “régua” do que se consegue medir nas análises do IMA/SC (Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina). Significa que os índices estão, no mínimo, trinta vezes maiores do que o tolerável.
Esses níveis foram encontrados nas praias do Litoral Norte, Vale do Itajaí, da Grande Florianópolis e da Capital. Apenas a região Sul do Estado não chegou ao teto de medição entre os meses de novembro e janeiro.
Veja os maiores índices de coliformes fecais por região
Resultados mais recentes do “limite” de coliformes fecais registrados pelo IMA/SC na temporada atual em pontos do litoral catarinense – Foto: Reprodução/Arte NDOs índices elevados de coliformes fecais estão relacionados com a chuva que carrega sujeira para o mar. Mas a chuva não tem coliforme fecal. Ela só lava e evidencia o erro.
Já que 72% do Estado não tem rede coletora de esgoto, fossas irregulares e sem manutenção extravasam sujeira para a rede de drenagem.
Nos locais onde há rede coletora de esgoto instalada, a culpa é das ligações clandestinas que estão largando esgoto onde deveria passar somente água da chuva.
Fezes de animais nas ruas também são levadas para a rede pluvial – sujeira que também não deveria estar pelas ruas.
É por isso que a chuva lava e evidencia o erro e a análise do índice de coliformes fecais é estratégica para identificar o foco de poluição de cada ponto de coleta.
Histórico dos principais pontos do litoral catarinense na temporada
Balneário Camboriú
Histórico de análises em Balneário Camboriú até o relatório do IMA de 16/01/2023 – Foto: Leandro Maciel/Especial para o NDItapema
Histórico de análises em Itapema até o relatório do IMA de 16/01/2023 – Foto: Leandro Maciel/Especial para o NDCanasvieiras, em Florianópolis
Histórico de análises em Canasvieiras até o relatório do IMA de 16/01/2023 – Foto: Leandro Maciel/Especial para o NDColiformes são balizadores de doenças
Os coliformes fecais são bactérias que estão no intestino de humanos e animais. Além da Escherichia coli que é a mais conhecida, também há bactérias do gênero Klebsiella, Citrobacter e Enterobacter.
Praias levam mais de 1 mês para voltar a receber o selo de ‘próprias’ para banho
Para um ponto receber a placa de “próprio”, são necessárias cinco análises consecutivas com índices inferiores à 800/100 mL.
Ao longo do ano as análises são mensais e, em temporada, semanais. A frequência está longe de ser ideal e faz com que praias tenham placas de “impróprias” ou “próprias” com base numa análise realizada dias antes. Entretanto, aumentar a frequência demandaria investimento na ampliação de estrutura especializada para executar o serviço.
Há um procedimento técnico para coletar, transportar e analisar as amostras.
Segundo o IMA, para as análises são levados em consideração aspectos como condições de maré, incidência pluviométrica nas últimas 24 horas no local, a temperatura da amostra e do ar no momento da coleta (parâmetro físico) e a imediata condução para a pesquisa em crescimento bacteriano.
O método é aplicado nos 237 pontos de coleta espalhados pelo Estado.
Termo de cooperação – Para ampliar as coletas, a SES (Secretaria de Estado da Saúde) divulgou nesta terça-feira (24) que assinou um Termo de Cooperação com o Corpo de Bombeiros Militar e a Casan (Companhia Catarinense de Águas e Saneamento).
Foram identificados 82 pontos nas cidades de Florianópolis, Balneário Camboriú, Bombinhas, Navegantes, Penha, Balneário Piçarras, Porto Belo, Itapema e Itajaí para terem a ampliação do serviço de análise.
Segundo o informe do Governo do Estado, o Lacen (Laboratório Central de Saúde Pública de Santa Catarina) irá realizar a pesquisa de carga viral em pontos sensíveis para risco de contaminação.