Lagoa do Peri: a coexistência da janela para o passado e uma intrusa ameaçadora

31/10/2022 às 10h00
Foto de Felipe Bottamedi

Felipe Bottamedi Florianópolis

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Fonte hídrica essencial ao Sul da Ilha de Santa Catarina, Peri encara desafio de subsistir com uma cianobactéria invasora e coexistir com a comunidade tradicional. Especialistas alertam para a urgência do Plano de Manejo para conter irregularidades na ocupação do seu entorno e prever o comportamento da espécie diante das mudanças climáticas

Lagoa do Peri – Foto: Jacson Botelho/NDLagoa do Peri – Foto: Jacson Botelho/ND

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Dentre as lagoas de Florianópolis, a história do Peri renderia um drama de superação. A preservação a partir de 1981 com a implantação do Parque Municipal da Lagoa do Peri – hoje Mona (Monumento Natural Municipal) da Lagoa do Peri – possibilitou a regeneração deste sistema após décadas de atividade agrícola predatória.

Naquele passado recente eram cultivadas principalmente a mandioca e a cana-de-açúcar, além da extração da madeira: era a Florianópolis dos engenhos. O abandono dessa época é uma conquista para o meio ambiente, mas não termina com um final feliz.

Mesmo após 41 anos de conservação, ainda faltam as devidas normas e estudos que regulamentem o seu uso e o trato necessário com a lagoa – definidos pelo chamado Plano de Manejo.

Este vácuo alimenta dois temores: o fantasma da ocupação urbana desordenada e a possível ameaça de uma cianobactéria invasora que vive no espelho de suas águas, colocando em xeque o futuro de um sistema importante ao abastecimento, turismo e ecossistema da cidade.

É nos 42,71 km² do Mona Lagoa do Peri, que engloba tanto a lagoa em si como a mata do entorno, que se encontra a floresta mais bem preservada na Ilha de Santa Catarina. No seu seio está a lagoa de água doce que nomeia a unidade de conservação e que hoje abastece cerca de 100 mil de moradores fixos distribuídos em cinco bairros do Sul da Ilha, de acordo com dados da Casan (Companhia Catarinense de Águas e Saneamento) referentes a outubro de 2022.

É também lá que as grandezas naturais mostram seu paralelo com a riqueza histórica de Florianópolis. A cerca de 1,5 km da Lagoa do Peri está localizada a Estrada Francisco Thomas dos Santos, que corta o Sertão do Ribeirão (ou Sertão do Peri, como alguns chamam).

Reconhecido na própria legislação do parque, o Sertão do Ribeirão é uma janela para o passado da cidade. A presença dos engenhos, alambiques, pequenas casas e fazendas, além do silêncio sepulcral, remontam uma Florianópolis rural que ficou para trás. Dentre as mudanças de hoje está a abolição do uso de queimadas na agricultura, que passou a ser proibida já nos primeiros esforços de conservação.

Sertão do Ribeirão – Foto: Arquivo/Beatriz Carrasco/NDSertão do Ribeirão – Foto: Arquivo/Beatriz Carrasco/ND

Caminhando pela região, com suas casas distantes umas das outras, é difícil reconhecer uma paisagem tão bucólica como parte da Capital de Santa Catarina. São placas alertando para a proibição do parcelamento do solo (loteamentos) e a necessidade de consultar a Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente) antes de instalar empreendimentos.

Informativos alertam para as regras do parque, como a proibição do parcelamento do solo. Há ainda um grande vácuo para a ocupação do espaço por conta da falta do Plano de Manejo – Foto: Leo Munhoz/NDInformativos alertam para as regras do parque, como a proibição do parcelamento do solo. Há ainda um grande vácuo para a ocupação do espaço por conta da falta do Plano de Manejo – Foto: Leo Munhoz/ND

O caminho do meio

O rio Ribeirão Grande é o responsável por fazer a ligação entre o sertão e a lagoa. É essa “artéria” que motiva todo o cuidado. Concentrando águas do Rio Peri, da Cachoeira da Gurita e de outros mananciais, o Ribeirão Grande é o terceiro maior responsável por manter o volume da Lagoa do Peri, depois das cachoeiras Grande e Pequena. O Ribeirão Grande atravessa hoje a pequena comunidade, por suas casas e fazendas, antes de alimentar a lagoa.

Rios que desaguam na Lagoa do Peri – Foto: PMF/Divulgação/NDRios que desaguam na Lagoa do Peri – Foto: PMF/Divulgação/ND

A presença dessa comunidade ao lado de uma artéria tão crucial ao Rio Peri lança a pergunta: afinal, é possível coexistir com a Lagoa do Peri?
Foram décadas de uma relação apática entre moradores e órgãos ambientais. O motivo principal: a rigidez das regras de ocupação na categoria “Parque” de uma Unidade de Conservação. Até que Floram e comunidade passaram a trabalhar juntas para encontrar o caminho do meio.

A aproximação começou em 2007, com a implantação do conselho gestor da unidade. O segundo passo foi dado em 2014, quando começaram as discussões para readequar o parque para algo que permitisse a presença sustentável dos moradores tradicionais. Esforço que se cristalizou em 2019, quando a Prefeitura de Florianópolis reclassificou a região como Mona, categoria de área protegida que permite a existência de comunidades culturais dentro do perímetro da Unidade de Conservação.

Além da ZCSR (Zona Cultural Sertão do Ribeirão), o Peri conta também com a ZCPC (Zona Cultural Porto do Contrato), na parte leste da Lagoa.

Localização da comunidade do Sertão do Ribeirão – Foto: PMF/Divulgação/NDLocalização da comunidade do Sertão do Ribeirão – Foto: PMF/Divulgação/ND

“O medo que tínhamos era que virasse um parque onde a gente não pudesse habitar. Daí estudamos uma lei para que os moradores pudessem permanecer preservando esse espaço”, resume Dineia Ricardina de Souza, professora e presidente da Amosertão (Associação dos Moradores de Barreiros do Ribeirão).

Dineia destaca a preocupação da comunidade local em preservar os recursos naturais: “organizamos palestras orientando para não construir em qualquer lugar, para não usar veneno na colheita, sobre como trabalhar de forma mais sustentável, para não plantar perto de cachoeira”, detalha. São algumas das práticas ainda em construção e que são necessárias para evitar prejuízos à Lagoa do Peri.

Dineia Ricardina de Souza, professora e presidente da Amosertão – Foto: Leo Munhoz/NDDineia Ricardina de Souza, professora e presidente da Amosertão – Foto: Leo Munhoz/ND

As iniciativas são realizadas aos fins de semanas, geralmente em conjunto com outras instituições. Em janeiro deste ano, Floram e comunidade conversaram sobre a construção do Plano de Manejo. Já no mês anterior a Epagri forneceu curso para aproveitamento integral dos alimentos. É um trabalho de formiguinha. “Temos que ficar sempre convidando. Tem domingo que eles comparecem, tem domingo que não”, conta Dineia.

Foi há dez anos que a presidente da associação perdeu o seu pai, Francelino Hortêncio de Souza, partida que a estimulou a recriar o laço com a região onde viveu a infância. Cada irmão pegou um pedacinho do terreno do pai e a proximidade com o Ribeirão da Ilha, bairro onde mora, permite as visitas recorrentes.

“Eu e minha irmã começamos a resgatar as festas que eram feitas aqui antigamente, como a Festa da Cruz”, conta. A data de celebração passou a ser justamente o dia do aniversário do pai.

O nome do festejo faz referência à cruz instalada em frente à igreja da comunidade, cuja padroeira é Nossa Senhora de Lurdes e que ficou fechada por um longo período até a reabertura pelas irmãs. “A cruz foi colocada naquele espaço por causa da ‘parença’. Diziam que apareciam espíritos naquela parte. Na época as pessoas chegavam a sair com foguetes durante a festa”, conta a professora.

Dineia e a igreja do Sertão do Ribeirão: esforço para manter a tradição – Foto: Leo Munhoz/NDDineia e a igreja do Sertão do Ribeirão: esforço para manter a tradição – Foto: Leo Munhoz/ND

A passagem do Espírito Santo e a reestruturação dos espaços da comunidade concentram hoje os esforços da associação. “A Amosertão tem esse objetivo: preservar o espaço, nossa cultura, nossas festas”, ressalta.

Os esforços da entidade para reclassificar o Peri foram feitos em conjunto com a Asmope (Associação de Moradores da Lagoa do Peri), que representa a outra comunidade tradicional que vive nos arredores da lagoa. Localizado entre a lagoa e o mar, o Porto do Contrato concentra uma comunidade pesqueira tradicional.

“Existia antigamente uma sinergia entre pesca (no Sertão) e agricultura (no Porto). Uma comunidade produzia o peixe e a outra a farinha. Era um grande caldo cultural”, conta Carlos Rodrigo de Mello Roesler, morador do Porto do Contrato e ex-presidente da Asmope.

“Na época tinha quem queria transformar o Peri em Apa (Área de Proteção Ambiental). A categoria é mais flexível, permitindo a construção de resorts e ordenação da urbanização. Parte da comunidade entendia que era a única forma de manter a propriedade privada. Depois veio a noção de que a proteção da propriedade e a preservação do Peri era um caminho. A compreensão sobre proteção integral e direito de posse gerou adesão integral ao Mona”, lembra Roesler.

O retorno ao Sertão e desafios da ocupação sustentável

Voltar às origens não é algo único na família de Dineia. “Há de forma geral um retorno dos filhos dos mais velhos das famílias originais do Sertão do Ribeirão, que estão voltando para lá para a divisão dos terrenos, utilizando os locais como casa de campo ou estudando possibilidade turística”, explica Cid Neto, geógrafo do Depuc (Departamento de Unidades de Conservação) e ex-chefe da Divisão de Implantação e Manejo das Unidades de Conservação da Floram.

A mudança que veio com a recategorização do parque substituiu a consciência do “não pode fazer nada” para “posso fazer alguma coisa”, tornando necessário equacionar a preservação da lagoa com a manutenção da comunidade. Desde 2019, ano em que a mudança foi concretizada, o Depuc/Floram passou a receber mais pedidos solicitando reformas, construção de engenhos, alambique, entre outros empreendimentos.

Alambique no Sertão do Ribeirão – Foto: Arquivo/Tata Fromholz/NDAlambique no Sertão do Ribeirão – Foto: Arquivo/Tata Fromholz/ND

Isso ocorre, entretanto, sem uma definição clara sobre como deve ser feita a ocupação sustentável na região, que inclusive teve sua principal estrada asfaltada em dezembro de 2021.

Estrada principal de acesso ao Sertão do Ribeirão foi asfaltada em 2021 – Foto: PMF/Divulgação/NDEstrada principal de acesso ao Sertão do Ribeirão foi asfaltada em 2021 – Foto: PMF/Divulgação/ND

“Diariamente recebemos denúncias de pessoas vendendo terreno pela internet sem seguir os procedimentos necessários”, afirma Cid. A lei 10.530, que instituiu o Monumento Natural e permite a existência da Zonas Culturais, resolve parte do problema ao liberar apenas “o uso residencial exclusivo quando a edificação for destinada àqueles que já venham residindo no local e seus descendentes”.

Enquanto a norma diz o que pode, falta o Plano de Manejo para falar como deve ser feito – e reduzir o estresse provocado pela falta de definição.

A urgência do manejo

“O Mona corrige um erro histórico, os moradores tiveram seus direitos cercados. Agora é necessário realizar a regularização fundiária e os limitantes para a área, alterações que vêm com o Plano de Manejo. É a joia da coroa que permitirá atender carências que a fiscalização não consegue”, destaca Roesler, ex-presidente da Asmope e secretário executivo do Conselho Consultivo do Mona Lagoa do Peri.

Segundo ele, os aspectos mais importantes a serem esclarecidos são:

  • A presença de turistas sem a noção da capacidade sustentável que o Peri comporta;
  • A necessidade de entender o impacto ambiental dos turistas no espelho d’água;
  • Definir o manejo do manancial e o limite de captação de água de maneira a manter a saúde do bioma.

“Sem o plano as ações continuam avulsas. É necessário transformá-las em regras”, ressalta.

O documento será decisivo em determinar como empreender, construir e ocupar a região. Para Mauro Manoel da Costa, chefe do Departamento de Educação Ambiental da Floram, o Plano de Manejo é semelhante a se mudar para uma casa nova e saber de antemão onde é a cozinha para colocar a geladeira.

“Ele prevê estudos técnicos que respondem, por exemplo, as áreas que devem ser usadas para turismo, as que devem ser restauradas e onde existem espécies endêmicas”, explica.

Lagoa do Peri – Foto: Jacson Botelho/NDLagoa do Peri – Foto: Jacson Botelho/ND

A Prefeitura de Florianópolis contratou a empresa Geo Brasilis Consultoria, Planejamento, Meio Ambiente e Geoprocessamento para elaborar até setembro de 2023 o Plano de Manejo de sete Unidades de Conservação de Florianópolis – dentre elas o Mona da Lagoa do Peri.

“Os usos, as zonas e as vocações de cada unidade de conservação serão definidos após estudos sobre a flora e a fauna da região”, destaca a superintendente da Floram, Beatriz Campos Kowalski. “O plano permite uma ‘fotografia’ da situação das UCs, por isso precisa ser atualizado a cada cinco anos”, destaca.

Os trabalhos são realizados pela Secretaria do Meio Ambiente de Florianópolis, com fiscalização da Floram. Os Planos de Manejo devem ter a aprovação dos conselhos consultivos das Unidades de Conservação. No primeiro semestre de 2023 serão realizadas audiências públicas com as comunidades envolvidas em cada unidade.

Uma invasora nas águas do Peri

Há ainda outra urgência a ser esclarecida e resolvida com os estudos do Plano de Manejo da Lagoa do Peri: o que fazer diante de uma cianobactéria invasora que vive em suas águas e, em grandes quantidades, pode comprometer o consumo?

Antes de entender essa ameaça, é importante destacar: desde agosto de 2018 a Lagoa do Peri não registra condição imprópria para banho, mostram os relatórios de balneabilidade do IMA (Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina). Para a temporada 2022/2023, a lagoa conquistou o selo Bandeira Azul, certificação dada às águas que conquistam um conjunto de requisitos de qualidade ambiental.

Nesse cenário de preservação seriam catastróficos os danos caso o Rio Ribeirão Grande – ou alguma das fontes que abastece os 514,8 hectares de espelho d’água da Lagoa do Peri – recebesse efluentes de esgoto doméstico.

Isso porque a lagoa é habitada por espécies vivas como as cianobactérias, atualmente em concentrações que não comprometem o consumo da água. Uma eventual entrada de fósforo e nitrogênio (substâncias presentes nas fezes, urina, restos de alimento, detergentes, entre outros produtos) colocaria em risco este equilíbrio. Seria desencadeada uma mudança química que resulta na proliferação de algas, chamada de eutrofização (drama vivido pela Lagoa da Conceição).

Lagoa do Peri – Foto: Jacson Botelho/NDLagoa do Peri – Foto: Jacson Botelho/ND

Dentre essas cianobactérias há uma invasora. Não se sabe quando e nem como, mas em certo momento da sua história a lagoa passou a ser morada da Raphidiopsis (ou Cylindrospermopsis), micro-organismo identificado pela primeira vez em Java, na Indonésia, e de alto potencial tóxico.

O primeiro registro na Lagoa do Peri ocorreu em 1994. A culpada pode ter sido até mesmo uma ave que, ao beber da água do Peri, acabou deixando a pioneira por lá – são inúmeras as possibilidades. Em concentrações baixas a toxina que ela produz, chamada saxitoxina, consegue ser removida no tratamento da água realizado pela Casan.

Quando a concentração é alta, no entanto, o consumo pode atingir os fígados e o rim, além de possível efeito paralisante no sistema neuromuscular. E para piorar: é praticamente impossível erradicar a espécie do sistema. O desafio é novamente de coexistência, mas nesse caso com algo invisível ao olho nu.

“É uma espécie que está se espalhando para regiões subtropicais. Ela fixa nitrogênio na água e armazena o fósforo. Quando há disponibilidade maior ela ‘guarda’ para momentos que o sistema tiver menos. É o que chamamos de consumo luxuriante”, explica Mariana Coutinho Hennemann, que estudou a cianobactéria no doutorado em Ecologia realizado na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

“Como estamos falando de um organismo com característica bacteriana, ele vai se adaptando ao sistema. Ele tem poucos predadores e, ao longo do tempo, vai eliminando outras espécies”.

Ilustração de uma cianobactéria – Foto: Creative Commons/Divulgação/NDIlustração de uma cianobactéria – Foto: Creative Commons/Divulgação/ND

Problema complexo

Assim como as outras cianobactérias (ou microalgas), elas gostam de fósforo e nitrogênio para se reproduzir. A proliferação por conta desse aporte de nutrientes é chamada de eutrofização, e nesse caso é muito melhor prevenir do que remediar.

“Interferir nesse processo [na eutrofização] não é nada fácil, é muito complicado prever o resultado. Ao alterarmos a qualidade de água e o balanço de nutrientes pode-se favorecer uma espécie no lugar da outra, resultando em outro problema. Planejamos fazer algo para chegar em um objetivo, mas às vezes não conseguimos”, diz a pesquisadora.

Cabe ressaltar que as lagoas sofrem um processo de eutrofização natural, tendendo a um acúmulo maior de sedimentos com o passar dos anos. A pressão urbana acelera ainda mais esse processo e os eventos extremos também interferem: as estiagens diminuem o volume da água e favorecem a concentração da espécie, por exemplo.

Estiagem na Lagoa do Peri em 2019 – Foto: Arquivo/Flavio Tin/NDEstiagem na Lagoa do Peri em 2019 – Foto: Arquivo/Flavio Tin/ND

“As mudanças climáticas são um forte catalisador para expansões adicionais da dominância e de florações de cianobactérias, através de alterações não só na temperatura, mas também nos padrões de precipitação e seca, capazes de alterar os ciclos hidrológicos em diferentes regiões”, escreveu Mariana em seu estudo.

Para o professor Leonardo Rörig, do Departamento de Botânica da UFSC e que realiza estudos na Lagoa do Peri, a saída para um cenário tão complexo também passa pelo Plano de Manejo. Ao poder prever a realização de estudos específicos, ele permite a adoção de medidas para contornar esse dilema.

“O Plano de Manejo vem para evitar novas ameaças e a possibilidade da concentração de nutrientes. Será crucial dependendo de como for feito e disposto a tratar o problema para evitar problemas maiores”.

Por enquanto, contaminação é exceção

Coletas de água realizadas em 2018 e 2019 por pesquisadores do Lafic (Laboratório de Ficologia) da UFSC, dentre eles Rorig, identificaram presença elevada de toxinas nas águas do Peri. Na época a lagoa passava por um período de severa estiagem, o que favorecia a concentração das microalgas. Na ocasião, os níveis de saxitoxinas ultrapassaram 6 microgramas por litro nos dias de mais calor, sendo que o limite máximo permitido no Brasil é de 3 microgramas por litro.

Depois do episódio, ainda em 2019 a Casan investiu R$ 7,4 milhões para a instalação de um Sistema de FAD (Flotação por Ar Dissolvido) – uma das sugestões feitas pelos pesquisadores na conclusão do estudo. O equipamento remove cerca de 95% das cianobactérias das águas antes que elas entrem no tratamento para o abastecimento das casas. Foi a partir daquele período de crise que a captação do Peri também começou a reduzir, segundo a companhia.

Estrutura da Casan na Lagoa do Peri – Foto: Casan/Divulgação/NDEstrutura da Casan na Lagoa do Peri – Foto: Casan/Divulgação/ND

A Casan monitora semanalmente a presença de três toxinas nas águas do Peri: além da saxitoxina são monitoradas a microcistina e a cilindrospermopsinas. O acompanhamento desta última passou a ser obrigatório em 2021, após portaria do Ministério da Saúde, detalha o engenheiro químico José Luciano Soares, chefe do setor de qualidade de esgoto na Região Metropolitana de Florianópolis.

Também são monitorados os níveis de clorofila (indicador importante sobre a presença de vegetais e consequente eutrofização) e, semestralmente, a presença de agrotóxicos, metais pesados e radioatividade.

Com exceção do período de estiagem, as águas do Peri sempre foram de qualidade, ressalta Soares. Ele acompanha os dados da lagoa há 15 anos, analisando a situação periodicamente e repassando para a Vigilância Sanitária.

“Do tempo que estou aqui, em nenhum manancial encontrei metal tóxico e nem concentração de toxina que passasse da permitida”, avalia. Para ele é a contribuição da natureza e a preservação do entorno as responsáveis por este cenário. Um patrimônio de Florianópolis que precisa continuar resguardado.

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EQUIPE DE REPORTAGEM
REPORTAGEM: Felipe Bottamedi
EDIÇÃO E APOIO REPORTAGEM: Beatriz Carrasco
FOTOGRAFIA: Leo Munhoz
INFOGRAFIA: Gil Jesus
IMAGENS DE DRONE: Jacson Botelho e Karina Koppe
EDIÇÃO DE VÍDEO: Gustavo Bruning
DESIGN PÁGINA PRINCIPAL: Luis Debiasi

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