Ligações clandestinas e relação com Papaquara provocam poluição em Canasvieiras

Morador do Norte da Ilha, que criou o SOS Rio do Brás, explica problemática que levou a prefeitura a ter que remover toneladas de plantas que indicam poluição

Foto de Nícolas Horácio

Nícolas Horácio Florianópolis

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Um morador antigo de Canasvieiras, que criou movimento para resgatar o rio do Brás; um diretor da Casan (Companhia Catarinense de Águas e Saneamento), que tem um sistema de tratamento do rio e a superintendente da Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente).

Quando o assunto é a causa da poluição do rio do Brás, todos dizem o mesmo: o rio está assim por causa das ligações clandestinas e despejos irregulares de esgoto na água.

Vegetação caracteriza a poluição do rio – Foto: Paulo Mueller/NDTV/divulgaçãoVegetação caracteriza a poluição do rio – Foto: Paulo Mueller/NDTV/divulgação

Nascido e criado na Ilha, o geógrafo José Luiz Sardá, 59 anos, faz parte de uma geração que tomava banho e pescava no rio quando pequeno. Em 2015, já com um cenário bem diferente, ele criou o movimento SOS Rio do Brás, voltado aos problemas de poluição do Brás e também do Papaquara, outro rio do bairro.

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“O Brás era um rio que ora fechava, ora abria. Nunca foi totalmente aberto”, explica Sardá.

Sobre a origem dos problemas, o morador acredita que ela é resultado da falta consciência das pessoas. “No caso de Canasvieiras, a rede de esgoto foi implantada na gestão de Sérgio Grando [entre 1993 a 1996], mas o turista chegou aqui bem antes, nos anos 1980, em 1990 também tinha muitos, e houve a necessidade de se fazer a estação de tratamento de esgoto em Canasvieiras”, recorda.

Sardá conta que, na época, houve o questionamento de onde seria instalada a estação. “Quando você faz uma ETE (Estação de Tratamento de Esgoto), tem que jogar os efluentes tratados no rio ou diretamente no mar.

A sugestão foi largar no Papaquara, só que o Papaquara tem leito plano e, para jogar esse efluente, precisa de correnteza para ir para o mar. Aqui não acontece isso”, diz Sardá.

De acordo com o geógrafo, a partir de 1980, quando surgiram condomínios no canto do Lamin, o assoreamento do leito do Papaquara foi acelerado. “O rio do Brás tem uma nascente natural, que é do lençol freático, mas como nos anos 1980 para 1990 começou a se fazer os loteamentos clandestinos nesta região lindeira ao Papaquara e o Papaquara tinha canais que desaguam no Brás, ele hoje está totalmente assoreado. Tem um metro de profundidade ou menos”, ressalta Sardá.

Para o morador, o surgimento das macrófitas, plantas que indicam poluição no Brás, começou há três anos, quando o rio foi fechado definitivamente. O morador relatou que ouviu ontem, de um técnico da Casan, que a Ura (Unidade de Recuperação Ambiental) do local não está funcionando. A Casan diz que o equipamento está funcionando.

“Ura está em pleno funcionamento”, afirma diretor da Casan

Diretor de Operação e Expansão, Joel Horstmann explica que a Casan tem uma estação elevatória que joga água do rio do Brás para uma estação de tratamento e devolve água tratada para o rio. A empresa também tem um elevatório de esgoto no local. “Funciona muito bem. Foi revitalizada, as bombas foram trocadas, feito o emissário novo, para poder atender à demanda tanto na temporada, quanto na época de chuva”, declara Joel.

O diretor explica que a Ura é o equipamento que fica no rio e joga água para a estação tratar. “O problema do rio é antigo. Tem contribuição de esgoto clandestino. Não é toda bacia que tem cobertura de esgoto. Tem ligação irregular ainda hoje”, ressalta.

Rio do Brás, no Norte da Ilha – Foto: Paulo Mueller/NDTV/divulgaçãoRio do Brás, no Norte da Ilha – Foto: Paulo Mueller/NDTV/divulgação

A Ura da Casan, segundo Joel, foi instalada entre 2016 e 2017 e a estação elevatória é da época do sistema de esgoto em Canasvieiras, década de 1990.

Para resolver o problema, na visão de Joel, é preciso uma ação com a prefeitura, para fiscalização e conscientização da população. Joel disse que a Casan está auxiliando na despoluição do rio. “Talvez não consiga captar todo o volume do rio, mas para o que foi projetada, está funcionando perfeitamente”, defende.

Questionado do porque o rio segue poluído, o diretor reiterou: “Tem ainda ligações irregulares na rede coletora. Alguns clientes estão ligados de forma irregular na drenagem pluvial e tem uma área que não tem rede coletora de esgoto”. Segundo Joel, a Casan trata sete litros de água por segundo no rio do Brás, ou seja, 605 mil litros por dia.

Projeto de revitalização

Entre os pleitos do SOS Rio do Brás está a criação de um parque linear. O projeto tem adesão da Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente). Prevê, por exemplo, a criação de dois molhes adentrando o mar, revitalização do rio e valorização da educação ambiental em parceria com escolas.

Na sexta-feira (21), a prefeitura iniciou um trabalho de limpeza no Brás, removendo as plantas aquáticas indicadoras de poluição. A expectativa da Floram é retirar 200 toneladas dessa vegetação.

“No passado, havia mais ligações irregulares de esgoto, que acabam lançando seus efluentes no rio”, reforça a superintendente da Floram, Beatriz Kowalski. Segundo Beatriz, a limpeza do Brás vai amenizar o prejuízo momentâneo, mas o rio precisa da revitalização.

“É pensar o que queremos para as margens daquele espaço, que pode congregar tanto a preservação do meio ambiente e também o convívio social”, afirma Beatriz. Segundo ela, o projeto foi apresentado recentemente e os técnicos da Floram estão estudando as alternativas possíveis.

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