Dentre as principais características do macuco estão os ovos azuis, hábitos solitários e reservados (a ave vive em regiões afastadas e só fica em casal durante reprodução). Entretanto o seu principal traço é o canto piado, um dos mais lindo entre as aves, e que infelizmente a torna um dos principais alvos da caça ilegal.
A ave ameaçada “reapareceu” na ilha de Santa Catarina após 21 anos sem registros científicos da sua presença, conforme divulgado pelo Projeto Fauna Floripa na última semana.
Primeiros e únicos registros
É difícil ver um macuco. Ele vive escondido no interior da mata e é uma ave crepuscular – a vocalização se manifesta principalmente no entardecer e no amanhecer do dia, detalha a ornitóloga Lenir Alda do Rosário, que estuda os pássaros de Santa Catarina desde 1978.
SeguirO macuco já habita algumas regiões do estado. Conforme o site Aves de Santa Catarina, banco de dados das aves que vivem no Estado organizado por Rosário, o pássaro já foi registrado em cidades como Antônio Carlos, Itapoá, Corupá, Blumenau, Brusque, Siderópolis e Timbé do Sul.
Macuco (Tinamus solitarius) – Foto: Arquivo/Mauro Regalado Soares/Wiki Media Commons/Divulgação/NDJá na ilha de Santa Catarina há apenas dois registros científicos da presença do macuco, publicados no livro “As Aves da Ilha de Santa Catarina”, organizado pelos autores Luciana Naka e M. Rodrigues, e publicado pela Editora UFSC.
Em outubro de 1997, o macuco foi registrado (é impreciso se ele foi visto ou ouvido) próximo a um córrego, no morro da Lagoa da Conceição. Já no ano seguinte o seu canto foi escutado na região, no final de uma tarde de setembro.
Ninho de macuco com ovos – Foto: Wikimedia Commons/Divulgação/ND“Reencontro”
Mesmo com o crescimento de ornitólogos e observadores na região, durante 21 anos não houve registro da presença do macuco em solo manezinho, destaca Rosário. É intrigante encontrá-lo novamente na ilha de Santa Catarina.
O registro em vídeo do Projeto Fauna Floripa, composto por pesquisadores da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Floram e IMA (Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina) é o terceiro na história da ilha.
Através de armadilhas fotográficas instaladas durante 10 meses na vegetação da ilha foram registrados, entre outros animais silvestres, a presença de um único macuco.
Haveriam mais?
Ainda não se sabe se haveriam outros macucos na região ou se a ave registrada pelas câmeras do projeto está sozinha na ilha. A questão será pesquisada pelo projeto nos próximos meses e é fundamental para esclarecer os motivos do reaparecimento da ave.
Como o macuco não tem capacidade de voo, é pouco provável que ele tenha chegado à ilha voando. Menos ainda que ele tenha atravessado as três pontes que conectam a região continental à pé.
Entrando, no campo das possibilidades, o macuco pode ter fugido de algum cativeiro ou ter sido solto por caçadores, explica Rosário. O mesmo destino pode ter acometido os dois macucos encontrados na década de 90.
“Nessa época já havia sido criada Polícia Militar Ambiental, o que resultou em muitas solturas. Muitas espécies que se introduziram e integram a fauna da ilha”, destaca.
“Assim não podemos dizer que é uma espécie extinta na ilha, pois não sabemos se já viveram aqui. O meu questionamento é que tem muitos observadores na ilha. Se não haviam aparecido, pode ser que seja um indivíduo de fuga”, detalha a pesquisadora.
Mas Rosário também não descarta a possibilidade de que exista a presença de uma população que não foi registrada nesse tempo. “Se encontrarem, eu acharei ótimo. Seria um indicativo biológico, refletindo as campanhas de preservação ambiental e mostrando a importância da recuperação das florestas”.