Maior bactéria do mundo surpreende cientistas: veja os mistérios

Vista a olho nu, a 'Thiomargarita magnífica' também tem estruturas internas que isolam o DNA da célula, característica nunca vista em uma bactéria

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Redação ND Florianópolis

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A maior bactéria do mundo foi detectada por cientistas: possui quase 1 centímetro de comprimento e diâmetro 50 vezes maior do que o recorde anterior. Esta é a Thiomargarita magnífica, que pode ser vista a olho nu. A bactéria vivia nas águas de manguezais no Caribe, onde foi encontrada por biólogos.

Bactéria tem características atípicas e surpreende cientistas – Foto: Science/Divulgação/NDBactéria tem características atípicas e surpreende cientistas – Foto: Science/Divulgação/ND

As características foram divulgadas em um artigo publicado na revista Science. A principal delas é o genoma, que não está disperso na célula, como em outras bactérias. Este genoma está envolto em membranas, algo encontrado somente em células de organismos mais complexos.

Como a imensa maioria das bactérias de vida livre conhecidas, Thiomargarita  magnífica  não tem potencial para causar doenças aos seres humanos. No entanto, pode ajudar a entender os processos da vida e da evolução e aprimorar conhecimentos que podem ser aplicados aos microrganismos que nos preocupam.

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Organelas diferentes

As células de bactérias comuns não possuem uma membrana nuclear que separe o DNA do resto do citoplasma da célula. Diferente do comum, a amostra analisada da T. magnifica apresentou estruturas, batizadas pelos pesquisadores de pepins (pepinas, em tradução livre), que cumprem uma função similar.

“A diferença entre os procariontes, classe de organismos que inclui as bactérias, e os eucariontes, que compõem a maior parte dos seres vivos na Terra, incluindo os humanos, é que as células eucariontes possuem um núcleo com uma membrana que separa o DNA do resto da célula. Essa nova bactéria apresentou essas organelas, uma das quais contém DNA, o que é inédito”, explica o professor João Carlos Setubal, do Departamento de Bioquímica do Instituto de Química da USP, que comentou o trabalho para o Jornal da USP.

Estas pepinas contêm não apenas DNA, mas também ribossomos, organelas responsáveis pela síntese de proteínas.

“Estima-se que os eucariontes surgiram na Terra há bilhões de anos. Essa bactéria nova está viva hoje em dia. Então é óbvio que ela não é o elo perdido entre procariotos e os primeiros eucariotos, mas é possível que ela seja similar estruturalmente a esses seres precursores e, logo, seu estudo pode proporcionar reavaliações que levem a uma compreensão melhor desse processo biológico”, diz o professor.

As pepinas contêm não apenas DNA, mas também ribossomos, organelas responsáveis pela síntese de proteínas. – Foto: Science/Divulgação/NDAs pepinas contêm não apenas DNA, mas também ribossomos, organelas responsáveis pela síntese de proteínas. – Foto: Science/Divulgação/ND

Bases da biologia

“Nada na biologia faz sentido, a não ser sob a luz da evolução”, comenta o pesquisador, citando o geneticista Theodosius Dobzhansky. “É a partir da evolução que podemos acompanhar, por exemplo, como as novas variantes e cepas do coronavírus surgem, conhecimento que é fundamental para o enfrentamento de pandemias”, diz.

No diálogo divulgado pelo site R7, Setubal ressalta que descobertas como essa mostram como categorias como eucarioto e procarioto são convenções criadas pela humanidade para formular modelos que possibilitem estudar o funcionamento da natureza. Portanto, já que a nossa compreensão da natureza é imperfeita, são passíveis de serem modificadas.

Metabolismo e reprodução

Os organismos que vivem no mangue, onde falta oxigênio, desenvolveram diferentes maneiras de obter energia. O microbiologista Oliver Gros, da Universidade das Antilhas, é um dos autores do artigo e foi quem primeiro encontrou a T. magnifica no mangue caribenho, onde desenvolve pesquisas.

Ela, como outras bactérias gigantes, é poliploide, ou seja, possui diversas cópias do seu genoma. “Mas a T. magnifica possui a maior quantidade de cópias do genoma já vista, cerca de 40 mil, que é um número dez vezes maior que o de outras bactérias gigantes conhecidas”, diz Rosana Ferreira, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que comentou o trabalho para o Jornal da USP.

Bactéria sem micróbios

Outra característica interessante na T. magnifica é a sua superfície livre de micróbios. É comum que biofilmes (comunidades bacterianas) se formem em qualquer superfície, inclusive em outras bactérias.

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