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Meia se torna coberta, vidro vira bloco de cimento e esponja é transformada em utensílio

As possibilidades e os caminhos dos materiais recicláveis. “Chapecó: cidade limpa, cidade sustentável” envolve uma série de projetos, incluindo uma fábrica dentro do sistema prisional.

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Depois de triturado, o vidro é misturado numa betoneira com o pedrisco – que é um tipo de brita, areia industrial e areia comum de construção – Foto: DivulgaçãoDepois de triturado, o vidro é misturado numa betoneira com o pedrisco – que é um tipo de brita, areia industrial e areia comum de construção – Foto: Divulgação

“O plástico não foi feito para se decompor, ele foi feito para ser utilizado e depois voltar para a economia circular, voltar para a indústria de reciclagem para ser usado novamente e se transformar num outro produto”. A reflexão é do empresário Djalma Azevedo, dono de uma indústria de reciclagem e embalagem de plásticos, em Chapecó. Nossa equipe de reportagem esteve na fábrica e acompanhou todo o processo de produção.

Sabe aquele plástico transparente mais grosso, da embalagem de arroz cinco quilos ou que envolve alguns pacotes de produtos de limpeza? Se você descartar ele no container de recicláveis, ele vai ser recolhido pelo caminhão, levado para a associação de catadores, separado, arrumado em fardos, vendido a R$3 o quilo e levado para a indústria.

O nome desse plástico é polietileno. Na indústria ele passa por mais uma seleção, para verificar se não há outro material misturado, depois é moído, lavado e seco. Em seguida segue para a extrusão, que é a fabricação de uma espécie de grão, chamado pellet. Nesse formato ele está pronto para a indústria usar novamente em diversos produtos. Neste caso, na indústria que visitamos, ali mesmo é a matéria prima para sacos de lixo, de vários tipos, além de outras embalagens.

O empresário lamenta que precise comprar material de outros estados, pois o que é recolhido em Chapecó não é o suficiente. Ele lembra que é necessário melhorar todo o  processo, começando pelo descarte em casa. O plástico é um derivado do petróleo, por isso não deve ir para o meio ambiente, ele deve voltar para sua casa várias vezes, em  muitas formas diferentes.

Outro material que não se decompõe e deve ser reciclado é o vidro. Um quilo de vidro quebrado ou usado dá origem a exatamente um quilo de vidro novo, e a maior vantagem é que o material pode ser reciclado infinitas vezes. Há, ainda, outros destinos sustentáveis para o vidro, como blocos de concreto. No Complexo Penitenciário de Chapecó chegam, todos os meses, 32 toneladas de vidros, que são recolhidos, pela prefeitura, em toda a cidade. Ali mesmo há um triturador cedido pelo município.

Depois de triturado, o vidro é misturado numa betoneira com o pedrisco – que é um tipo de brita, areia industrial e areia comum de construção. Depois é levado a uma máquina que dá molde aos blocos, dali segue para a estufa, para secar. Um detalhe é que a estufa funciona a lenha, com restos de madeira que vêm de indústrias de Chapecó. A produção de blocos chega a mil e duzentos por dia. Grande parte é usada ali mesmo, dentro do complexo, em obras de ampliação, mas também são comercializados externamente.

Atualmente, 14 apenados trabalham na oficina de blocos, mas , nos próximos meses serão trinta, numa nova fábrica, que passará a fazer também o paver, aquele bloco para calçadas.

Nesta engrenagem de reaproveitamento do vidro, nós somos figuras muito importantes. A gerente de saneamento do município, Graciela Heckler lembra: “que não seja descartado nas lixeiras orgânicas, em locais baldios, que utilize os ecopontos da prefeitura e os pontos de entrega voluntária, os PEVs, que são aquelas lixeiras maiores verdes, espalhadas pela cidade.

Aliás, esses PEVs podem ser desenvolvidos por entidades governamentais ou não governamentais. Em Chapecó, no bairro Santa Maria, a consultora socioambiental Edineia Cassiano desenvolveu um desses pontos dentro do seu comércio, que é um café sustentável – que não gera lixo. Numa sala dos fundos fica um verdadeiro tesouro: “hoje eu considero o maior PEV de Santa Catarina em termos de itens, e uma atividade nova no mercado, que de um ano pra cá tem aumentado muito em vários estados, em várias cidades. A gente tem pessoas de toda a região Oeste que vem pra cá porque se preocupam com essa separação e principalmente com o destino correto dos resíduos”, conta Edineia.

Tudo começou há 12 anos. Edineia é chefe escoteira e se envolveu com sustentabilidade no movimento, das pilhas e lacres que eram arrecadados lá no início das atividades, hoje já são 30 itens recebidos: remédios vencidos, embalagens de remédios, óleo de cozinha usado, pilhas, tampinhas, lacres, canetas, livros, papéis, vidros, perfumaria, utensílios de cozinha, isopor, cápsula de café, roupas, panos, calçados, esponjas, lâmpadas, eletrônicos, caixas de leite, embalagens, rolhas, plásticos, copos e taças de plásticos duro, latas, tubos de creme dental e meias.

Alguns itens da lista causam algum espanto, não é mesmo? As esponjas de lavar louça, por exemplo, são feitas de poliuretano e outros componentes químicos sintéticos que levam séculos para se decompor. Elas são matéria-prima para novos produtos como baldes, vasos, lixeiras e pás de lixo, entre outros. Assim como as canetas que a Edineia recebe, são enviadas para reciclagem em São Paulo. As meias também levantam curiosidade. Sejam furadas, sem pares, em qualquer estado servem para a fabricação de cobertores que são distribuídos em projetos sociais.

“O que a pessoa trouxer para cá, não sendo pneu, lenha, essas coisas de volume, o que trouxer pra cá, a gente tem um destino correto. Eu tenho parcerias como o Verde Vida que recolhe todos os reciclados, a Servioeste que recolhe os medicamentos, a Reck que recolhe vidros eletrônicos e pilhas”, explica Edineia. O ecoponto  chama-se Flor de Liz e fica aberto em horário comercial, na rua Assis Brasil, esquina com a rua Florianópolis, no bairro Santa Maria, em Chapecó.

Cada vez está mais difícil encontrar desculpas para não destinar corretamente os resíduos.

Reportagens Balanço Geral, NDTV

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