Novo laudo da UFSC aponta contaminação da Lagoa da Conceição

Estudo aponta a presença de adenovírus humano na água; nove dos 11 pontos de coleta apresentam UFP (unidades formadoras de placa) por 100 ml maior que o limite de segurança sanitária

Foto de Redação ND

Redação ND Florianópolis

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Um laudo do Laboratório de Virologia Aplicada da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) aponta que existe a presença de adenovírus humano na água da Lagoa da Conceição, no Leste da Ilha de Santa Catarina.

A Casan afirma que é provável a ocorrência desses vírus desde o início do povoamento, com intensificação ao longo dos anos e com o adensamento populacional na região. E que não há relação da presença do adenovírus humano com o acidente ocorrido em janeiro, quando houve o rompimento de uma estrutura da companhia, responsável pelo armazenamento de esgoto.

Imagem de satélite da Lagoa da Conceição – Foto: Divulgação/NDImagem de satélite da Lagoa da Conceição – Foto: Divulgação/ND

Estes agentes infecciosos são vírus que possuem rota fecal-oral, transmitidos por alimentos e águas contaminadas por esgoto, pois são excretados em fezes dos indivíduos contaminados. São causadores de doenças gastrointestinais (gastroenterite), respiratórias (faringite, doença respiratória aguda e pneumonia), genitais (uretrite e cervicite) e conjuntivite.

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O laudo foi contratado pela Amola (Associação de Moradores da Lagoa da Conceição) através de recursos arrecadados com a campanha Lagoa Viva. O material foi entregue aos pesquisadores no dia 13 de maio, sendo concluída a análise em 9 de junho.

A situação foi explicada em live no YouTube pela professora Gislaine Fangaro, uma das pesquisadoras que assina o laudo, e pelo professor do curso de pós-graduação em Oceanografia da UFSC, Paulo Horta.

Veja na íntegra:

“Esses vírus têm grande estabilidade nos ambientes aquáticos, de dois a três meses. Todos se replicam no intestino e podem ser isolados nas fezes, podendo contaminar esgotos, rios, mares e moluscos”, explica Fangaro.

No total, foram feitas coletadas de 11 pontos: Costa A, Costa B, Terminal Lacustre, Efluente ETE Barra da Lagoa, Rod. Jorn Manoel Menezes, Rendeiras Leste, Rendeiras Centro, Rendeiras Oeste, Osni Norte, Osni Sul e Centrinho.

Destes 11 pontos, apenas dois (Costa A e Costa B), na Costa da Lagoa, apresentavam concentração de UFP (unidades formadoras de placa) por 100 ml menor que o recomendado. Segundo Horta, para ser considerada adequada do ponto de vista da segurança sanitária, cada amostra deveria apresentar valor menor de 200 UFP por 100 ml.

Isso acontece apenas nos dois primeiros pontos na Costa da Lagoa onde no primeiro (Costa A) não é detectado e no segundo (Costa B) é de 120 UFP. Nos demais pontos, todos apresentam números entre 1.110 (Centrinho) e 4.300 (Rendeiras leste). Veja na imagem:

Fonte: Laboratório de Virologia Aplicada da UFSCFonte: Laboratório de Virologia Aplicada da UFSC

Fangaro ainda explicou durante a live que existem chances de reduzir a concentração de vírus na água, em um prazo de seis meses a um ano, desde que seja diminuído o lançamento de material contaminado no local.

Ela aponta que do terceiro ponto em diante todos ficam em uma concentração alta de adenovírus, tendo uma “contaminação persistente”. “Importante olhar para esses dados com prospecção de futuro, perguntar o que a gente pode fazer para melhorar isso ao longo do tempo”, afirma.

Contrapontos

A reportagem do ND+ procurou a Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis) e a Casan para questionar os números apresentados nos laudos.

A Floram, por meio de assessoria, informou que ainda aguarda o recebimento do relatório da UFSC para se posicionar.

A Casan, por meio de assessoria, se posicionou da seguinte forma. Confira:

A CASAN apoia e valoriza as pesquisas relacionadas ao meio ambiente, no entanto não é adequada qualquer tentativa de correlação da presença de adenovírus humano com o acidente ocorrido em janeiro.

É de conhecimento científico que os vírus entéricos são encontrados em águas brutas onde há a presença humana.

No caso da Lagoa da Conceição, é provável a ocorrência desses vírus desde o início do povoamento, com intensificação ao longo dos anos e com o adensamento populacional na região.

Poluição recorrente

A contaminação da água vem preocupando moradores e autoridades pela presença de esgoto irregular na Lagoa da Conceição.

Lagoa da Conceição em janeiro deste ano – Foto: Divulgacão/JusCatarina/NDLagoa da Conceição em janeiro deste ano – Foto: Divulgacão/JusCatarina/ND

No dia 25 de janeiro de 2021, a avenida das Rendeiras amanheceu tomada pela água. O problema foi provocado pelo rompimento de uma estrutura da Casan , responsável pelo armazenamento de esgoto. Várias pessoas ficaram desabrigadas, na ocasião.

No fim de abril de 2020, um espuma densa e amarelada apareceu na água da lagoa chamando a atenção de moradores. Segundo laudo com a análise da água da região do trapiche, o qual a reportagem do ND+ teve acesso na época, era apontado grande índice de coliformes fecais e nitrogênio. Estes são fatores indicam a contaminação da água por esgoto.

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