A maioria dos despertadores ainda não havia tocado na manhã de 25 de janeiro de 2021 para os moradores da servidão Manoel Luiz Duarte e ruas próximas, na Lagoa da Conceição. Naquele dia, pularam da cama ouvindo o som da mistura de lama, água, pertences pessoais e carros arrastados fora e dentro de casa. Não eram nem 6h da manhã quando o rompimento da lagoa de evapoinfiltração de efluente da estação de tratamento de esgoto da Casan (Companhia Catarinense de Águas e Saneamento) começou a invadir seus terrenos e casas. Mais de 70 residências foram atingidas. Lá se vão três anos, muitos traumas e algumas demandas em aberto por parte dos atingidos.
Incidente ocorreu em 25 de janeiro de 2021 na servidão Manoel Luiz Duarte – Foto: LEO MUNHOZ/NDA estatal adotou uma série de ações, como a construção de um muro de contenção para segurança da população, despendeu cerca de R$ 10 milhões, e promete outras soluções, como o Prad (Plano de Recuperação de Área Degradada), apresentando ações a serem desenvolvidas para a recuperação ambiental e enriquecimento ecológico da área afetada.
A fisioterapeuta Graziela Zimmer, 43 anos, estava com o marido, Pablo Zimmer, 45, e os filhos Bernardo, 11, e Beatriz, 9, na hora da tragédia. Considera que boa parte dos danos materiais foram ressarcidos, mas o trauma não sai da memória.
Seguir“Até hoje, quando chove muito, passo a noite em claro. Vou até a janela duas, três vezes conferir se está tudo bem”, conta.
Graziela acordou por volta das 5h40 com barulho de água e achou que a piscina inflável no segundo andar havia arrebentado. “Quando botei os pés no chão, pus os pés em água. Meu marido foi até a porta da cozinha e viu que a água estava quase um metro de altura na garagem e disse para pegar as crianças e ir até o terraço”, lembra. Ela e a família ficaram no terraço por três horas antes de serem salvos pelos bombeiros.
“Saímos pelo telhado. Meu marido tirou as telhas da garagem, fomos andando pela madeira até chegar ao vizinho e alcançar o bote salva-vidas, porque na frente da minha casa tinha um monte de carro arrastado”, conta.
O administrador de banco de dados Fellipe Oliveira Morsolin, 32, estava dormindo e acordou com a cachorra Gaia agindo de forma incomum.
administrador de banco de dados Fellipe Oliveira Morsolin, 32 – Foto: LEO MUNHOZ/ND“Vinha no quarto e voltava para a sala. Ouvi um barulho forte de água e pensei que havia deixado uma torneira aberta. Fui ao banheiro e estava tudo normal. Subi para ver se a caixa d’água estava com problema, mas estava normal e a cachorra ainda inquieta. Quando cheguei na sala, vi através da porta um rio passando em frente à rua, alagando minha garagem”, diz Morsolin.
Na tragédia, ele perdeu o carro e viu os vizinhos debaixo perderem tudo em bens materiais. Outros perderam os pets tempos depois, contaminados pela água que invadiu ruas e casas. Felipe disse que foi ressarcido pelo veículo cerca de cinco meses após o desastre, mas considera que ainda tem valores a receber. Ele é um dos moradores que assinou a ação coletiva de danos morais contra a Casan por conta disso.
A professora Thaliny Moraes, 28, preside a Amabase (Associação dos Moradores da Servidão Manoel Luiz Duarte). Ela não estava em casa na hora da tragédia e a maior preocupação foi com os pais, que se salvaram depois de subir o muro dos fundos da casa e se embrenhar na vegetação.
Maria Nunes, 59, vive o trauma até hoje – Foto: LEO MUNHOZ/NDA mãe dela, Maria Nunes, 59, vive o trauma até hoje. “Foi um horror, saímos com água pelo pescoço, aquela água preta de lodo. Não dá pra esquecer. Quando chove, a gente fica meio apreensivo”, afirma a mãe.
“Para mim está sendo mais desafiador nos períodos de chuva e nessas memórias, como agora nos três anos. Na época do rompimento no Sapé [no Morro da Caixa, em setembro passado] também foi bastante desafiador, porque estive lá. Esses momentos são bem comoventes para nós. O bom de ter passado esse tempo é que dá uma arrefecida na situação”, diz a filha.
Contraponto da Casan
Gerente de Meio Ambiente da Casan, Andrea Thennepohl falou sobre a recuperação ambiental da área afetada. Segundo ela, entre as ações que a Casan vem realizando está o projeto de recuperação ambiental do local onde ocorreu o desastre.
Rompimento na Lagoa da Conceição – Vídeo: Bombeiros/Reprodução
“Está em fase final de elaboração, para aprovação da Floram (Fundação do Meio Ambiente de Florianópolis), e para começar brevemente. Consiste na remoção das [plantas] exóticas que cresceram na região, semeadura das nativas, conformação dos taludes, das dunas, para ficar estável, depois, o acompanhamento, para que floresça e retorne à condição original”, explica Andrea.
Casan foi multada em R$ 15 milhões após rompimento na Lagoa da Conceição – Foto: Leonardo Sousa/PMF/Divulgação/NDEm relação à garantia de segurança, ela sustenta que a Casan investiu muito para que o desastre não se repita. Entre eles, um estudo geotécnico de todo o entorno da lagoa, atestando que ficou estável.
“Também estabelecemos um nível de operação da lagoa de evapoinfiltração. Com esse nível máximo, a Casan garante que não vai acontecer mais o evento, além do muro que deu essa segurança para o local”, afirma.
Rompimento na Lagoa da Conceição – Foto: Leonardo Sousa/PMF/Divulgação/NDA Casan pretende desativar a lagoa de evapoinfiltração existente. Para tanto, os técnicos da estatal vão monitorar a execução de um modelo substitutivo.
“Trabalhamos na concepção de um novo projeto para fazer um campo de aspersão, uma irrigação desse efluente em outra parte do parque, nas dunas, um pouco mais pra trás, onde faremos totalmente a infiltração do efluente, não mais formando lagoas. Foi aprovado pela Floram e estamos na fase de caracterização geotécnica do solo, para fazer o projeto executivo e depois executar”, declara Andrea.
Situação no momento do incidente na Lagoa da Conceição em Florianópolis – Foto: Reprodução/ND