O pescador Osvanir Julio Dias, 55 anos, nativo de Florianópolis e morador da Lagoa da Conceição, percebe que, aos poucos, a Lagoa volta ao normal. Funcionário público, pratica pesca artesanal e ficou impedido de pescar na Lagoa por um tempo, em função do desastre ambiental de janeiro de 2021. No domingo (11), no entanto, voltou para casa com duas tainhotas no balde.
Nativo da Ilha, Osvanir Julio Dias voltou para casa com duas tainhotas, da Lagoa da Conceição, no balde na pescaria de domingo (11) – Foto: Leo Munhoz/NDO rompimento do talude da Casan (Companhia Catarinense de Águas e Saneamento) levou dejetos para a Lagoa da Conceição, intoxicou e matou peixes, destruiu e alagou casas, em especial na servidão Manoel Luiz Duarte.
“Eu penso que está voltando à normalidade aos poucos. As autoridades deveriam tomar outras atitudes em relação à Lagoa, inclusive o desassoreamento, dragar o canal da Barra”, ressalta o pescador.
SeguirMoradores da Lagoa da Conceição ainda insatisfeitos
Na orla da Lagoa da Conceição, moradores e entidades conseguem fazer um protesto perene, sem estar no local todos os dias. Isso porque uma série de crucifixos estão fincados no chão, para que o desastre de janeiro não seja esquecido.
Protesto organizado por entidades fixou cruzes na Lagoa da Conceição para que o desastre ambiental não seja esquecido – Foto: Leo Munhoz/ND“As cruzes foram uma ação conjunta de várias entidades, dada a situação da Lagoa. Também temos faixas espalhadas pela bacia”, explica Amanda Nicoleit, moradora da Servidão mais atingida, que teve casas e carros alagados, após o desastre ambiental.
Segundo ela, até agora, não existe um plano para a limpeza da Lagoa. “E nem um plano de contenção da lagoa de evapoinfiltração. Temos apenas sacos de areia que estão refazendo o talude”, conta Amanda.
À direita, na imagem, o lago artificial da Casan que encheu e rompeu o talude em 25 de janeiro de 2021 – Foto: Leo Munhoz/NDEla segue, desde o primeiro dia, na casa atingida pelo desastre, mas conta que há famílias desalojadas. Ao todo, 66 pessoas e 35 edificações foram atingidas no desastre da Lagoa da Conceição.
Uma delas é a professora aposentada Vera Maria Barth, 67 anos, que morreu de Covid-19, no Rio Grande do Sul, na madrugada da última terça-feira (6).
Ministério Público de olho
Embora os peixes estejam voltando aos poucos, o MPF (Ministério Público Federal) segue acompanhando os desdobramentos e questões da Lagoa.
Na última quinta-feira (8), o órgão deu 48h para que a Casan solucionasse um extravasamento de dejetos na tubulação abaixo do trapiche da Cooperbarco (Cooperativa de Barcos de Florianópolis).
Segundo a assessoria da Casan, o problema seria no ramal interno da cooperativa de barcos. Ou seja, um problema que é “de responsabilidade do cliente”.
O presidente da Cooperbarco, Bruno Laureano, vai passar o bastão da cooperativa em maio. Ainda no comando, disse que o extravasamento foi solucionado. “Apenas um pequeno vazamento, que está sendo consertado”.
Trapiche da Cooperbarco, na Lagoa da Conceição, apresentou vazamento; segundo presidente da cooperativa, o problema foi solucionado e estará totalmente resolvido nesta semana – Foto: Leo Munhoz/NDConforme Bruno, o extravasamento não trouxe novos danos à Lagoa, contrariando a denúncia do MPF, que advertiu a Casan sobre a “responsabilização pelos reiterados eventos de poluição que estão destruindo o ecossistema da Lagoa”.
O presidente da Cooperbarco disse que o problema na tubulação deve ser resolvido no decorrer desta semana.
“Apenas um cano que vazou 10 litros de água e não é da cooperativa o problema, mas da Casan. Só estamos arrumando, porque precisamos utilizar os banheiros”, disse. Por outro lado, a cooperativa não vai esperar ajuda da estatal, nem da Prefeitura de Florianópolis.
“Se esperar por eles, fica um ano fechado. Já compramos os tubos e contratamos um pedreiro pra trocar”, informou.
Problemas antigos
O pescador Osvanir diz que não é de agora que a bacia da Lagoa da Conceição está com problema, mas o desastre agravou a situação no entendimento dele. Embora reconheça os danos, disse que não tem mais peixe morrendo, que está encontrado siri e outros crustáceos na Lagoa.
Osvanir Julio Dias é pescador artenasal e disse que, aos poucos, consegue encontrar pescados na Lagoa da Conceição, após desastre ambiental de janeiro – Foto: Leo Munhoz/ND“Aqui, além da tainhota, a gente pega carapeva, camarão, bagre, robalo, dentre outros peixes”, explica o pescador.
Ele também ressalta que a Lagoa nunca teve grande oferta: “É mais tainha, que na época de maio vai para o mar. A Lagoa em si é Camarão, Siri, e agora voltou ao natural, depois da tragédia”, avalia o pescador.
Empresário, morando há poucos dias na Lagoa, Rafael Ribeiro, 39 anos, tem uma visão um pouco diferente da situação. Ele disse que se deparou com os nativos se mobilizando para fazer a despoluição da Lagoa.
“Lagoa essa que é histórica, que é do turismo e que estamos vendo peixes mortos, tarrafas paradas porque os nativos não conseguem pescar”, disse. Em visita à Lagoa ontem, a reportagem do ND encontrou um peixe morto no local.
Peixe morto estava na beira d’água, na Lagoa da Conceição, no domingo (11) – Foto: Leo Munhoz/NDSegundo Amanda, até o momento, somente as indenizações mais simples foram recebidas, enquanto as mais complexas estão paradas. Ela também disse que a promessa da Casan de um edital de danos morais não avançou.