A comunidade do bairro João Paulo, liderada pela associação dos pescadores locais, protocolou no MPF (Ministério Público Federal) uma representação para instaurar um inquérito civil para investigar o impacto ambiental da instalação da ETE (Estação de Tratamento de Esgoto) da Casan e pedir a paralisação das anunciadas obras de ampliação da estrutura. Serviços de corte de vegetação e terraplanagem já estão em andamento.
Lodo tomou conta da praia do João Paulo. Foto/Arquivo: Flávio Tin/NDA representação protocolada na última sexta-feira (5) afirma que a instalação da ETE João Paulo/Saco Grande ocorrida há 14 anos “já trouxe prejuízos ambientais imensuráveis” com o acúmulo de lodo na praia do João Paulo, “prejudicando a atividade profissional da segunda maior colônia de Pescadores de Florianópolis”, liderada pela APPAAJOP (Associação dos Pescadores Profissionais, Artesanais e Amadores da Praia do João Paulo e Saco Grande).
Com base em um relatório de fiscalização da Aresc (Agência Reguladora dos Serviços Públicos de Santa Catarina) de 2013, o documento afirma que “a ETE Saco Grande possui a saída de sólidos sedimentáveis acima dos valores previstos legalmente”, e que os “sólidos sedimentáveis são considerados indicadores de poluição”.
SeguirO documento também cita outro relatório da Aresc elaborado em 2019 que aponta irregularidades na ETE tais como “ausência de adequadas condições de limpeza, conservação, manutenção e/ou segurança”.
Lodo já dificultava vida do pescador quando o trapiche novo estava em construção. Foto: Marco Santiago/NDDessa forma, a representação alega que a proteção constitucional aos direitos da comunidades pesqueira esta ameaçada, conforme o artigo 216 da Constituição Federal, e de acordo com o artigo 3º do decreto nº 6.040/2007, que institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais.
Presidente da APPAAJOP, Silvani Ferreira, revelou o sentimento da comunidade diante da situação. “Nós estamos apavorados”. De acordo com a liderança, além de não ter a garantia de qualidade no tratamento, a baia não vai suportar a carga de efluente tratado que será lançada pelo emissário.
“Não tem tanta corrente marítima. É diferente da ponta da Daniela ou de Naufragados. Quando a maré enche vem tudo para cá. Tem que ter um estudo”, argumenta.
A representação também alega falhas no processo burocrático de execução da obra, como a falta de um EIV (Estudo de Impacto de Vizinhança), e o fato da associação não ter tido acesso ao EIA (Estudo de Impacto Ambiental) da ampliação da ETE.
Além da paralisação em caráter “urgente” das obras de ampliação, a representação pede adoção de medidas para retirada do lodo na faixa de areia, a fiscalização da ETE do João Paulo/Saco Grande e transparência em relação as obras de ampliação.
ETE da Casan no bairro João Paulo/Saco Grande. Foto: Acervo Casan/NDA Casan afirma que vem mantendo contato com líderes da região a fim de manter um diálogo que seja produtivo, próprio para esclarecimentos de toda ordem e a demonstração dos benefícios do sistema de esgotamento sanitário. Há uma semana, a companhia concessionária fez um esclarecimento público sobre a ampliação da ETE João Paulo/Saco Grande, depois que algumas informações circularam por grupo de mensagens e mobilizaram moradores do bairro.
No comunicado, a Casan afirmou que “a comunidade só tem a ganhar com os benefícios da obra”, que usará o tratamento terciário para remoção de coliformes, nitrogênio e fósforo. Ainda, segundo a companhia, o ambiente será mais propício inclusive para a pesca.