Uma árvore da espécie conhecida como cinzeiro-pataguá foi encontrada em uma pequena área do Parque Nacional de São Joaquim, que faz parte da Mata Atlântica. Uma equipe de ecólogos da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) quer conhecer as propriedades do arbusto.
Equipe de pesquisadores da UFSC na Serra de Santa Catarina – Foto: UFSC/Divulgação/ND“Estávamos fazendo a medição de árvores para um projeto de monitoramento no Parque Nacional de São Joaquim, onde acabamos encontrando 59 indivíduos da espécie, o que despertou a nossa atenção para investigá-la”, diz o ecólogo Eduardo Luís Hettwer Giehl.
Com esse objetivo em mente, Eduardo Giehl e Rafael Barbizan, pesquisadores no Departamento de Ecologia e Zoologia da UFSC em Florianópolis, lideram um estudo inédito, cuja proposta envolve o monitoramento do cinzeiro-pataguá com o objetivo de realizar um levantamento mais abrangente dessa espécie de árvore ameaçada de extinção e restrita à região.
SeguirA extinção de populações e espécies é algo que afeta o ecossistema e a biodiversidade. Para o professor Giehl e a equipe de pesquisadores, a dor da perda de uma única espécie é imensa, maior ainda quando pouco se sabe sobre ela.
“Para nós é um abalo muito grande perder uma espécie, queremos preservar todas e o cinzeiro-pataguá está numa situação bem delicada”, explica. Todo cientista é movido a entender “porquês”. Isso mobiliza o grupo de pesquisadores da UFSC a investigar por que a espécie Crinodendron brasiliense é tão rara.
Além disso, o grupo de ecólogos da UFSC busca entender por que a espécia não existe em outros locais além das regiões montanhosas do Parque Nacional de São Joaquim.
“Pode ser um problema na germinação dela ou depois que ela germina, um animal vem e come. Pode ser que a sobrevivência dessas mudas dependa de uma quantidade de luz específica, até mesmo mais ou menos umidade”, argumenta o ecólogo Barbizan.
Características da espécie
Os estudos preliminares sobre o cinzeiro-pataguá indicaram que a planta é um arbusto de dois a três metros de altura, podendo ter estatura de arvoreta com até 7 metros. No entanto, a equipe de ecólogos da UFSC já encontrou indivíduos com mais de 10 metros de altura.
Cinzeiro-pataguá – Foto: UFSC/ Divulgação/NDAlém disso, descobriram que a árvore perde suas folhas no inverno e que sua madeira não é tão resistente. Essas informações não estavam descritas em nenhuma publicação anterior.
“Isso não está descrito nos trabalhos em que ela aparece. Então cada informação que a gente obtém é uma informação nova que nos ajuda a entender um pouco da biologia dessa espécie”, diz Giehl.
Também existem informações relevantes sobre seu habitat: Crinodendron brasiliense é endêmica da Mata Atlântica, com área de ocorrência muito restrita, limitada ao Planalto Serrano catarinense. Os indivíduos encontrados pelos pesquisadores estão todos localizados no Parque Nacional de São Joaquim.
Cinzeiro-pataguá está classificada como em perigo de extinção
Crinodendron brasiliense ocorre em um dos hotspots para conservação da biodiversidade: a Mata Atlântica. Essa ecorregião é mundialmente conhecida por seu grande número de espécies endêmicas, onde Crinodendron brasiliense é mais um exemplo.
A Mata Atlântica também é reconhecida pela grande perda de habitat pela qual tem passado. Hoje restam entre 7% e 27% da floresta original dessa ecorregião. Segundo o CNCFlora (Centro Nacional de Conservação da Flora), existem 2.953 espécies da flora brasileira ameaçadas de extinção. O órgão é nacional em geração, coordenação e difusão de informação sobre biodiversidade e conservação da flora brasileira ameaçada de extinção.
Porém, o centro não menciona a espécie catarinense, muito provavelmente porque ela não chegou a ser avaliada pelos especialistas do grupo ou em mais um exemplo das lacunas de conhecimento sobre a espécie. Assim, em uma etapa anterior ao projeto atual, Rafael submeteu os dados de Crinodendron brasiliense à lista da União Internacional para Conservação da Natureza, um órgão internacional com função semelhante ao CNCFlora.
A lista possui três níveis de classificação das espécies ameaçadas: vulnerável, em perigo, e criticamente ameaçado. Com essa iniciativa, a espécie foi reconhecida como ameaçada globalmente e, atualmente, Crinodendron está no segundo grau, sendo considerada uma espécie em perigo de extinção.