Tomaz Manoel dos Santos é pescador do Norte da Ilha, em Florianópolis, e lembra da sua infância no Rio do Brás em Canasvieiras. Era do rio que saía o sustento de toda a família. Bem diferente do cenário de hoje.
Rio do Brás, no Norte da Ilha de Santa Catarina – Foto: Reprodução/NDTV RecordTV“Camarão, tainha, tainhota, corvina, robalo. Tudo quanto é tipo de espécie de peixe tinha aqui. Inclusive, até nós, os meus irmãos, a gente vinha tomar banho no rio. O rio chegava a 2 metros de profundidade. A gente tirava 40 a 50 kg de camarão todos os dias. E essa água era tão clara que de cima dava para ver o fundo”, contou Santos.
Há décadas moradores da região de Canasvieiras lutam por medidas mais efetivas de cuidados ambientais no principal rio do bairro. A pedido do Balanço Geral Florianópolis, o professor de biologia e oceanografia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) Paulo Horta analisou as condições da água.
De imediato já é possível afirmar que há baixo nível de oxigênio no rio, trazendo prejuízos para os seres que vivem nele. “Infelizmente, a gente precisa dizer para a sociedade que o rio tá doente e que são necessárias e urgentes soluções sistêmicas envolvendo uma recuperação imediata do rio, uma mitigação ao menos dos impactos e a cessão dos efluentes que estão escorrendo, seja por estação de tratamento, seja por lançamentos clandestinos”, explicou o professor.
Segundo Horta, é necessário “fazer o saneamento urgentemente e melhorar as condições de fertilização do rio. Ou seja, retirar nutrientes da água e introduzir oxigênio”.
Já foram alguns episódios de poluição do rio e em alguns deles todo o material foi parar no mar de Canasvieiras. Ao longo dos últimos anos foram feitas ações de remoção de macrófitas, que são plantas aquáticas que crescem em áreas poluídas. Mesmo assim, a comunidade relata que ainda há poluição do esgoto que sai de prédios e condomínios no entorno do Rio do Brás.
Membros do SOS Rio do Brás querem uma resposta do poder público, já que na prática o rio não está sendo usado como deveria por conta dessa poluição.
“A saúde do rio, dos córregos e das baías no município de Florianópolis e, no caso a gente tá chamando atenção pro rio do Brás, não tá melhorando no decorrer dos anos. Tanto o poder municipal como a prestadora de serviços tem dito que tem melhora, pois bem, aqui a prova real de que isso não tá acontecendo”, disse o advogado João Manoel.
Segundo o presidente do SOS Rio do Brás, José Luiz Sardá, “exatamente há seis anos, nós criamos o grupo público com o propósito de levar informação para as pessoas da degradação desse meio ambiente. De lá para cá, com o apoio da comunidade e alguns segmentos, nós avançamos, fizemos alguma coisa em prol do Rio do Brás, mas infelizmente muita coisa deixou a desejar. Diante dessa situação, nós decidimos transformar o SOS Rio Brás numa instituição jurídica. Desta forma, a gente pensa que vai poder avançar muito mais”.
A Secretaria do Meio Ambiente de Florianópolis disse que a prefeitura resgatou um estudo ambiental do Rio do Brás. A intenção é construir junto com a comunidade um projeto de revitalização de toda a área.
De acordo com o secretário adjunto de Meio Ambiente de Florianópolis, Lucas Arruda, “a prefeitura resgatou um estudo ambiental existente aqui para o Rio do Brás, para fins de revitalização do corpo hídrico mesmo e vamos escutar a comunidade. Existem propostas de urbanização, para uso público aqui do entorno do Rio do Brás. A gente vai avaliar se podemos conciliar essas duas iniciativas ainda pro ano de 2022”.
Outro pedido da comunidade é a abertura do rio, para que ele possa voltar a desembocar no mar.
“É uma decisão que também compete ao Município com diálogo com todos os órgãos da federação. É uma decisão um pouco mais robusta. Exige estudos ambientais mais qualificados do que os que a gente tem hoje, porque tem influência de maré, de corrente nas praias. Então, é uma hipótese que nunca foi descartada, mas que precisa de estudos mais aprofundados ”, falou Arruda
A Casan (Companhia Catarinense de Águas e Saneamento) instalou uma URA (Unidade de Recuperação Ambiental), responsável pela coleta e tratamento direto da água do Rio do Brás. Também há uma elevatória da companhia no local. Além do trabalho de fiscalização que é feito nos imóveis para conferir se o esgoto está sendo despejado no rio.
Segundo o chefe da agência da Casan na Capital, Francisco Pimentel, “a Casan fez o trabalho na rede, na elevatória e na estação que ela tinha que fazer. (…) E foi colocado equipamentos que, apesar de não ser atribuição da Casan, ela faz isso pra ajudar a complementar essa recuperação ambiental”.
Confira mais informações na reportagem do Balanço Geral Florianópolis.