Projeto de lei prevê proibição de bromélias em Florianópolis; veja o motivo

Para a Vereadora Noemi Leal, bromélias servem como local de proliferação das larvas dos mosquitos causadores da dengue; entretanto, medida não seria a mais correta no combate à dengue

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Redação ND Florianópolis

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Um projeto de lei que tinha como objetivo proibir a venda e cultivo de blomélias ornamentais em espaços públicos tramitou na Câmara Municipal de Florianópolis em 2021. O motivo, segundo a vereadora Noemi Leal, que propôs o projeto, era para “controlar o contágia da dengue na Capital”.

Em 2021, há 118 cidades catarinenses com focos confirmados de Aedes aegypti – Foto: Prefeitura de Joinville/Secom/Divulgação NDEm 2021, há 118 cidades catarinenses com focos confirmados de Aedes aegypti – Foto: Prefeitura de Joinville/Secom/Divulgação ND

A proposta foi negada pelo procurador Marcelo Machado no primeiro dia do mês de julho, mas a dúvida acerca do tema persiste. De fato as bromélias poderiam ser criadouros dos mosquitos da dengue? Para a vereadora, essas plantas acumulam água, que serviria como local de proliferação das larvas.

Mesmo com essa observação, o professor do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia do Centro de Ciências Biológicas da UFSC, Dr. Carlos Pinto, aponta que “o número de bromélias encontradas com larvas desse mosquito é muito pequeno em relação ao total de focos”.

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Mesmo já tendo sido encontrado nessas flores, a quantidade de focos do mosquito Aedes aegypti  em “depósitos naturais”, onde se inclui as bromélias, conforme ressalta o professor, nunca chegou a 2% do total de focos encontrados.

Carlos aponta que “a questão é que, como tem muito Aedes aegypti, algumas fêmeas colocam ovos em bromélias. É provável que se diminuirmos o número de focos do mosquito, bromélia não será mais um local utilizados pelo mosquito, pois com certeza, não é o preferencial”.

Nesse sentido, o professor da UFSC destaca que, antes de ser tomada uma decisão tão impactante, que poderia influenciar na fauna e na flora de Florianópolis, valeria a pena “ser feito um estudo um pouco mais pormenorizado sobre a real influência dos criadouros de aedes aegypti em bromélias”.

O professor Ilyas Siddique, do Laboratório de Ecologia Aplicada da UFSC, ainda reforçou que “a extinção das bromélias do seu ambiente natural, mesmo somente do ambiente urbano, seria desastrosa porque elas sustentam uma rede imensa de pequenos animais e microorganismos benéficos para a regulação ambiental. Essa biodiversidade gera vários benefícios ambientais, econômicos e sociais para a sociedade humana”.

Dengue em Santa Catarina

Santa Catarina possui atualmente 118 cidades com focos de mosquitos da dengue, contabilizando entre elas 48 mil desovas dos insetos. A maior parte desses municípios fica localizada no Oeste e no Litoral Norte catarinense, segundo a Dive/SC (Diretoria de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina).

De acordo com o órgão, o número de pessoas que contraíram a doença no Estado já chega a quase 19 mil. Conforme comentou o diretor da Dive, João Augusto Brancher Fuck, em entrevista à NDTV, Chapecó, Pinhalzinho e São Miguel do Oeste foram os primeiros municípios infectados no Estado.

A presença constante desse mosquito nas “cidades polo”, como ressalta João, acabou contribuindo para a proliferação da doença em cidades vizinhas. Para ele, as condições climáticas, o descuido da população e a grande circulação de pessoas e mercadorias aumentam ainda mais o contágio da doença, tanto no Oeste quanto no Litoral catarinense.

Meios de contágio e ações efetivas contra a doença

Segundo dados da Dive, reforçados por Carlos, no Estado, os principais focos de dengue são encontrados em pequenos depósitos de água (como pratos de vasos, garrafas mal acondicionadas, recipientes de degelo em geladeiras) e lixo (recipientes plásticos, garrafas, latas, sucatas e entulhos).

Ilyas reforça também que “a acidez e outras espécies de animais e microorganismos dentro das bromélias impede a proliferação do mosquito da dengue. Recipientes artificiais inclusive lixo cria condições muito mais propícias para o mosquito porque a água não acidifica tanto e não contém a diversidade e composição de outras espécies necessária para controlar o mosquito”.

Desta forma, antes de alterar a mata local, com a extração das bromélias e de impactar os animais que vivem no entorno delas e dependem dessas flores para sobreviverem, seria melhor “atacar o principal problema dos criadouros do mosquito que é o lixo nas cidades e os pequenos depósitos como pratos de vasos, garrafas e etc”, reforça Carlos.

Além de campanhas e políticas públicas que auxiliem na preservação dos ambientes sem o contágio da doença, reforçar os serviços de controle de zoonoses através das prefeituras municipais, propondo soluções aos moradores, é outra alternativa para controlar os focos dos mosquitos, reforça o professor.

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