Quente por aí? Ilhas de calor podem deixar temperatura até 3°C mais alta em áreas urbanas de SC

Estudo da Epagri/Ciram mostra que o calor em áreas urbanizadas é maior do que em áreas de floresta natural ou campo em três cidades catarinenses

Juliane Guerreiro Joinville

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Que os moradores de Santa Catarina têm sentido muito calor neste verão não é novidade: o ar-condicionado não ganha folga e houve até registro de onda de calor extremo em janeiro. Mas um estudo da Epagri/Ciram mostra que alguns catarinenses estão sofrendo um pouco mais que os outros com todo esse calorão – e isso mesmo estando na mesma cidade.

Está quente aí? Se você estiver em uma ilha de calor, deve estar ainda mais! – Foto: Flavio Tin/Arquivo/NDEstá quente aí? Se você estiver em uma ilha de calor, deve estar ainda mais! – Foto: Flavio Tin/Arquivo/ND

O levantamento feito pelo pesquisador Kleber Trabaquini demonstra que áreas mais alteradas por processos de urbanização, geralmente os centros de grandes cidades, apresentam temperaturas mais elevadas do que o entorno, formando as chamadas ilhas de calor.

Em Florianópolis, por exemplo, essas áreas podem ser até 1,6°C mais quentes, número que sobe para 2,8° C em Itajaí. A maior diferença, porém, é registrada em Joinville: na cidade mais populosa de Santa Catarina, as áreas urbanizadas podem ser até 3°C mais quentes do que o entorno – haja ar-condicionado para dar conta do recado.

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    Em Joinville, ilhas de calor podem ser até 3°C mais quentes - Epagri/Ciram/Divulgação
    Em Joinville, ilhas de calor podem ser até 3°C mais quentes - Epagri/Ciram/Divulgação
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    Ilhas de calor em Itajaí são até 2,8°C mais quentes - Epagri/Ciram/Divulgação
    Ilhas de calor em Itajaí são até 2,8°C mais quentes - Epagri/Ciram/Divulgação
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    Em Florianópolis, ilhas de calor são 1,6° mais quentes que o entorno - Epagri/Ciram/Divulgação
    Em Florianópolis, ilhas de calor são 1,6° mais quentes que o entorno - Epagri/Ciram/Divulgação

Para chegar a esses números, o pesquisador usou dados da temperatura da superfície da terra geradas por satélites.

Por que essas áreas são mais quentes que o entorno?

Os impactos da urbanização são visíveis: em imagens aéreas, por exemplo, é possível ver com nitidez como ruas, prédios e outras estruturas ocupam espaço onde antes estavam florestas e outros elementos da vida natural.

Temperaturas mais altas em áreas urbanizadas formam ilhas de calor em cidades de SC – Foto: Epagri/Ciram/Divulgação/NDTemperaturas mais altas em áreas urbanizadas formam ilhas de calor em cidades de SC – Foto: Epagri/Ciram/Divulgação/ND

Historicamente, essa urbanização pode causar problemas se feita de forma desordenada, como as enchentes, que causam transtornos em várias cidades. Mas como mostra o estudo da Epagri/Ciram, a urbanização também pode gerar fenômenos invisíveis, como o aumento das temperaturas.

“Os grandes centros urbanos são normalmente formados de materiais como concreto e asfalto, que interagem de forma diferente do que a natureza. Eles armazenam esse calor e reemitem essa onda de forma que aumenta a temperatura do ar, como se criasse uma mini estufa na cidade”, explica Kleber. O pesquisador destaca que, quanto maior a cidade e a concentração desses materiais, maior esse acúmulo de temperatura.

“Ela é sempre comparada com os arredores dessa cidade, por isso é chamada de ilha de calor. Qual era a temperatura normal pra ser? A temperatura da floresta. A gente que modificou a paisagem e, então, conforme vai aumentando esses centros urbanos, esse aumento de temperatura acontece”, salienta.

Ele explica, ainda, que há algumas variáveis que impactam a temperatura. Florianópolis tem um grande centro urbano, por exemplo, mas está mais exposta a correntes de vento do mar e isso ajuda a deslocar o calor. Já Joinville está menos exposta a essas correntes, o que torna mais difícil espalhar o calor.

O que fazer para reduzir as temperaturas nas ilhas de calor?

Kleber ressalta que o estudo tem o objetivo de mostrar como o ser humano é capaz de modificar a paisagem e de como essas mudanças podem trazer consequências no dia a dia.

Mas diante disso, o que fazer para reduzir as temperaturas nas ilhas de calor? Para o pesquisador, a solução para centros urbanos já existentes é buscar o aumento de áreas verdes e parques urbanos a fim de amenizar esse efeito. Em cidades em crescimento, é preciso fazer o planejamento urbano pensando também sob esse aspecto.

Veja a variação de temperatura nas ilhas de calor durante o ano – Foto: Epagri/Ciram/Divulgação/NDVeja a variação de temperatura nas ilhas de calor durante o ano – Foto: Epagri/Ciram/Divulgação/ND

Já pensando sob o ponto de vista dos catarinenses que moram nessas regiões, o investimento em telhados verdes, frios e refletivos pode ajudar a reduzir a temperatura e tornar a casa mais fresca.

O que dizem as cidades citadas no estudo?

Diante da sugestão do pesquisador de que as cidades podem tomar iniciativas para amenizar as temperaturas nas chamadas ilhas de calor, o ND+ perguntou aos municípios citados no estudo o que tem sido feito em cada um deles. Confira as respostas:

Joinville

“Em relação ao estudo realizado pela Epagri, apontando diferença de temperatura em diferentes regiões de Joinville, a Prefeitura de Joinville, por meio da Secretaria de Agricultura e Meio Ambiente (Sama), considerou relevantes os levantamentos realizados, mas esclarece que não podem ser usados de maneira isolada, já que existem outras variáveis que também influenciam na formação das ilhas de calor. Um dos pontos a serem considerados, é que o estudo foi feito por mapeamento de satélite, e levou em conta apenas a temperatura do solo.

“O estudo da Epagri não pode ser analisado de maneira isolada, pois existem diversos outros fatores que influenciam. Entretanto, realmente a tendência é de que o fenômeno ocorra em áreas mais antropisadas, ou seja, onde há maior densidade populacional, que acaba coincidindo com áreas mais urbanizadas. Por ter maior ocupação humana, acaba tendo maior impermeabilização do solo, mais edificações, sejam edifícios ou residências, e acaba tendo também maior fluxo de veículos”, explica gerente da Unidade de Desenvolvimento e Gestão Ambiental da Sama, Josimar Neumann.

A Unidade de Desenvolvimento e Gestão da SAMA, em parceria com a Secretaria de Planejamento Urbano e Desenvolvimento Sustentável (Sepud), Secretaria de Infraestrutura Urbana (Seinfra) e Secretaria de Proteção Civil e Segurança Pública (Seprot), está em fase de conclusão do Plano de Arborização Urbana do município, que define quais as diretrizes para a implementação da arborização das vias públicas em Joinville”.

Itajaí

“O Município de Itajaí iniciou um processo de reurbanização de espaços públicos e de revitalização do Centro como um lugar de convivência. Nas ruas e avenidas, os projetos alargaram as calçadas da rua Pedro Ferreira, no Centro, e avenida Campos Novos, no bairro São Vicente. Com ampliação dos passeios foram plantadas novas árvores.

O mesmo processo de ampliar a arborização aconteceu na revitalização do Largo da Matriz e está em andamento no Marco Zero de Itajaí, ambos no Centro. O Santa Regina, bairro mais recente da cidade, também recebeu a reurbanização da avenida Paulo Cantídio, principal via da região, com plantio de árvores no canteiro central e a construção da Praça Poliesportiva do Santa Regina.

O Instituto Itajaí Sustentável (INIS), órgão ambiental municipal, registrou 1550 árvores em 2021, referente à arborização e levantamento de árvores imunes ao corte na cidade. Anualmente, ações de plantio de árvores são realizadas pelo órgão. Na semana do meio ambiente de 2021, foram 100 mudas de espécies nativas na recuperação da restinga da praia do Atalaia. Já no dia da árvore, um plantio comunitário foi realizado às margens do ribeirão na localidade rural da Baía.

Temos um projeto para iniciar neste ano que é a reurbanização da avenida Marcos Konder, maior via do Centro de Itajaí, para transformar o espaço em um corredor verde“.

Florianópolis

“A Secretaria Municipal do Meio Ambiente – SMMA e a Fundação Municipal do Meio Ambiente – FLORAM vêm intensificando as medidas de plantio de árvores nativas do Bioma Mata Atlântica nas áreas do Continente e Centro da cidade, de modo a regular a temperatura e contribuir com os serviços ecossistêmicos nas regiões mais adensadas e urbanizadas”.