Rios ‘campeões de poluição’ em SC emitem 2,3 toneladas de plástico ao mar por ano

19/01/2023 às 07h00

Estado tem 10 entre os mil rios mais poluídos do mundo, e entra no ‘pódio’ dos estados brasileiros que mais geram sujeira

Lorenzo Dornelles Florianópolis

Receba as principais notícias no WhatsApp

Santa Catarina é um dos estados com maior quantidade de rios considerados mais sujos do Brasil. O levantamento foi realizado por pesquisadores do projeto Ocean Cleanup, que listou os mil rios mais poluídos do mundo.

Paisagem evidencia a urbanização nas margens do Itajaí-Açú – Foto: Marcelo Feble/Reprodução NDTVPaisagem evidencia a urbanização nas margens do Itajaí-Açú – Foto: Marcelo Feble/Reprodução NDTV

O principal critério utilizado na classificação é a emissão de plásticos. No mundo todo, os mil rios mais poluídos emitem juntos cerca de 2,17 milhões de toneladas de plástico para os mares anualmente.

Dentro da lista, 10 deles estão em Santa Catarina – que juntos emitem 2,3 toneladas de plástico no oceano.

Ao analisar o contexto nacional, o Estado tem um papel de destaque negativo.

Apenas o Rio de Janeiro (com 12 rios na lista) e Pernambuco (11) superam o número. Em um comparativo na região Sul, o Rio Grande do Sul conta com 6 rios na lista, enquanto o Paraná não tem nenhum.

Fato que chama a atenção em um Estado de economia tão forte e dependente, em grande parte, da qualidade de suas águas.

RIO ITAJAÍ-AÇU É O MAIS POLUÍDO DE SC

O rio catarinense em situação mais grave é o Itajaí-Açu, marca registrada da paisagem de Blumenau, um dos mais importantes municípios do Estado. São 641,8 mil quilos de plásticos emitidos nos oceanos por ano.

“Além de ser um rio com as margens urbanizadas, você tem um sistema de agricultura bastante intenso. É um rio que tem usos intensos.

E ao que parece a sociedade não sabe medir esses impactos”, diz o professor Paulo Antunes Horta, do Departamento de Botânica da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Roque Ricardo Zimmermann sente as consequências dessa poluição diariamente. Ele é treinador do Clube Náutico América, que oferece aulas de remo à população.

“A limpeza dessa água é fundamental para o nosso cotidiano, sem ela não tem esporte, não tem aula, não tem praticante”, reforça.

Roque Zimermann e alunas do Clube Náutico América usufruem do rio Itajaí-Açú, em Blumenau – Foto: Marcelo Feble/Reprodução NDTVRoque Zimermann e alunas do Clube Náutico América usufruem do rio Itajaí-Açú, em Blumenau – Foto: Marcelo Feble/Reprodução NDTV

Por conta própria, Roque e os alunos regularmente retiram resíduos da água.

“Sempre se tiver algum dejeto, alguma sujeira no rio, estamos tirando, porque já que estamos aqui no dia a dia, fazemos nosso papel de retirada de lixo, que infelizmente a gente acaba vendo”.

Lavínia Pacheco é uma das integrantes do clube de remo desde 2016, e também percebe a degradação do rio dia após dia.

“ A gente quando rema encontra muita sujeira ainda, e acho que com o passar do tempo isso está piorando. Acho que se deveria ter um pouco mais de cuidado com a natureza”, lamenta.

Lavínia Pacheco (esq.) rema desde 2016, e vê poluição crescer “dia após dia” no rio – Foto: Marcelo Feble/Reprodução NDTVLavínia Pacheco (esq.) rema desde 2016, e vê poluição crescer “dia após dia” no rio – Foto: Marcelo Feble/Reprodução NDTV

Ranking: os 10 rios mais poluentes de SC

Desenvolvimento urbano desordenado e afrouxamento das leis impulsionaram o problema

Pesquisadores da área avaliam que um dos principais motivadores da poluição é o processo de desenvolvimento urbano nas cidades do Litoral.

De Norte a Sul da costa catarinense, diversos municípios se tornaram polos industriais e turísticos, atraindo cada vez mais moradores. O planejamento urbano dessas cidades, no entanto, foi ignorando os impactos ambientais.

“O uso das bacias hidrográficas é algo a se pensar no Estado. Nós temos as matas ciliares como áreas de proteção natural dos rios e banhados.

O código florestal vem flexibilizando o uso dessas áreas marginais que são importantes filtros dentro do espaço urbano. Então nós temos uma degradação maior das bacias. Principalmente nas áreas urbanizadas”, diz a professora de oceanografia da UFSC Alessandra Larissa D’Oliveira.

Ela cita o exemplo do rio Itacorubi, na Capital, que também integra a lista dos 10 rios mais poluídos.

“Se você olhar a verticalização que estamos sofrendo na Ilha de Santa Catarina, como na bacia do rio Itacorubi, percebe que os prédios da última década não estão ligados na rede de sistema de esgoto, têm um saneamento individualizado. E a fossa, por melhor que seja, acaba levando esgoto pro rio em algum momento” afirma.

Para Leonardo Rubi Rörig, pesquisador de oceanografia, ecologia e monitoramento ambiental na UFSC, as falhas no planejamento urbano são graves e históricas nos municípios catarinenses.

“Esse é um fato que a gente fala há um tempo, mas ninguém ouve, ninguém admite: não existe planejamento  urbano, não existe planejamento sanitário. A natureza impõe isso: os espaços têm um limite de capacidade e de suporte. E o que vemos? Existe apoio e livre iniciativa para que se construa e que se adense a população, que se abra novas fronteiras urbanas. E ninguém está sendo responsabilizado por criar sistema de tratamento. É muito fácil você já ter um capital de giro, vir para um bairro novo, construir um monte de edifícios e agora que se vire a prefeitura. Isso não entra no planejamento”, reclama o professor.

Clique no infográfico para conhecer os 10 rios mais poluídos do Estado:

Os 10 rios mais poluídos de SC – Foto: Arte: Leandro MacielOs 10 rios mais poluídos de SC – Foto: Arte: Leandro Maciel

Como os pesquisadores identificaram os mil rios mais poluídos do mundo

A ‘Ocean Cleanup’ é uma equipe formada por pesquisadores de instituições da Alemanha e Holanda. Eles criaram uma lista com um critério definido: a quantidade de plásticos que os rios levam aos oceanos.

A lista completa dos mil rios foi publicada em um artigo detalhado na revista Science Advances. Atualmente, o mapa com todos os rios é disponibilizado em uma mapa interativo online.

Depois de analisar milhares de rios em todo o planeta, observando as características geológicas, proximidades com áreas urbanizadas e a distância necessária para o plástico sair de uma área e chegar ao mar, os pesquisadores identificaram que os 1.000 rios mais poluentes do mundo são responsáveis por até 80% do plástico que chega aos oceanos, apesar de representarem apenas 1% de todos os rios.

No Brasil, o rio mais poluente é o Meriti, no Rio de Janeiro, que leva 2,5 toneladas de plástico ao mar por ano.

Por que o plástico é tão nocivo?

O plástico está entre os principais contaminantes da água. O que é um enorme problema, já que é um ‘estranho’ no ecossistema que demora séculos para se decompor.

“Uma vez que transformado do petróleo, nós ainda não sabemos quanto tempo ele leva para se degradar. O que acontece com ele é o processo eresivo, vai ficando menor e menor”, explica o professor Paulo Horta.

Assim que chega no mar, o plástico é um grande vilão para toda uma população marinha – que pode ser sufocado pelo material ou confundi-lo com alimento, provocando sérios danos em seus aparelhos digestivos.

A origem de todo esse cenário está no uso exacerbado e falta de políticas educacionais e de destinação correta do material. Vale lembrar que todo plástico deve ter a destinação adequada desde o consumidor (dando o devido descarte dos resíduos) até a gestão pública (disponibilizando a separação de lixeiras nas ruas e praias, com políticas educacionais e provendo o serviço eficiente de coleta e reciclagem).

“As pessoas utilizam, não dão o devido destino, tratam como se fosse rejeito, e infelizmente por falta de políticas de drenagem urbana esses plásticos chegam ao mar”, complementa o professor, que avalia que ainda há carências de planejamentos na sociedade catarinense que assegurem a reciclagem universal – que, como reforça, é uma obrigação básica para todas as cidades.

Segundo ele, é importante ter clareza do processo histórico para entender que se trata de um problema “que herdamos de gerações passadas, e se não agirmos, os efeitos serão graves”.

Poluição nos rios gera impactos econômicos

“Aquilo que a gente colhe hoje, com nossas praias impróprias, pelo menos de forma indireta está relacionada com a poluição crônica de nossos rios”, diz o professor Paulo Horta, ao reforçar que é um resultado das carências de saneamento do Estado.

“Desde Araranguá até São Francisco do Sul vamos encontrar culturas que dependem do turismo – por óbvio -, da pesca e algumas também da maricultura. Todos esses três elementos estão fundamentalmente relacionados com ambientes saudáveis. Se um turista se depara com a praia suja, já interfere no fato dele voltar ou não naquele lugar. Se ele chega em uma praia imprópria, mais ainda”, complementa.

Horta destaca a urgência da compreensão da sociedade como um todo de tamanhos prejuízos.

“Isso vai seguir acontecendo na medida que a gente manter o saneamento como não sendo uma prioridade. E também enquanto a gente maltrata os ecossistemas. À medida que poluímos com plástico, estamos comprometendo os serviços da natureza, que melhoram a saúde da praia, dos pescados, do que se produz na maricultura.  É muito importante nós entendermos que, da mesma forma que preciso saber a destinação quando aperto o botão da descarga, preciso entender o destino daquela garrafinha de plástico depois que bebo. Eu preciso me importar com isso. Se não por uma questão ética, mas existencial. Porque nós dependemos disso” conclui.