TPA de Bombinhas tem apoio da maioria dos vereadores eleitos no município

21/11/2024 às 06h40

Apesar dos debates sobre legalidade, gestão da verba e transparência, TPA de Bombinhas segue tendo respaldo na Câmara Legislativa do municipal

Foto de Lorenzo Dornelles

Lorenzo Dornelles Florianópolis

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Na última semana, o NDI (Núcleo de Dados e Investigação do Grupo ND) detalhou a arrecadação da TPA de Bombinhas, a Taxa de Preservação Ambiental. O valor ultrapassa R$ 120 milhões em menos de dez anos. O tema é alvo de discussão nos tribunais acerca da legalidade da cobrança. O uso da verba e sua fiscalização também estão em debate.

A reportagem procurou os nove vereadores eleitos em outubro para saber como atuarão no controle da gestão dos investimentos da taxa. Vale ressaltar que é papel da Câmara de Vereadores receber relatórios e fiscalizar o uso do dinheiro.

Cobrança da Taxa de Preservação Ambiental para ingressar em Bombinhas voltou a entrar em vigor na última sexta-feira – Foto: Marco Santiago/NDCobrança da Taxa de Preservação Ambiental para ingressar em Bombinhas voltou a entrar em vigor na última sexta-feira – Foto: Marco Santiago/ND

Seis vereadores são a favor da cobrança. A justificativa para a manutenção da TPA são os investimentos realizados em ações para sustentar a alta movimentação de turistas no verão. Apesar disso, boa parte dos discursos reforça a necessidade de maior transparência nos investimentos da TPA.

Apenas um dos vereadores respondeu ser contra a taxa. No entanto, não detalhou os motivos, mesmo com o espaço oferecido. Outros dois eleitos foram abordados pela reportagem, mas não deram retorno.

O Grupo ND também buscou o posicionamento do prefeito eleito de Bombinhas, Alexandre da Silva (PSD). A resposta do político ao contato é de que não havia interesse em participar da reportagem. No plano de governo do candidato divulgado nas eleições municipais de outubro, não há menção à TPA.

Vereadores eleitos que são a favor da TPA de Bombinhas

A justificativa para a manutenção da TPA são os investimentos realizados em ações para sustentar a alta movimentação de turistas no verão – Foto: Marco Santiago/NDA justificativa para a manutenção da TPA são os investimentos realizados em ações para sustentar a alta movimentação de turistas no verão – Foto: Marco Santiago/ND

Claudinho (PP)

“A TPA veio para utilização em ações ambientais, limpezas de praias, trilhas, lixeiras entre outras ações, que é o que ocorre hoje. Os recursos que são arrecadados e destinados a essas ações e não saem diretamente dos cofres da prefeitura na Lei Orçamentária Anual, com isso, os valores podem ser investidos em obras e melhorias para o município em todas as áreas.

Contudo, ainda precisa de melhorias no sistema de arrecadação e nos prazos que os usuários têm para permanecer no município após a taxa paga.”

Juliane de Jesus (Podemos)

“Os recursos têm sido utilizados especialmente em ações sanitárias, limpeza pública e de praias, projetos de educação ambiental e planos de manejos de parques ambientais. Bombinhas possui recursos próprios de saneamento, todavia, o número de pessoas que visitam a cidade é enorme, o que gera mais impactos.

A TPA é uma importante receita. A utilização dos recursos se dá de acordo com a lei que rege a taxa, dessa forma, espera-se que os valores arrecadados sejam cada vez mais investidos em ações ecológicas e ambientais.”

Maior parte dos recursos arrecadados com a TPA de Bombinhas vai para a limpeza de praias, segundo dados do Portal de Transparência – Foto: Marco Santiago/NDMaior parte dos recursos arrecadados com a TPA de Bombinhas vai para a limpeza de praias, segundo dados do Portal de Transparência – Foto: Marco Santiago/ND

Gean Silva (PP)

“A TPA é uma importante fonte de arrecadação para o município que auxilia na manutenção do impacto causado pela alta taxa de visitação ao município na temporada de verão.

O município tem utilizado a verba de maneira consciente e de acordo com a lei que criou a TPA. Acredito que cada vez mais o município busque investir os valores arrecadados em projetos ambientais que mantenham a cidade sempre preservada.”

Lari Gobatto (UNIÃO)

A TPA tem um papel essencial para manter o meio ambiente em boas condições, especialmente no verão. Além de ajudar a lidar com os impactos da alta temporada, a TPA é uma fonte de renda importante para a cidade.

No entanto, é fundamental que o uso desse dinheiro seja discutido com a comunidade, tanto para assegurar que todos estejam cientes de como está sendo utilizado, quanto para avaliar novos investimentos, como a criação de parques naturais e obras voltadas de preservação ambiental.”

Leandro Garcia (PSD)

“Foram feitos vários investimentos ao longo desses anos. Porém, é importante ter transparência em tudo que é feito, até mesmo por uma questão de credibilidade ao trabalho realizado e também como uma prestação de contas a quem paga a taxa.

Devem ser feitos mais investimentos que fiquem visíveis a cada turista que frequenta nossa cidade. Acredito que a TPA, passando por esses ajustes, é de grande valia.”

Gui Maffei (PSD)

“Essencial para preservar Bombinhas, o segundo menor município do país, com 70% da área protegida. Com a população aumentando 100 vezes na alta temporada, os recursos garantem limpeza das praias, conservação ambiental, fortalecimento da Famab (Fundação de Amparo ao Meio Ambiente de Bombinhas) e proteção das nossas belezas naturais, como as praias de Bandeira Azul.”

Contrário:

Boca (PL)

Não se manifestaram:

Tiago Souza (Podemos)

Lurdinha (Novo)

Histórico da “guerra judicial” da TPA de Bombinhas

A criação da TPA de Bombinhas foi em 2013 e, desde então, gera debates sobre sua constitucionalidadeA criação da TPA de Bombinhas foi em 2013 e, desde então, gera debates sobre sua constitucionalidade – Foto: Prefeitura de Bombinhas/Divulgação
  • 2013 – Criação da TPA de Bombinhas

O que diz a Lei Complementar nº 185/2013: “Tem como fato gerador o ingresso de visitantes em altíssima escala durante os meses de novembro a abril em um território de apenas 36km²e de extrema sensibilidade ambiental”.

  • 2014 – Ministério Público abre ação de inconstitucionalidade

MPSC alega irregularidades na TPA, como, por exemplo, o impedimento de livre trânsito e a discriminação com os visitantes devido à cobrança. Em dezembro do mesmo ano, o Órgão Especial do TJSC (Tribunal de Justiça de Santa Catarina) negou, em votação por maioria, o pedido e a cobrança permaneceu. O mérito da lei ficou com o julgamento pendente.

  • 2015 – Justiça catarinense decide a favor da TPA
  • 2020 – Emenda altera redação da constituição estadual

A Assembleia Legislativa de Santa Catarina aprova a Emenda Constitucional nº 79/2020, que modifica oart. 128, V, da Constituição.

Art. 128. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado ao Estado e a seus Municípios:

Redação antiga:

V – estabelecer limitações ao tráfego de pessoas ou de bens por meio de TRIBUTOS interestaduais ou intermunicipais, excluída a cobrança de preço pela utilização de vias conservadas pelo Estado;

Redação após a emenda:

V – estabelecer limitações ao tráfego de pessoas ou de bens por meio de TRIBUTOS interestaduais ou intermunicipais, INCLUSIVE POR MEIO DE COBRANÇA DE TAXA DE QUALQUER NATUREZA excluída a cobrança de preço pela utilização de vias conservadas pelo Estado;

  • 2019 – STF endossa constitucionalidade da TPA

O STF (Supremo Tribunal Federal) nega recurso extraordinário junto ao processo anteriormente julgado pelo TJSC e confirma a constitucionalidade da TPA de Bombinhas.

No dia 6 de agosto, o MPSC emitiu parecer favorável à Ação de Inconstitucionalidade da TPA de Bombinhas – Foto: Setur Bombinhas/Reprodução/NDNo dia 6 de agosto, o MPSC emitiu parecer favorável à Ação de Inconstitucionalidade da TPA de Bombinhas – Foto: Setur Bombinhas/Reprodução/ND
  • 2014 – Deputados estaduais movem nova ação de inconstitucionalidade

17 de abril

Com base na mudança da constituição estadual, deputados estaduais catarinenses alegam inconstitucionalidade na cobrança da TPA de Bombinhas, e ingressam com nova ação no TJSC.

18 de abril

Prefeito de Bombinhas, Paulo Henrique Dalago Müller, se manifesta em defesa da legalidade da TPA de Bombinhas. Em documento, argumenta que a mudança na constituição se deu apenas na forma de escrita, sem impactaras decisões judiciais que entenderam que a criação da taxa se justifica pelos danos ambientais causados, e não pelo impedimento do tráfego de pessoas.

“[…} A Emenda à Constituição Estadual não alcançou a cobrança da TPA do Município de Bombinhas eis que nada acrescentou ou modificou o ordenamento jurídico em vigor.

6 de agosto

O MPSC (Ministério Público de Santa Catarina) emite parecer favorável à Ação de Inconstitucionalidade da TPA. No documento, o órgão argumenta que há ilegalidade na cobrança da taxa por “subsidiar a prestação de serviços públicos genéricos”, que poderiam ser custeados por meio de impostos. Além disso, destaca a limitação do tráfego de pessoas como ilegítima.

[…] Não há como negar a existência de desestímulo ao tráfego dos indivíduos vindos de outros lugares. Afinal, o simples fato de se estabelecer uma cobrança no ingresso no município constitui óbice ao livre trânsito e passagem das pessoas, podendo culminar, inclusive, no total impedimento de ingresso daqueles que não dispõem da quantia necessária para adentrar na municipalidade. […]”

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