Era manhã de sexta-feira (24), véspera do dia reservado para as compras no sacolão, quando Thomas Vilas Boas teve uma surpresa desagradável: um filhote de cobra, de cerca de 40 centímetros, estava “morando” na geladeira de casa, no bairro Coqueiros, em Florianópolis. “Achamos que ela veio junto com o repolho”, acredita o estudante de teologia.
Após enviar imagens aos bombeiros, o jovem recebeu um retorno que o deixou mais preocupado: a suspeita era de que seria uma jararaca, espécie venenosa. Biólogos consultados pelo ND+ informaram que na verdade se trata de uma dormideira, também conhecida como cobra papa-lesma.
Espécie estava vivendo há quatro dias na gaveta de legumes da geladeira – Vídeo: Arquivo Pessoal/ND
SeguirTudo começou quando a empregada doméstica foi averiguar os alimentos que faltavam. “Ela foi olhar cedo porque sempre esquecemos da lista do sacolão. Daí viu que tinha um rolinho preto e pensou que eu tinha posto uma cobra de brincadeira para assustar. Foi lá e passou a mão. Como estava gelada, desconfiou que não era de plástico”, conta Vilas Boas.
Imediatamente o jovem acionou os bombeiros militares, que por sua vez pediram imagens da serpente. “Recomendaram que a cobra fosse retirada com um instrumento, posta em um balde e levada para algum lugar com mato”, detalha o jovem. Ele utilizou um rastel para o trabalho.
“Na hora que fui puxar a cobra, com um dos ganchos, ela mexeu. Mas bem devagar, já estava meio mal”, lembra Vilas Boas. Como o filhote estava há pelo menos quatro dias na geladeira, período em que fora realizada a última compra no hortifruti, ficou enfraquecido.
Bombeiros militares orientaram jovem a levar serpente até terreno nas imediações – Foto: Arquivo Pessoal/NDVilas Boas transportou a serpente dentro do balde até um terreno nas imediações. A cobra voltou a viver livre – e em temperatura ambiente. “No sábado acabamos comprando pouca coisa. Frutas e, no máximo, um alface”, lamenta.
Espécie não é venenosa e se alimenta de lesmas e caracóis
As serpentes dormideiras não são venenosas e não mordem. É comum que elas “se escondam” nos vegetais – o motivo é a dieta da espécie, formada por lesmas e caracóis, que as atraem para dentro de alfaces, repolhos e couves-flores, segundo o biólogo Gilberto Ademar Duwe.
Por conta da coloração, a papa-lesma costuma ser confundida com as jararacas. “Tem diferença, como padrões desenho das jararacas: ‘v’ invertido, pirâmide e triangulo, por exemplo”, ilustra Duwe. Há outras distinções que devem ser consideradas em conjunto. “Com toda certeza a cobra [encontrada na casa de Vilas Boas] é uma dormideira”, garante.
Por ser “desinibida” é comum flagrar dormideiras em lugares inusitados. “Ela não procura se esconder. Tem quem as ache em máquina de lavar roupa e bicicleta. E como as pessoas têm horta e jardim, locais propícios para a aparição de lesma, acabam atraindo as espécies”, conta Duwe.
Serpente ficou cerca de 4 dias na fruteira da família – Foto: Arquivo Pessoal/NDEsses traços aumentam as aparições da papa-lesma em meios urbanos. Em 2021 foram resgatadas 300 espécies em Jaraguá do Sul, no Norte do Estado. Mais de cem eram dormideiras. “É a espécie de cobra que mais encontramos em área urbana”, ressalta Duwe, que atua no município.
Orientações
Ao se deparar com cobras, é necessário entrar em contato com o órgão que atue no resgate dos animais, oriente Duwe. Em Florianópolis há os bombeiros militares, a PMA (Polícia Militar Ambiental) e a recém-criada Guarda Ambiental, vinculada à prefeitura de Florianópolis.
“É importante consultar um biólogo, que vai ter capacidade de identificar. Não é bom identificar a espécie por conta”, ressalta. “Mais de 70% das cobras encontradas em meios urbanos não são peçonhentas e não representam risco”, pontua.