Moradores da Lagoa da Conceição, em Florianópolis, flagraram peixes e siris aparentemente mortos e agonizando na beira da água. O cenário foi registrado em vídeos que circularam na internet na noite dessa quarta-feira (5).
Moradores flagraram peixes e siris mortos na Lagoa da Conceição – Foto: Divulgação/NDO presidente da Amola (Associação de Moradores da Lagoa da Conceição), Bruno Negri, que compartilhou alguns dos vídeos, informou que as imagens foram gravadas na avenida das Rendeiras e na região entre o Canto da Lagoa e o Porto da Lagoa.
As cenas mostram dezenas de peixes e siris boiando inertes já próximos da areia. Negri acredita que a situação possa ter sido causada pela baixa oxigenação da água, considerada hipóxica, e agravada pelo calor.
SeguirPorém, algumas horas após os registros, o cenário já era outro. Boa parte dos animais já havia se dissipado. Foram encontrados alguns peixes pequenos mortos. De acordo com o presidente da Associação, situações como as registradas em vídeo são frequentes na Lagoa da Conceição.
“Parece que está tudo bem, mas não é bem assim. O cenário de falta de oxigênio visto ontem [quarta-feira] no Canto da Lagoa e nas Rendeiras melhorou com a noite e o esfriamento causado pelo vento Sul. Poderia ter sido um evento de grande mortalidade. O que vimos é um reflexo da falta de saúde da Lagoa, que está balneável para humanos, mas está doente para a fauna marinha”, alertou Negri na manhã desta quinta.
O presidente da Amola afirmou que um comitê foi formado em 2021 por órgãos municipais e entidades do bairro. “Usamos como canal de comunicação para informar sobre as ocorrências. Avisamos a todos os responsáveis. A Polícia Militar Ambiental foi acionada e esteve no local”, disse Negri.
Veja o vídeo gravado por morador:
Moradores flagraram peixes e siris agonizando na Lagoa da Conceição – Vídeo: Divulgação/ND
Guarnição verificou cenário
A reportagem entrou em contato com o comandante do 1º Batalhão de Polícia Militar Ambiental, tenente-coronel Marledo Egídio Costa, que confirmou que uma guarnição se deslocou até o local das denúncias por volta das 22h de quarta.
Imagens feitas pelos próprios policiais mostram que os animais já haviam se dispersado. Na manhã desta quinta, a guarnição voltou à região e obteve a mesma constatação.
“Foram encontrados alguns poucos peixes miúdos mortos. Vamos acompanhar e ver o que pode estar acontecendo, mas a princípio não houve algo mais grave”, disse o comandante.
Guarnição da PMA voltou ao local das denúncias na manhã desta quinta-feira (6) – Foto: PMA/Divulgação/NDFloram apura causas
A Floram (Fundação do Meio Ambiente de Florianópolis) informou, por meio de nota, que está ciente e apurando as causas das ocorrências reportadas nessa quarta-feira na Lagoa da Conceição.
Conforme o órgão, os eventos podem estar associados a locais de menor circulação de água e potencial proliferação de algas e fitoplâncton com as altas temperaturas. Técnicos da Floram irão se pronunciar de forma conclusiva após as investigações.
O que diz a Casan
Nota enviada pela Casan (Companhia Catarinense de Águas e Saneamento) ressaltou que a morte de animais marinhos pode ser consequência de um conjunto de fatores, desde o comprometimento do ambiente até descarte de redes de pesca.
A Companhia também informa que na região do Porto da Lagoa, entre a rua Canto da Amizade e a avenida Osni Ortiga, não há sistema público de esgoto em operação. O texto diz ainda que as residências devem manter o sistema individual de fossa, filtro e sumidouro em devido funcionamento sem fazer ligações irregulares na rede de drenagem.
“Nas demais regiões atendidas pela Companhia, o Sistema de Esgotamento Sanitário da Lagoa da Conceição opera normalmente. A Casan também informa que por meio do Trato pela Lagoa atua na fiscalização e no diálogo com a população para evitar ligações clandestinas de esgoto no ambiente”, completa.
Ocorrência semelhante em novembro
Em meados de novembro de 2021, siris foram encontrados mortos na Lagoa da Conceição, na região conhecida como Ponta do Pitoco. À época, biólogos ligados à UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) estiveram no local coletando a água para análise.
Na ocasião, o professor e biólogo Paulo Horta disse que, de novo, a Lagoa voltava a apresentar níveis baixos de oxigênio e que isso também poderia implicar na morte de animais.
“Observando a distribuição das concentrações de oxigênio, se identifica áreas com valores muito baixos, consideradas hipóxicas. Isso significa que as concentrações de oxigênio não são suficientes para a manutenção de organismos que têm uma demanda respiratória assim como os jovens dos siris”, explicou Horta.
Segundo o professor, a qualidade da água na Lagoa sofreu um grande impacto depois do rompimento da lagoa artificial em janeiro de 2021: “Depois do desastre de janeiro, a Lagoa da Conceição foi colocada muito próximo do seu limite ecológico, do seu limite de funcionamento. O que acaba se observando é a eutrofização, um fenômeno que leva ao aumento da respiração de todo o sistema e a produção dessas regiões com baixas concentrações de oxigênio.”
Balneabilidade
A plataforma do IMA (Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina) que mostra a balneabilidade do Litoral catarinense aponta que dos nove pontos de coleta na Lagoa da Conceição, apenas um se encontra em condição imprópria. O ponto se localiza no Canto da Lagoa, ao lado do Centro de Saúde. Os dados foram coletados na terça-feira (4).