‘Nosso corpo não é tendência’: como apostar na estética dos anos 2000 sem idolatrar a magreza

Especialistas avaliam por que a cintura baixa e os tops minúsculos voltaram com tudo, além de dar dicas para explorar esse estilo

Maria Fernanda Salinet Florianópolis

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Um dos poucos consensos na moda era de que as tendências que marcavam uma década ressurgiam atualizadas a cada 30 anos. Mas isso também mudou. A estética dos anos 2000 voltou com tudo e deixou as roupas mais vibrantes, as cinturas mais baixas e os tops ainda menores — o que reacendeu algumas polêmicas.

Jennifer Lopez, Britney Spears e Paris Hilton foram ícones pop dos anos 2000 – Foto: Reprodução/NDJennifer Lopez, Britney Spears e Paris Hilton foram ícones pop dos anos 2000 – Foto: Reprodução/ND

Deixar a pele à mostra não é uma exclusividade dessa estética, nem é algo ruim, a questão é como a cultura pop e a mídia criaram uma ideia distorcida de “corpo ideal” em muitas adolescentes da época, especialmente por idolatrar a aparência de ícones da cultura pop, como Britney Spears e Christina Aguilera.

A professora associada da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), Monique Vandresen, que estuda o papel das revistas femininas na construção de conceitos de moda, avalia que a tendência é considerada problemática ao pensar que “a imagem do corpo martirizava ou exigia um corpo da mulher muito magro”.

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Além da cintura baixa, Monique aponta que foi a partir dessa década a criação de tamanhos muito pequenos nos Estados Unidos, equivalentes ao 32, 34 e 36 no Brasil.

“O movimento recente das Kardashians, de tirar todos os preenchimentos do bumbum e dos seios para aparecer com um look de tamanho ‘zero’, também é um reflexo da moda. E é importante pensar que a maioria das mulheres não pode fazer isso”, diz a professora. “O corpo da gente não é tendência.”

A consultora de moda Kariene Wendhausen diz que a década pode ser resumida como o “culto ao jovem”, principalmente ao corpo feminino. “Quando a gente pensa na cintura baixa vem aquela barriga chapada na mente, né? Algo que eu tive aos 14 anos”, reflete.

Como lembra uma estética jovem, pode beirar ao infantil na cartela de cores e nos acessórios, afirma Kariene, e o ponto negativo é voltado à geração mais jovem, que pode sentir uma pressão de que precisa mudar seu corpo para usar uma determinada peça.

“Isso em 2000 era tão regra que restava a quem não tinha o corpo padrão sofrer e, quem estava dentro do padrão, viver. Era uma ditadura forte”, pontua a consultora.

Momento disruptivo

A tendência dos anos 2000 voltar à cena também pode ser explicada pela coincidência de momentos disruptivos. Na virada de 1999 para 2000, o possível bug do milênio causou um medo coletivo de que os computadores pudessem sofrer um pane no sistema. Já em 2020, o pavor do colapso surgiu pela pandemia de Covid-19.

“É a incerteza, mas também esse impulso, essa ânsia pela novidade do que viria depois. Eu acho que não é à toa que ela ressurgiu durante esse momento de pandemia”, aponta Kariene.

“Um período histórico, econômico e sociológico de muitas incertezas, onde a gente foi realmente questionado em tantas coisas, mas já estávamos com a internet, com a tecnologia, tudo bem mais avançado”, avalia a especialista, o que tornou mais fácil e rápido resgatar as tendências do início do milênio.

“E tinha sempre uma ‘poeirinha’ de um tempo lá atrás, agora parece que a gente revisita as datas sem essa ‘poeirinha’, parece que está logo ali.”

Além desse aspecto transitório, a professora Monique lembra que é um conforto buscar referências nas gerações anteriores.

“Se a gente pensar que os jovens dessa geração viveram dois anos de pandemia, enquanto podiam estar saindo e se divertindo, essa volta vai ser um gatilho para a busca de conforto, que muitas vezes vai estar na infância, no inicio da adolescência”, detalha Monique .

Estar na tendência sem cair na “pira pelo corpo”

A moda pode e deve ser divertida. Usar alguns elementos dessa estética — e de qualquer outra — é possível, sem abrir mão da própria identidade nem querer se encaixar em um padrão midiático, dizem as especialistas.

Além de incorporar as peças no guarda-roupa, a professora associada da Udesc questiona se “tudo o que discutimos nos últimos 10 anos e tentamos construir para sermos mais positivos com o corpo vai cair por terra com essas novas propostas”.

Uma solução é que a própria indústria, segundo ela, insira mais corpos diferentes nas passarelas e nas propagandas, e oferecer diversidade na hora da compra.

Kariene reflete que é preciso “mais uma vez para olhar para si mesmo com aceitação, porque a gente pode usar todas as tendências e qualquer uma pode se tornar uma pira no fim das contas”.

Uma boa dica é apostar nas cores, conforto e despojamento, que lembram a estética dos anos 60 e 70. Por exemplo, a calça cargo (mais larga) com um tecido mais social, a sobreposição de camisetas, as bandanas coloridas.

O uso das calças, camisas e jaquetas jeans estilizadas, com bordados, também é outra aposta interessante.

“Essa coisa da calça mais boca reta é algo que eu adoro muito dentro dos anos 2000. A calça que não está colada ao corpo, que a gente viveu aí também um tempo de tecidos agarrados, né? Eu sempre gostei desse conforto com um certo despojamento”, sugere a consultora de moda.

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