Pablo Rossi faz turnês internacionais e leva o nome de Santa Catarina para o mundo – Foto: Foto Flavio Tin/NDDo início, quando mal alcançava os pedais do piano e empilhava as partituras para alcançar as teclas às grandes salas de concerto em todo o mundo, a trajetória do pianista catarinense Pablo Rossi foi construída com muito talento, paixão, dedicação e profissionalismo.
Um idealista – sem ser utópico, como ele reforça–, o músico consegue manter sua essência artística em um meio que sofre muitas pressões externas e emociona multidões em suas apresentações em turnês e séries realizadas em diferentes países.
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“Uma grande qualidade do artista é ser extremamente sincero. Faço apenas o que acredito. O músico não pode ficar em uma bolha, precisa se engajar nas questões relevantes à sociedade, precisa conviver com todos esses agentes e fatores externos inerentes ao mercado, se aproximar do público, mas é preciso pensar como fazer isso e escolher a melhor forma, de uma maneira que não se subjugue a essas influências”, afirma.
SeguirNatural de São José, Pablo começou a tocar aos seis anos e conta que, na época, teve acesso a um panfleto que anunciava aulas de piano. Ainda não sabia ler, mas o talento já pulsava em suas veias e a foto do instrumento não saiu de sua cabeça. Ele precisava fazer essas aulas e pediu aos seus pais, que já eram amantes da música clássica. Seu irmão é violinista profissional e a irmã também estudou violino.
Os pais de Pablo decidiram, então, entrar em um consórcio para comprar seu primeiro piano, que chegou em apenas seis meses, sorte ou um empurrãozinho do destino para que todos pudessem conhecer seu talento, o Fritz Dober está até hoje na casa de seus pais na Pedra Branca, em Palhoça. “Tenho um grande carinho por esse instrumento, no qual comecei a estudar. Hoje já não posso mais treinar nesse piano, que é adequado para iniciantes, mas está guardado em casa e no coração”, explica.
A partir daí, ficou mais fácil alcançar as teclas, os pedais, os prêmios e o reconhecimento do talento. Pablo Rossi venceu o primeiro concurso ainda com sete anos de idade. Quatro anos depois gravou o primeiro CD e, aos 13, foi o mais jovem solista a tocar à frente da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo).
Aos 17 embarcou para a Rússia para estudar no Conservatório Tchaikovsky de Moscou, onde se formou. “Eu estudava e treinava, seguia aquela paixão pela música, mas isso acontece muito mais no subconsciente do que na consciência, eu não tinha a menor ideia, quando comecei a tocar e ganhar concursos, de onde isso ia me levar, o que era uma orquestra, carreira. Mas segui em frente”, conta.
Música brasileira na China
Hoje, aos 30 anos, Pablo mora em Nova York, onde cursa o mestrado na Mannes School of Music. “Mas acabo passando mais tempo fora do que lá”, conta ele, que passou alguns dias nesta semana em Florianópolis, mas já viaja na terça-feira para a China, onde fará uma turnê. Será o 5º concerto da série BIS (Brazilian Internacional Series). O projeto começou neste ano e tem por objetivo divulgar a música nacional, em diálogo com a europeia, até a nação da Ásia Oriental.
“Vamos levar a música brasileira para uma terra extremamente faminta por conhecer novas linguagens de arte. Existe uma grande demanda naquele país pela música clássica e, quando toquei lá pela primeira vez, identificamos isso. Enquanto aqui, muitas vezes, temos dificuldades em encher teatros médios, na China facilmente ficam lotadas casas com 1000, 1200 lugares. Então decidimos levar essa proposta, de divulgar nossa música lá. Temos pouquíssimo patrocínio para essa série, mas fomos atrás de apoiadores e contamos com muito apoio da embaixada brasileira em Pequim. Agora, já são dez meses de série e levamos para lá apresentações de um duo, violino e contrabaixo e um pianista solo”, afirma.
O repertório da série será diversificado e inclui músicas clássicas, MPB (Música Popular Brasileira) e música europeia. Pablo Rossi tocará sozinho e com a soprano Rosana Lamosa. “A música popular vem de uma origem europeia, então há naturalmente uma tendência de diálogo entre as duas culturas. Vamos tocar desde composições consagradas até o ciclo “Canções de Amor”, do compositor Cláudio Santoro, que ele fez em parceria com Vinicius de Moraes. Os dois se encontraram em Paris e compuseram a obra enquanto choravam as pitangas pelas mazelas da vida na cidade. O Vinicius fez a letra e ele a música”, explica.
Falta de apoio para arte
Em meio a tantas mudanças no mundo e na sociedade, a música também sofre com a falta de apoio do poder público e com as influências do mercado, avalia o pianista. “Uma frase que deveria estar sempre em evidência é: a arte não traz resultado imediato. É preciso criar raiz. Se o artista ou os governos não entenderem isso, a arte não vai permanecer”, analisa.
Para ele, a arte e a música clássica ainda são pouco divulgadas. “Com o nosso trabalho, percebemos que, muitas vezes, as pessoas se surpreendem quando conhecem um tipo de arte da qual nunca tiveram acesso. Elas voltam e querem mais, querem conhecer o diferencial e a profundidade da arte. Em 1900, São Paulo era a cidade que mais tinha pianos no mundo, por exemplo. Quer dizer, nós temos tradição, mas não valorizamos essas tradições. Faltam políticas governamentais de apoio ao artista, de bolsas de estudo, divulgação e até de manutenção dos nossos equipamentos públicos, que foram comprados, são caríssimos e não perdem em nada para instrumentos utilizados para os principais concertos no mundo. Mas que muitas vezes não recebem a manutenção adequada”, afirma.
Pablo Rossi considera que o músico deve ser ativo nos temas relevantes à sociedade e também se aproximar do público. Por isso sempre se envolve em eventos que sensibilizam a sociedade a refletir e melhorar. No próximo ano, ele vai tocar em São Paulo em um evento promovido pela Fundação Childhood, criada pela rainha Silvia, da Suécia, e que combate o abuso e exploração sexual de crianças.
“A causa é muito importante, é geral e emergencial. Vamos trazer artistas de outras áreas e outros gêneros para participar também. O artista tem que estar envolvido, não pode ser só mais uma peça de entretenimento”, diz.
Um pouco mais sobre Pablo Rossi
- Foi o ganhador do 1º Concurso Nacional Nelson Freire para Novos Talentos Brasileiros (2003).
- Ganhou seu primeiro concurso com sete anos e, desde então, conquistou prêmios em concursos internacionais, com destaque para Magda Tagliaferro, Encuentro Internacional de Jóvenes Músicos (Córdoba/Argentina) e Ciutat de Carlet (Espanha).
- Tem atuado como solista à frente de importantes orquestras, dentre elas: Orquestra de Câmara do Kremlin, de Moscou e de Auvergne, e as Sinfônicas de Kirov, Brasileira (OSB) e de São Paulo (OSESP).
- Nos últimos cinco anos, ofereceu mais de 80 recitais na Europa, Estados Unidos, África e América Latina, muitos dos quais graças ao apoio do Keyboard Charitable Trust de Londres.
- Também tem atuado como músico de câmara, apresentando-se em festivais por todo o mundo: Festival de Natal do Kremlin (Moscou/Rússia), Semana Musical Llao Llao (Bariloche/Argentina), Festival Pontino de Música (Sermoneta/Itália), Summer Piano Festival (Londres/Inglaterra) e Festival de Campos do Jordão (Campos do Jordão/Brasil).
- Recentemente Pablo tem ministrado masterclasses em diversas universidades, como a Faculdade de Música da Unam (Cidade de México/México) e Universidad de los Andes (Bogotá/Colômbia).
- Além de sua intensa atividade como solista e camerista, Pablo tem atuado na criação de projetos e séries musicais, assim como a fundação do Concurso Internacional de Piano de Santa Catarina (Brasil). Atualmente é Diretor Artístico da série “Concertos Promenade” (Brasil) e da Fundação “Hand in Hand” (Bélgica), através da qual organizou o Concerto Comemorativo dos 75 anos da pianista argentina Marta Argerich.