A hora de tirar os grandes músicos do ostracismo em Florianópolis

O problema é que essa cidade costuma esquecer os grandes compositores que teve e não se esforça para mostrar às novas gerações o legado deixado por eles

Paulo Clóvis Schmitz – Especial para o ND Florianópolis

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Não há dúvida de que Florianópolis é uma cidade musical. A natureza exuberante é um convite à poesia e à gestação de canções dos mais distintos gêneros e estilos. O problema é que essa cidade costuma esquecer os grandes compositores que teve e não se esforça para mostrar às novas gerações o legado deixado por eles.

Dá para contar nos dedos quem luta contra a corrente – em geral, gente que traz nas veias a marca do talento de familiares que cantaram em prosa e verso as peculiaridades locais. Não por acaso, a cantora Cláudia Barbosa, filha de Cláudio Alvim Barbosa, o Zininho, e o cineasta Zeca Pires, filho de Aníbal Nunes Pires, estão nessa lista.

Antunes Severo e Zininho, o autor do “Rancho de amor à Ilha” – Foto: Reprodução/NDAntunes Severo e Zininho, o autor do “Rancho de amor à Ilha” – Foto: Reprodução/ND

Um projeto que vai ajudar a tirar gente boa do limbo está em vias de ser viabilizado. Dividido em seis episódios, “O Som da Ilha – Época de Ouro” vai abordar, em forma de documentário, a vida e obra de Neide Mariarrosa, Zininho, Abelardo Souza, Luiz Henrique Rosa, Gentil do Orocongo e José Cardoso, o maestro Zequinha. Só feras, para começar, porque o rol de geniais compositores de Florianópolis é interminável. E esses grandes nomes da música serão tema do trabalho de seis cineastas igualmente respeitáveis – Maria Emília de Azevedo, Zeca Pires, Eduardo Paredes, Isabela Hoffmann, Iur Gomez e Antônio Celso dos Santos.

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Cada um dos homenageados – alguns deles mais cantores e instrumentistas do que compositores, como Neide e Gentil do Orocongo – daria um filme de longa metragem, um livro, uma série com muitos capítulos. Luiz Henrique Rosa (1938-1985) foi um nome importante da bossa nova e tocou com mestres do gênero nos Estados Unidos, na década de 1960. Neide Mariarrosa (1936-1994) chegou a morar no Rio de Janeiro, levada por Elizeth Cardoso, mas sucumbiu à saudade da terra e retornou a Santa Catarina quando todos apostavam numa brilhante carreira de projeção nacional.

Neide Mariarrosa (1936-1994) chegou a morar no Rio de Janeiro – Foto: Reprodução/NDNeide Mariarrosa (1936-1994) chegou a morar no Rio de Janeiro – Foto: Reprodução/ND

De Zininho (1929-1996), tudo o que se falar é pouco. Autor de “Rancho de amor à Ilha”, hino de Florianópolis, ele deixou centenas de composições brejeiras, sambas-canções e marchinhas que encantam pela singeleza e criatividade. Cláudia Barbosa era criança e já frequentava os estúdios das rádios Guarujá e Diário da Manhã, onde o pai se movimentava com desenvoltura, como técnico de som, sem deixar de criar, cantar e encantar os amigos com seu jeito de manezinho nascido na localidade de Três Riachos, interior de Biguaçu.

Zininho teve outro grande mérito: guardou muita coisa importante, gravações próprias e de outros artistas, programas radiofônicos inteiros e novelas de rádio, além de equipamentos como gravadores e microfones, que a família doou para a Casa da Memória de Florianópolis. “Meu pai tinha paixão pela música, mas também pelos amigos”, diz a filha Cláudia. Por isso, preservou para a posteridade também o que não era de sua autoria.

Artistas peculiares e diferenciados

Gentil Nascimento (1945-2009) foi uma figura ímpar na cultura de Florianópolis. Um dos poucos artistas do Brasil e confeccionar e tocar o orocongo, espécie de violino monocórdio com raízes africanas, ele descia do maciço do Morro da Cruz para fazer das ruas o seu palco – e ganhou projeção e respeito com isso. Autodidata, não deixou herdeiros no culto ao instrumento, razão pela qual o resgate de sua herança é fundamental para a própria história da cidade. Seu trabalho chegou a ser apresentado em São Paulo e aparece na abertura da faixa-título do disco “Vou botar meu boi na rua”, do grupo Engenho.

Abelardo Souza (1920-1986) tinha a música no DNA, como neto de José Brazilício de Souza, autor do Hino de Santa Catarina (que teve letra de Horácio Nunes Pires). Foi pianista, compositor, maestro, escritor, jornalista e professor. Obras suas estão no disco “Memória musical catarinense”, da Camerata Florianópolis. Deixou hinos, melodias populares, temas para concertos e canções para coros orfeônicos.

O Regional do Zequinha fez muitos shows na cidade e no Estado, mas o maestro José Cardoso também compôs chorinhos, tornando-se referência no gênero aqui e fora de Santa Catarina. Exímio violonista, encerrou a carreira como solista de sua banda, uma das mais requisitadas da Grande Florianópolis. Criou a revista “O Rádio Catarinense” e também dedicou parte da vida à docência.

Cláudia Barbosa desenvolve projeto de repositório de obras de Zininho – Foto: Leo Munhoz/NDCláudia Barbosa desenvolve projeto de repositório de obras de Zininho – Foto: Leo Munhoz/ND

Muitos compositores à espera de resgate

Se “O Som da Ilha – Época de Ouro” pretende ser uma antologia documental de personalidades que viveram e cantaram em Florianópolis, deixando uma contribuição para a memória cultural da cidade, o que ainda há por fazer por estes e outros artistas é um desafio que só um grande projeto – de longo prazo e com apoios institucionais – poderia encarar.

Cláudia Barbosa desenvolve, em parceria com a professora Ana Cláudia Perpétuo de Oliveira, do curso de Biblioteconomia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), e seus alunos, o projeto de um repositório das obras de Zininho, que deixou recortes de jornais, CDs, fitas K7 e rolos de gravações que ajudam a contar a história do rádio e da música na Capital.

Mas ela sabe que há incontáveis artistas que caíram no esquecimento, injustamente, na cidade. Por isso, para o futuro há a ideia de fazer documentários sobre nomes como Aldo Gonzaga, Nelson Wagner (grupo Couro e Corda), Osvaldo Ferreira de Mello, Nabor Ferreira, Waldiz Brazil e figuras mais recentes, como André Calibrina, Maurício Muniz (grupo Engenho), Daniel Lucena (Expresso Rural) e Zuvaldo Ribeiro.

Cada um a seu modo, e em gêneros distintos, esses músicos fizeram um trabalho de alta qualidade. Zuvaldo Ribeiro chegou a esboçar uma carreira nacional, mas morreu sem deixar um disco gravado, permanecendo na memória de seus conterrâneos como um artista diferenciado, talentoso e criativo, autor de canções como “Apenas doce” (com a qual venceu uma edição do Prêmio Zininho de Música Popular, nos anos 80) e “Menininha” (que chegou a ser apresentada em um programa de rede nacional de televisão e foi muito tocada em rádios).

Osvaldo Ferreira de Mello foi professor universitário, jurista, historiador e compositor. Deixou 14 livros publicados e, na música, compôs “Florianópolis”, ainda executada por artistas instrumentais, e “Itaguaçu”, gravada por Elza Soares.

A lista de compositores de Florianópolis à espera de um resgate vai além, mas nem todos deixaram registros significativos – no máximo, letras datilografadas e gravações em meios precários e de baixa qualidade sonora. Os espaços para tocar também diminuíram, e o que resta são bares que abrigam músicos de samba e chorinho. A pandemia de covid-19 dispersou ainda mais os artistas, e muitos deles tiveram que vender instrumentos para sobreviver. “Nossa cidade é inspiradora, mas falta uma política para tirar os talentos do ostracismo”, diz Cláudia Barbosa, que vez fazendo a sua parte.

E mais…

– O projeto “O Som da Ilha – Época de Ouro” tem a coordenação geral de Zeca Pires, coordenação de pesquisa de Cláudia Barbosa, produção de Maria Emília de Azevedo, produção musical de Fran Lima, coordenação de roteiro de Marcelo Esteves, design de Jorge Canto e consultoria musical de Antônio Carlos Miguel (jornalista especializado em música com passagem pelos principais veículos de imprensa do país).

– Na apresentação do projeto, os proponentes afirmam que, “através da biografia dos personagens, a narrativa permite revelar antigos espaços culturais da Capital, como a porção leste do Centro da cidade, que concentrou um considerável número de cinemas, teatros, rádios, clubes e bares de hotéis por onde inevitavelmente todos esses personagens acabaram por transitar”.

– Cláudia Barbosa ressalta que há muitos músicos realizando um bom trabalho atualmente na Ilha de Santa Catarina e cita alguns deles: Dandara Manoela, Reizinho do Violão, Neco, Álisson Mota, Denise de Castro, Iara Germer, Gilson Duarte, Beto Mondadori, Tatiana Cobbett e Waldir Agostinho.

– Outro projeto de Cláudia é colocar o disco “Eu sou assim”, de Neide Mariarrosa, no Spotify. Seria uma maneia de tornar mais popular o trabalho de uma grande intérprete catarinense.

– Em 2009, Liza Minnelli lançou a coletânea “Liza A&M the complete A&M Recordings”, com sucessos de sua carreira, e incluiu três canções de Luiz Henrique Rosa, gravadas pelos dois na década de 1960 em Nova York.

– Durante a pandemia, foi criado pelo violonista Guinha Ramires o SOS Músicos, uma iniciativa destinada a socorrer artistas em má situação financeira após perderem emprego e espaços para tocar. Centenas de cestas básicas foram distribuídas em Florianópolis e região, mas ainda há gente tentando voltar ao estágio pré-pandemia.

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