Após um ano sem trabalho, músicos de SC vendem os próprios instrumentos para pagar contas

Bares tradicionais desapareceram e restaurantes que ofereciam música ao vivo não têm mais receita para pagar os artistas

Foto de Paulo Clóvis Schmitz

Paulo Clóvis Schmitz Florianópolis

Receba as principais notícias no WhatsApp

“Como é bom poder tocar um instrumento”, diz a letra de Caetano Veloso. Mas pense num músico que precisou vender o piano e o contrabaixo para dar de comer aos filhos, em outro que ganha a vida cantando e está à beira da indigência e num terceiro que depende da cotização de familiares para pagar o aluguel da casa onde mora.

São situações corriqueiras, que se perdem em meio aos estragos feitos pela pandemia de Covid-19, mas que pouco aparecem para o grande público porque, afinal, a prioridade é cuidar da saúde da população. Música, arte, cultura, lazer, fruição? Para muitos, isso é perfumaria.

Allende da Silva Pereira abre o Eta Bar, no Centro de Florianópolis, duas vezes por mês para tentar pagar o aluguel do espaço – Foto: Leo Munhoz/NDAllende da Silva Pereira abre o Eta Bar, no Centro de Florianópolis, duas vezes por mês para tentar pagar o aluguel do espaço – Foto: Leo Munhoz/ND

Aqui e em outras plagas, pipocam notícias de bares tradicionais que desapareceram, deixando sessentões saudosistas das velhas tertúlias. E de restaurantes que ofereciam música ao vivo e não têm mais receita para manter os cachês em dia. E de casas de espetáculo que não recebem shows há mais de um ano, fechando as portas para cantores, instrumentistas, técnicos, iluminadores e sonoplastas.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir

Uma rápida consulta junto aos músicos dá uma noção do abismo entre a situação anterior a março de 2020 e os dias de hoje. “Perdi tudo o que investi em anos, mas priorizei a minha saúde e a família”, diz Neco (nome artístico do cantor e compositor Orlando Mello), que fechou o bar Qualé Mané, referência no samba de raiz em Florianópolis, no primeiro dia da pandemia.

Neco tem notícias de gente que faz lives para arrecadar algum dinheiro, de campanhas para distribuir cestas básicas aos artistas, de músicos vendendo CDs pela internet. Ele ainda se desdobra para pagar as dívidas que contraiu quando o Qualé Mané operava e sofre sabendo que mais de 40 pessoas que se revezavam na casa durante a semana tiveram que correr atrás de outras fontes de renda. “É frustrante não poder fazer nada por pessoas que estão até passando fome”, diz, com desânimo na voz.

Neco fechou o bar Qualé Mané no primeiro dia da pandemia – Foto: Leo Munhoz/NDNeco fechou o bar Qualé Mané no primeiro dia da pandemia – Foto: Leo Munhoz/ND

À beira da falência

Outro dono de bar cuja vida a pandemia virou de pernas para o ar é Allende da Silva Pereira, músico respeitado, com cinco discos autorais e um DVD gravado, que abre o Eta Bar, no Centro de Florianópolis, duas vezes por mês para tentar pagar o aluguel do espaço.

“Vinha me mantenho a duras penas, e agora cheguei a um ponto em que estou quase falido”, diz o artista, que respeita o decreto municipal de não vender bebida após as 18h e, assim, perde a clientela que ia ali justamente para beber e ouvir boa música.

Se outros se desfizeram de baterias, teclados, instrumentos de corda e percussão para comer, ele conta com a ajuda da mãe e de irmãos que se cotizam para ajudá-lo a atravessar esses dias difíceis.

Com sonhos desfeitos e de volta à casa dos pais

Não menos preocupante é a situação de André Almeida, presidente da OSSCA (Orquestra Sinfônica de Santa Catarina) desde 2015. Ele não é músico, mas gestor, porém paga o preço de viver profissionalmente de uma atividade cultural por excelência que é administrar um grupo que desde 1993, quando estreou sob a batuta do maestro José Nilo Valle, e tem o desprezo dos governantes catarinenses.

A orquestra já teve o CIC (Centro Integrado de Cultura) como sede, mas vem sendo frequentemente desalojada de endereço e hoje seus instrumentos estão espalhados em diferentes espaços da Capital. Com a crise sanitária, sem ter como fazer concertos e participar de eventos, vários músicos – muitos vindos de outros Estados e até da Argentina, Chile e Romênia – voltaram para suas cidades, pedindo abrigo na casa dos pais.

Aos 36 anos, André Almeida tem duas filhas pequenas e nos últimos 12 meses já vendeu um piano, um contrabaixo e um notebook, preservando apenas instrumentos de menor valor, para pagar as contas e sustentar a família.

“Alguns músicos foram despejados de onde moravam ou apelaram para pais e irmãos para honrar o aluguel”, diz ele. A Lei Aldir Blanc, criada no ano passado para safar artistas que ficaram sem trabalho, não conseguiu atender a todos, por causa da vasta documentação solicitada. Em Florianópolis, as exigências beiram o absurdo

Assim, no caso da OSSCA, quando tudo passar vai ser necessário começar do zero, chamar novos músicos, ensaiar e montar uma nova agenda de apresentações. Para uma sinfonia são mobilizadas cerca de 120 pessoas, contando os músicos e a estrutura de apoio

Sanidade emocional em risco

Locutor, pesquisador musical e DJ, Marcelo Pimenta trabalhava para renovar seus equipamentos quando a pandemia chegou e jogou todos os planos por terra – e, pior, deixou-o nocauteado, sem renda para o básico. Brincando com a situação, apesar de tudo, ele faz uma analogia da crise sanitária com o nome de uma de suas bandas preferidas, a AC/DC – “antes da Covid, depois da Covid”.

De uma agenda cheia para a falta de trabalho, foi um pulo. Sem dinheiro e por causa de cuidados com o distanciamento social, praticamente não tem contato com a ex-mulher e a filha de 15 anos.

DJ Marcelo Pimenta aprendeu a fazer lives e vem aceitando trabalhos eventuais – Foto: Daniel Combat/Divulgação/NDDJ Marcelo Pimenta aprendeu a fazer lives e vem aceitando trabalhos eventuais – Foto: Daniel Combat/Divulgação/ND

Depois da folga temporária patrocinada pelo auxílio emergencial de 2020, a solução encontrada foi aprender a fazer lives e aceitar trabalhos eventuais, mais ou menos seguros (“tudo dentro do permitido”), para poder pagar as despesas básicas.

Quando começava a respirar, veio o decreto que fechou quase tudo, em quase todos os horários. Adiantamentos por conta de cachês de futuros casamentos e a compreensão do dono do imóvel onde mora ajudaram a driblar momentaneamente a crise, mas ele precisou fazer “vaquinhas” para honrar os compromissos mais urgentes.

Marcelo chegou a dividir renda com amigos que o ajudaram nas lives e aposta na vacinação em massa para que a normalidade se instale novamente. Tentou acessar os recursos de Lei Aldir Blanc, mas não teve sucesso e nem o retorno das demandas junto aos órgãos públicos que operavam o programa no Estado. “Em condições normais, pesquisava, trabalhava muito, planejava as coisas, mas agora até a sanidade emocional está em risco”, afirma.